Restaurantes

No “tasco mais tasco” de Lisboa pode almoçar por 10€ — mas tem de pôr o babete

Há cabidela, dobrado, pernil ou iscas. Todos os dias há pratos diferentes, mas o preço não muda.
Está aberto há 35 anos.

Não Venhas Tarde. O famoso fado de Carlos Ramos estava a tocar na telefonia quando o pontual sócio de Artur Carvalho entrou no estabelecimento que tinham acabado de alugar e ainda sem nome. “Ele nunca se atrasava, por isso achámos piada e definimos logo o nome daquele que seria ‘o tasco mais tasco de Lisboa'”, conta o proprietário à NiT.

Entrar no espaço do Beato em 2024 não é assim tão diferente do que era em 1986, quando Artur Carvalho, de 68 anos, assumiu a gerência do restaurante. O passado permanece intacto nos azulejos típicos da altura e nos pratos regionais, a preços simpáticos. Pode-se mesmo dizer que é um dos poucos espaços lisboetas que mantiveram a identidade, sem se renderem às tendências do turismo.

Artur queria ser jogador de futebol. Andava sempre com a bola atrás. Mas rapidamente percebeu que o futuro não poderia passar só pelo desporto. Começou a trabalhar ainda jovem em vários restaurantes e cafés até que um vizinho lhe fez uma proposta: ficar com o pequeno restaurante que ficava exatamente por baixo da casa da família. Como sabia que não tinha um futuro como o do Eusébio, decidiu aceitar.

“Fiz uma sociedade e demos um novo rumo ao espaço. Porém, não foram tempos fáceis. A dada altura o dinheiro não chegava para pagar aos funcionários e as cozinheiras despediram-se. Sem alternativa, amarrei-me aos tachos”, conta à NiT.

Mergulhou nos livros de receitas que tinha em casa e recuou nas memórias para se lembrar dos cozinhados da mãe. Rapidamente tomou-lhe o gosto. “Um dos meus irmãos era chef de cozinha. Trabalhava em hotéis e depois emigrou para os Estados Unidos da América, onde continuou no mesmo ramo. Foi um dos meus grandes ajudantes. Sempre que tinha dúvidas, ligava-lhe”, diz.

Assim que assumiu os comandos, o Não Venhas Tarde mudou. A clientela vinha e voltava vezes sem conta para provar o cozido à portuguesa ou o arroz de cabidela de Artur.

Apesar da resistência estoica, o pequeno restaurante situado à beira da estrada, no Beato, continua a servir com a boa disposição que já lhe é conhecida. Os clientes são brindados com babetes com uma lagosta enorme estampada e o burburinho e as gargalhas ouvem-se desde a rua. Os pratos também são os mesmos. “Não há muito que saber”, anuncia o proprietário. “Só trabalhamos com pratos do dia. Às segundas-feiras há carne de porco à alentejana, à terça pernil ou ervilhas com ovos escalfados. A meio da semana é dia de cozido e à quinta-feira posso varia entre mão de vaca ou dobrado. Às sextas-feiras há sempre favas ou cabidela de galinha”, explica.

Seja qual for o dia, o preço é sempre o mesmo. Naquele tasco há um menu de almoço com um preço fixo: 10€. Inclui o prato, azeitonas, pão, bebida (que pode ser vinho) e café. Caso queira acrescentar uma das sobremesas caseiras que Artur faz, são mais 1,50€. “Há sempre mousse de chocolate e doce da casa, que é arroz-doce, e fruta.”

Os pratos caseiros continuam a chamar muitos clientes. “Às vezes também temos favas à portuguesa, ou iscas. Depende sempre do que há fresco e da época”, conta o chef e proprietário. Independente do prato, Artur serve sempre um babete. “É sempre um momento hilariante. A maioria dos clientes atira logo uma farpada que ainda não foram para o lar para usar algo assim. Mas acham muita piada e isto é uma coisa rara nos restaurantes”, revela.

Histórias como estas vão se acumulando na memória de Artur. Entre jornalistas, futebolistas, políticos, engenheiros ou padeiros todos se sentam à mesa e são tratados da mesma forma. “Quem cá vem, torna-se amigo. O ambiente é sempre muito descontraído e até barulhento, porque todos se sentem à vontade”, refere.

O Não Venhas Tarde, inspirado na pontualidade do antigo sócio do chef e no fado de Carlos Ramos que passava na telefonia, é um dos poucos restaurantes em Lisboa que não se rendeu aos turistas. “Fazemos boa comida e trabalhamos para a evolução nessa vertente, mas gostamos de estar em casa, e gostamos que quem nos visita sinta o mesmo.”

Carregue na galeria para ver algumas imagens dos pratos que Artur Carvalho serve no tasco do Beato.

 

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Rua do Beato 6
    1950-010 Lisboa
  • HORÁRIO
  • Segunda a sexta das 12h às 15h
PREÇO MÉDIO
Entre 10€ e 20€
TIPO DE COMIDA
Portuguesa

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