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New Talent: Ana Magalhães, a jovem chef que quer fazer uma cozinha para todos

A jovem de Lamego quer mostrar que as intolerâncias não são um problema. E que devemos valorizar as receitas tradicionais. É uma das finalistas do New Talent.
Foi vencedora do Chefe Cozinheiro do Ano 2022

Foi uma surpresa que lhe virou o mundo do avesso. Chef profissional, Ana Magalhães viu-se a braços com uma doença autoimune que trazia consigo intolerâncias alimentares. De um momento para o outro, deixou de ingerir glúten e lactose: um problema complicado de contornar para alguém que passa os seus dias a provar comida.

A jovem de 26 anos deu a volta e é hoje uma das promissoras jovens chef de Portugal. O talento trouxe-a até ao lote de finalistas da quarta edição do New Talent, o concurso promovido pela NiT, TVI e Santa Casa da Misericórdia de Lisboa para eleger os melhores jovens talentos de Portugal na área do lifestyle. No final, o vencedor irá receber 10 mil euros para desenvolver um projeto pessoal ao longo do próximo ano.

A paixão de Ana Magalhães começou em casa, ao lado da mãe, entre os tachos e panelas, e com o pai, na horta. Sempre a cozinhar para si e para os irmãos.

Da necessidade e dos hábitos diários nasceu um talento que viu a jovem de Lamego conquistar, este ano, o título de Chef Cozinheiro do Ano. Mas o caminho até à consagração começou muitos anos antes, numa idade precoce.

Aos 14 anos, já estudava na Escola de Turismo e Hotelaria de Lamego. O curso profissional afastou-a do percurso normal dos outros colegas, que seguiram para o ensino secundário tradicional. “Foi difícil”, confessa. “Já era um mundo profissional. Fazíamos serviços aos fins de semana, eventos, deixei amigos para trás. É violento começar a trabalhar tão cedo. Obrigou-me a crescer muito rapidamente.”

Para trás ficou também o sonho de entrar para a Academia Militar. Era a “baby” do curso, mas cresceu e percorreu o País. Fez o primeiro estágio no Douro, com 15 anos. Aos 16 foi para o Alentejo. Aos 17, rumou ao Algarve. Regressou sempre a casa.

A casa é Lamego, onde viveu com os pais e os dois irmãos. Foi aí que se familiarizou com os sabores da terra, os hábitos, as receitas.

“Cresci numa região rural. Os meus pais têm um talho, mas também tínhamos uma horta”, explica. Recorda-se dos dias em que só precisava de ir à horta para apanhar ingredientes para o jantar. Era tudo simples.

“Sempre gostei de cozinha. Era a mais velha de três irmãos e todos tínhamos que ajudar. A minha tarefa era cozinhar”, conta. “Gostava muito de o fazer, sobretudo ao lado da minha mãe. Eu aprendi com ela e ela agora aprende comigo (risos).”

As memórias estão naturalmente recheadas dos aromas e sabores da infância. Um dia, decidiu provar as maçãs e os trevos, perante o olhar confuso do pai. A combinação deu origem a “um prato com molho de maçã e trevo, ao qual juntei robalo”.

Terminado o curso, estreou-se mais a sério na cozinha do recém-inaugurado Six Senses Douro Valley, aquele que hoje é um dos melhores hotéis do país. Poucos meses depois viajou até Amarante, para fazer parte da equipa do Largo do Paço, restaurante com uma estrela Michelin.

“Gosto muito do fine dining, é algo com que me identifico bastante”, conta. Depois surgiu um percalço, o diagnóstico de uma doença autoimune que a limitava na cozinha. “Era complicado para mim trabalhar em fine dining nessas condições”, sublinha. Decidiu regressar ao Six Senses, onde as ementas têm em atenção todas essas restrições.

“Faço parte da chefia, da organização, do controlo, tenho que provar muitos pratos e ali posso estar à vontade”, conta. “É uma oportunidade para mostrar que estas restrições não são um problema, que é possível adaptar tudo.”

Outro motivo justifica o regresso: a preocupação do hotel com a sustentabilidade. “O respeito pelo produto, a preocupação com a pegada ecológica. São tudo políticas da empresa que valorizo imenso.”

Na cozinha, valoriza “os recurso locais”, o “conhecimento antigo” e a “criatividade”. Para Ana, ir buscar todos estes elementos e combiná-los é “importantíssimo”. Foi isso que fez quando decidiu, sem grandes ambições, concorrer ao Chefe Cozinheiro do Ano, o concurso que anualmente procura alguns do mais talentosos cozinheiros de Portugal.

Quando concorreu à edição regional, custou-lhe enfrentar os colegas de cozinha, mas assume que ia com intenções de se testar, de sair da zona de conforto e ver como reagia à pressão da competição. Não imaginava que iria passar, mas passou.

Não só chegou à competição nacional e à final, mas conquistou três dos quatro prémios atribuídos, entre eles o mais importante de todos. E fê-lo mantendo-se fiel à sua filosofia.

“Quis pegar em pratos que traduzissem memórias da infância. Todo o menu é um tributo, uma agradecimento à minha família”, conta. Fez um escabeche inspirado nos pratos da mãe, um bacalhau com grão em reinterpretação do prato que comiam sempre aos domingos — e uma sobremesa que agarrava nas abelhas, nos limoeiros e nos dias de verão na piscina.

“Não esperava, de todo, chegar tão longe. Mas depois, só imaginava ganhar a viagem à Noruega (risos).” Agora, dá por si noutro concurso nacional, o New Talent, e perante a possibilidade de ganhar o prémio de 10 mil euros, confessa os seus planos.

“Gostava de me juntar a historiadores que investigam o receituário antigo. Quero ir à tradição, buscar os que está perdido, escondido. Quero apostar numa cozinha de tradição que depois podemos inovar, tendo sempre por base o conhecimento dos mais antigos.”

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