Tem cozinha aberta, música escolhida pelos próprios chefs, conversas constantes com os clientes e um ambiente pensado para que ninguém sinta que entrou num espaço onde “é preciso saber estar”. Assim é o Cabra Cega, o novo restaurante de Lisboa, onde, apesar da descontração, os pratos são feitos com cuidado. A ideia, aliás, passa precisamente por criar um restaurante onde a técnica é levada a sério, mas a experiência é mais leve do que o típico fine dining.
O espaço abriu esta sexta-feira, 8 de maio, no Restelo. Nasceu das várias viagens e experiências internacionais de dois amigos que já sonhavam criar um projeto juntos há mais de uma década. Tiago Brito, de 30 anos, e Zé Costa, de 29, conheceram-se em Marbella, Espanha, quando estudavam hotelaria. Viviam na mesma casa e passavam os dias entre aulas, cozinhas e jantares para amigos. “Já nessa altura gostávamos muito da ideia de receber pessoas à mesa. Fazíamos jantares em casa constantemente”, recorda Zé Costa à NiT.
Depois seguiram caminhos diferentes, mas nunca deixaram cair a ideia de abrir um restaurante juntos. Pelo caminho, acumularam experiências em vários países. Zé passou por Espanha, Itália, Inglaterra, Estados Unidos e Austrália. Tiago também continuou ligado à cozinha e ao universo do fine dining.
Foi já depois de regressar de Miami, em 2025, que tudo começou finalmente a ganhar forma. “Encontrei este espaço quase por acaso, vim visitá-lo e gravei logo um vídeo para mandar ao Tiago, que ainda estava na Austrália”, conta Zé. Pouco depois arrancaram as obras.
Os responsáveis fizeram muito mais do que acompanhar a remodelação. “Partimos paredes, tirámos estruturas do teto, fizemos muita coisa com as próprias mãos. Cada detalhe foi pensado por nós.”

O resultado é um restaurante onde o fine dining existe, mas sem a rigidez normalmente associada ao conceito. “Temos muito respeito pela técnica e pela cozinha séria porque trabalhámos em restaurantes desse nível, mas hoje existe quase um medo do fine dining”, explica Tiago. “As pessoas acham que vão gastar demasiado dinheiro ou que precisam de ir de fato e gravata. Nós queremos quebrar isso.”
A ideia passa por aproximar os clientes da cozinha através de uma experiência mais informal e próxima. A sala gira em torno do balcão e da cozinha aberta, onde os chefs preparam os pratos à frente dos clientes. “Queremos que as pessoas sintam que estão a passar uma noite connosco, não apenas a jantar num restaurante”, diz. No universo criado pelo restaurante, a experiência deve funcionar quase “como um espetáculo íntimo”, onde os pratos entram “com tempo, suspense e intenção”.
O nome também nasce dessa lógica mais emocional e intuitiva. Cabra Cega faz referência ao jogo de infância. “Tem muito a ver com memória, descoberta e brincadeira. Gostamos da ideia de brincar com sabores e surpreender as pessoas sem revelar tudo à partida”. Os próprios chefs descrevem o conceito como uma forma de “brincar com os sentidos” e levar os clientes a “confiar no instinto e descobrir à medida que comem”.
Essa filosofia aparece também na construção dos menus. Existem atualmente duas opções de degustação em soft opening: o menu “Pé de Cabra”, com três atos, custa 40€, enquanto o menu “Cabra Cega” sobe para os 60€.
Entre os pratos servidos surgem combinações pouco óbvias, como beterraba, ostra e jalapeño queimado; lírio com tomate e manjericão; ou pleurotus com couve-flor e champagne.
Há ainda pratos descritos apenas como “Algo do mar” com bobó e kohlrabi, ou “Algo da terra” com tâmaras e kale, mantendo algum mistério em torno da experiência. Uma das sobremesas junta cogumelos, couve portuguesa e chocolate branco. Já outra aposta em sésamo, leite de cabra e arame.
“O nosso objetivo não é explicar demasiado os pratos. Queremos deixar espaço para surpresa e interpretação”, diz Zé Costa. Uma das especialidades que mais tem surpreendido os clientes é precisamente o de beterraba. “Já tivemos pessoas a dizer que odiavam beterraba e acabaram a adorar o prato”, conta Tiago.
Além da comida, a carta de bebidas também reflete muito da identidade do restaurante. Os vinhos foram escolhidos pelos próprios chefs e incluem referências como o Casa Canhotos Alvarinho (26€), o Somnium Granito do Douro (47€), ou o espanhol Acusp Castell d’Encus (69€).
Nos cocktails e infusões aparecem combinações como “Alquimia do Sono”, “Púrpura” ou “Cabra Cega”, todos a 5€. Há ainda sake japonês, cerveja à pressão desde 2,50€ e vermutes como o La Quintinye Extra Dry (7,50€).
O projeto não fica apenas pela restauração. Dentro do espaço existe também um showroom de facas japonesas, ligado a outra empresa de Zé Costa. A ideia passa por transformar o restaurante num ponto de encontro para cozinheiros e profissionais da área.
Os dois amigos já estão também a preparar jantares com chefs internacionais que conheceram ao longo do percurso profissional. “Queremos trazer pessoas que fizeram parte da nossa história para cozinhar connosco.”
Em junho, o Cabra Cega ganha ainda uma segunda vida durante o dia. A dupla vai começar a abrir para almoços num formato mais descontraído, enquanto decorre a preparação da cozinha para o serviço de jantar. “Queremos abrir as portas durante a mise en place, com um ambiente mais cru, mais real, quase como entrar dentro da cozinha”, conta. O plano passa por servir sandes mais rápidas e pratos em desenvolvimento para o jantar, aproximando ainda mais os clientes do funcionamento interno do restaurante.
No fundo, o Cabra Cega tenta fazer algo raro em Lisboa: manter o rigor técnico do fine dining sem criar distância entre quem cozinha e quem está sentado à mesa. Ou, como os próprios resumem, “comida séria num ambiente descontraído”.
Carregue na galeria para conhecer o Cabra Cega e alguns dos seus pratos.








