A mudança para Portugal deveria ter sido temporária. Em julho de 2022, após seis meses a viver em guerra, Kostiantyn Hutnyk e a mulher, a sommelier Anastasiia Kornilova, percorreram de carro os cerca de cinco mil quilómetros que separam Lisboa da cidade de Odessa, na Ucrânia, onde se encontrariam com amigos à distância. Não voltaram a olhar para trás.
“Assim que cheguei, comecei a estudar o mercado local e a trabalhar em bares e restaurantes”, explica-nos o mixologista, de 37 anos, a trabalhar no setor há quase duas décadas. Durante este período, foi empregado de mesa, barman e geriu equipas compostas por dezenas de trabalhadores.
Por cá, não precisou de mais de quatro anos para fazer nascer o Pinch, um novo bistro e bar de Lisboa, que tem como protagonista o marisco. Abriu em soft opening em dezembro de 2025 e, no início deste ano, já estava oficialmente a funcionar em Picoas, mudando de pele ao anoitecer.
Os uniformes denunciam o conceito deste spot. De dia, à medida que os clientes se juntam na esplanada para petiscar ou beber um copo, os funcionários vestem-se de rosa; quando o sol se põe, mudam para um tom mais esverdeado. Essa transformação é acompanhada por música e animação, com muitos cocktails à mistura.
“Não podíamos representar a cozinha portuguesa, por isso decidimos concentrar-nos numa outra missão. A nossa ideia sempre foi ter um espaço cosmopolita”, revela Kostiantyn, que foi à procura de marisco internacional de qualidade”, inspirado na sua zona “com pessoas de todo o mundo”.
O mixologista é o primeiro a admitir: entre tascas e marisqueiras, “a concorrência em Lisboa é realmente forte”. O Pinch destaca-se pela aposta nos favoritos da casa, o lobster roll (24€) e o crab roll (23€) que fazem parte do conceito “casual premium” do espaço, onde tudo é pensado para ser partilhado.
Enquanto a primeira proposta conta com carne e de lagosta cozida ao vapor com aioli, kimchi e bisque, com molho de aipo e pepino por cima; a segunda, por sua vez, junta ao caranguejo um molho inspirado em maionese japonesa, ovo cozido e mostarda, pepino fresco e milho em molho agridoce.
O nome, Pinch (“beliscão”, em português) deve-se ao facto destes dois animais possuírem pinças. Os fundadores começaram então a brincar com o termo e com a ideia de que, “se isto é assim tão bom, belisquem-me, porque pode ser um sonho”, brinca o responsável, que gravou a frase “somebody pinch me” nas camisolas dos funcionários.
A hora a que os clientes chegam faz toda a diferença. Afinal, alguns pratos só estão disponíveis até às 18 horas. É o caso da omelete francesa com lagosta (23€); o tom yum, uma sopa tailandesa picante (23€); ou ou a rabanada francesa (11€).
Quando as luzes baixam e a música começa, é hora de novos petiscos. Passam a destacar-se a gilda de anchovas (10€), cujas azeitonas podem ficar a marinar até 18 horas, batatas fritas doces com creme de trufa (8€), camarões vermelhos crus (19€), um carpaccio de camarão do Algarve com azeite, citrinos e pimenta sichuan (19€) ou as ostras frescas (19€, seis unidades).
A par dos bestsellers, há opções para quem prefere fugir ao marisco ou pratos mais populares. Para essas pessoas, entra em jogo o clássico japonês sando de frango frito (16€), o smash burger da casa a smash sandwich (18€) ou o arroz frito com caranguejo levemente asiático (25€).
“Não somos um restaurante, nem um bar de cocktails. Somos 50/50”, frisa o criativo. “As pessoas entram, pensam ‘que fixe, temos sandes de lagosta’ e, depois, descobrem que também temos cocktails.”
E acrescenta: “Em Lisboa, sentimos que estava tudo muito separado. Há restaurantes fantásticos, mas sem bons cocktails, e bares com bebidas ótimas, mas que não têm comida para acompanhar. Conseguimos ter uma combinação muito boa para quem procura esse equilíbrio.”

As prateleiras no interior, cheias de garrafas, não enganam. Estas referências são as bases para propostas como o Liquid Leaf (13€), que tem kiwi dourado, erva-príncipe, pepino, capim-limão, licor de coco e vodka; e o Starfall (13€), que leva gin, cachaça, sake, sumo fresco de carambola, maçã, chá de trigo sarraceno, lima e uma pitada de sal.
“Os cocktails de alta qualidade são a minha especialidade, mas também há vinhos dos Açores, do Algarve e do Douro. Metade são portugueses, a outra metade é de origem internacional. Isso resume, de certa forma, o nosso conceito”.
Se ainda tiver espaço nas sobremesas, o Pinch aposta sobretudo em combinações improváveis. Os mais elogiados têm sido o cheesecake de queijo de cabra com compota caseira de mirtilo (8€) e o brownie de chocolate com lavanda (6€).
Onde em tempos funcionava uma tasca tradicional, vemos agora refletido o gosto de Kostiantyn e Anastasiia. No pavimento, há mosaicos a combinar com algumas paredes de metal, bem como apontamentos de madeira natural e vários tipos de mármore. É industrial, mas tentaram manter um ambiente acolhedor.
“Não somos snobs. O nosso design pode ser clássico e somos profissionais, mas procuramos ser simpáticos acima de tudo”, acrescenta o responsável. “Todos podem sentir-se à vontade, sem qualquer pressão para usar roupa de gala. Qualquer pessoa pode aparecer todos os dias para beber uma Coca-Cola sem formalidades.”
Lá dentro, entre mesas altas e sofás junto às paredes, há lugar para 26 cadeiras. A capacidade aumenta com a esplanada onde conseguem sentar mais 14 clientes que queiram aproveitar os dias (e também as noites) quentes. Ainda no balcão, há quem opte por ficar a beber e a conversar com os barmen.
Nos últimos meses, a agenda tem provado que o conceito do Pinch veio para ficar. Entre datas como o Dia Internacional do Pisco Sour ou o Dia Mundial do Whisky, há festas temáticas e cocktails especiais ao longo de todo o ano. Pelo meio, o casal recebe amigos para dar outras novidades aos clientes. O melhor é não virar a cara a todos os planos deste gastrobar.
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