Restaurantes

No Sheroes’ Hangout a comida indiana tem outro sabor e significado

Rostos desfigurados, visão limitada, braços mutilados. Neste espaço, o masala chai é servido pelas mãos de sobreviventes.
É mais do que um projeto de restauração.

A comida indiana tem chegado a Portugal e conquistado o paladar de muitos portugueses. Frango lasooni tikka, masala beans ou naan. Com sabores picantes eum toque de coco, poucos são aqueles que resistem a uma boa garfada. Se comer num dos muitos restaurantes abertos na capital é bom, imagine fazê-lo a dois quilómetros de distância do Taj Mahal. Quem chega ao Sheroes Hangout, mais do que pela comida, ou vista, fá-lo pelas histórias. O motivo pode ser conflituoso.

Rostos desfigurados, visão limitada, braços mutilados. Neste espaço, o masala chai é servido pelas mãos de sobreviventes de ataques de ácido. Inaugurado em dezembro de 2014, em Agra, uma cidade no estado de Uttar Pradesh, no norte da Índia, o Sheroes Hangout começou como um projeto de financiamento coletivo do Stop Acid Attacks — um grupo comprometido com o fim dos atos de violência contra as mulheres. Aqui “paga-se como quiser” e as contribuições servem para a reabilitação de sobreviventes de violência ácida na Índia.

Mais do que um projeto de restauração, é um movimento ativista. Os clientes chegam de todos os cantos do mundo, não apenas para tomar uma chávena de café ou saborear os petiscos deliciosos. Não há dúvida de que o são: pelos comentários do Tripadvisor, percebe-se que sim. Mas a principal razão que incentiva a visita é a possibilidade de conversar com as funcionárias. E se saem de lá com uma sensação de satisfação, por estas terem conseguido refazer a vida, a revolta também deve ficar presente.

Os ataques com ácido são uma realidade horrível na Índia. O National Crime Records Bureau, uma organização governamental que recentemente começou a registar a violência com ácido, estima que mais de mil desses crimes são cometidos em todo o país a cada ano, embora a maioria dos ataques não seja denunciada por causa da vergonha que se sente e do medo de ser atacado novamente.

Cerca de 70 por cento das vítimas são mulheres, das quais mais de 50 por cento são atacadas pelos companheiros. Uma das principais razões por trás da alta taxa de ataques com ácido é a falta de leis contra a venda deste produto na Índia — um litro pode ser comprado por menos de 1€. Muitas das vítimas deste crime passam a viver isoladas, fechadas em casa, afastadas dos preconceitos que as impedem de continuar a estudar ou encontrar emprego.

Chanchal, de 20 anos, foi atacada, em 2012, depois de recusar casar com homem. Hoje ajuda a gerir o café. Kumari, fez mais de cinco cirurgias reconstrutivas, e trabalha agora ao lado de Rupa, Ritu Saini, Gita Mahor e Neetu Mahor, que viveram isoladas vários anos, enquanto lidavam com a dor de ter um rosto carbonizado e várias cicatrizes. Saini, de 19 anos, jogou vólei pela Índia antes de sofrer um ataque com ácido por um primo por causa de uma disputa de propriedade familiar. Perdeu um olho, deixou de jogar, mas começou a fazer as contas do café.

Todas foram apoiadas pela Stop Acid Attacks, que iniciou o movimento através de uma campanha no Facebook no Dia Internacional da Mulher, em 2013. Com sede em Nova Delhi, a SAA trabalha com sobreviventes de ataques com ácido na Índia,apoiando com questões legais e médicas, além de ajudar a lidar com o trauma do ataque. O Sheroes Hangout é uma das suas várias iniciativas.

O próprio nome é a junção das palavra she (ela) e heores (heroínas). Aqui, escolhem dar a conhecer a sua história, ao mesmo tempo que contribuem para tornar a Índia livre de ataques com ácido. Apoiado pela Fundação Chhanv, anunciaram a abertura de um novo espaço no International Stadium de Noida.

Carregue na galeria para conhecer melhor o espaço Sheroes Hangout e as sobreviventes que lhe dão a cara.

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