Estudou na Suíça, trabalhou como chef na Alemanha e, em Espanha, abriu três restaurantes com um menu inteiramente português. “Vivi os últimos 30 anos por diferentes países da Europa, cheguei a receber várias vezes o Pepe, ex internacional português no meu restaurante em Madrid, e foi na capital espanhola que fundei o Núcleo do Sporting”, recorda Paulo Carvalho, de 55 anos. De regresso a casa, em setembro de 2025, o chef lisboeta decidiu abrir o Bellos Sabores, uma mercearia de produtos regionais e petiscos em Algés. A estrela? Uma “bifana diferenciada”.
Logo nos nos primeiros meses, começou a procurar algo ligado à restauração. Sabia o que não queria fazer, mas tinha dúvidas sobre que tipo de serviço queria prestar. “Não queria ter um restaurante, hoje em dia é uma gestão muito complicada e difícil. Não só a nível do pessoal, como também dos produtos, está cada vez mais caro ter um restaurante e infelizmente estamos a caminhar para uma realidade nórdica, onde ir comer fora é um luxo”, conta à NiO. O objetivo era continuar na área, mas com um conceito diferente: queria um espaço com produtos regionais e alguns petiscos.
Apesar de ser natural de Belas, Paulo foi procurando um espaço pelo concelho de Oeiras, por saber que era uma zona competitiva, até surgir a oportunidade de um pequeno espaço em Algés com cerca de 24 metros quadrados, onde criou uma “casa de tapas, com petiscos e uma mercearia especializada, com produtos regionais”.
A Bellos Sabores abriu no início de março e conta com uma montra recheada. Por lá encontra queijos, enchidos, conservas, azeite e vinhos de produtores portugueses, bem como petiscos para comer na hora, como tábuas de queijos e enchidos, bifanas no pão, sandes de leitão ou carne assada e empadas.
“Em relação aos vinhos tenho duas referências do Alentejo, uma do Dão e uma de vinho verde e ainda uma de Frisante, que combina bem com o leitão. No Bellos Sabores há três tipos de queijos, alentejanos, da Serra da Estrela e da Serra da Gardunha, que são só de cabra. Quanto aos presuntos e enchidos vêm da Serra da Estrela e da zona de Mértola, para produtos com porco preto”, conta.
A estrela, garante, são as bifanas no pão (4€), que garante que “são diferentes” das outras. Aqui, a bifana recebe um tratamento especial, com um corte fino, e fica a marinar até três dias antes de ser confecionada. “O tempero é o segredo, fica a marinar entre dois a três dias, em massa de alho e pimentão, louro, vinho branco e sal. Depois o toque especial está na forma de fritar, sempre com banha de porco para dar o sabor”, confessa.
Outro petisco que espera que desperte a atenção de quem passa perto do Mercado de Algés é o leitão, que “é assado à moda de Negrais, ou seja, é aberto e fica espalmado, depois é assado num forno a lenha”. No espaço, é possível comer ao balcão, com capacidade para oito pessoas, ou, em dias de sol, optar pela esplanada, que tem capacidade para 24 clientes.
O percurso do chef alfacinha
Desde cedo que Paulo ganhou gosto pela cozinha. “Não foi uma coisa que nasceu comigo ou que surgiu quando era miúdo, mas com os meus 20 anos gostava de receber amigos em casa e cozinhar para eles, fazer petiscos”, conta.
Decidiu então formar-se na área e tirou dois cursos de cozinha na Escola de Hotelaria do Estoril, entre 1995 e os anos 2000. Rapidamente percebeu que queria aprofundar conhecimentos e, em 2006, foi para a Suíça estudar. “Fui para Genebra tirar um curso de cozinha internacional e, assim que acabei, arranjei trabalho por lá”, conta. Começou num espaço italiano na cidade suíça, onde trabalhava como cozinheiro e, quando necessário, também fazia sala. Ficou por lá durante quatro anos.
“Depois surgiu uma oportunidade de ir para Madrid trabalhar para a companhia Le Pain Quotidien e fiquei por lá um ano. Comecei a perceber que queria abrir algo meu e, em 2008, lancei-me num projeto próprio – abri o restaurante Fado Português”, recorda. Com um menu totalmente português, conquistou os espanhóis, sobretudo com o bacalhau preparado de várias formas. “O que mais procuravam era o bacalhau, eles amavam, fazia à gomes de Sá, à lagareiro, com natas, assado, à Zé do Pipo.”
Chegou a receber visitas especiais de figuras conhecidas. “O Pepe vinha cá muitas vezes comer francesinhas, depois recebia muitos jornalistas de meios de comunicação espanhóis, como ‘A Marca’ ou a ‘AS’”, recorda. Durante o período em Espanha, abriu mais dois espaços, também em Madrid, “com o mesmo nome e os mesmos petiscos”. Um dos momentos que mais destaca foi a fundação do primeiro Núcleo Sportinguista na cidade. “Fundei em 2015 o Núcleo do Sporting e foi incrível. No Europeu de 2016 tive vários canais de televisão aqui, porque juntaram-se muitos portugueses no nosso espaço e foi especial”, diz.
Em 2018, motivado pela vontade dos filhos de estudarem na Alemanha, mudou-se para Gutenberg, para iniciar um novo capítulo a nível profissional e familiar. “Vendi todos os restaurantes e deixei a direção do núcleo. Fui trabalhar para a cozinha de um restaurante português, a Casa do José, estabeleci muito contacto com fornecedores do nosso país”, relembra.
Ao fim de um ano, decidiu apostar num projeto com maior contacto com o público e lançou-se na venda de produtos portugueses online, ao mesmo tempo que marcava presença em eventos de gastronomia com a sua food truck. “Comprei uma carrinha e comecei a fazer petiscos nacionais em eventos, vendia bifanas, pastéis de nata, vinhos, enchidos e conservas. O que vendia mais era sem dúvida o pastel de nata, porque é muito conhecido e as bifanas foram também um sucesso.”
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