Alguns espaços mudam de ambiente quando chega a noite. No Lobby, em Lisboa, a transformação vai ser mais radical: de manhã, pode entrar para beber um café de especialidade, comer uma croque madame ou ovos Benedict; horas depois, o mesmo espaço vai funcionar como bar de cocktails, com DJs e até uma zona escondida.
O novo projeto abriu a 17 de agosto, na Rua de São Paulo, a poucos passos da Pink Street, e ainda está a funcionar em regime de soft opening. Nesta primeira fase, recebe apenas clientes durante a manhã e início da tarde. A partir de 7 de setembro, começa a funcionar também à noite.
Por detrás do Lobby estão Anna Aleshkovskaya, de 40 anos, e Yurii Gushcin, de 38, responsáveis também pelo Liberty Coffee, que tem espaços em Santos e na Parede. Antes de chegarem à restauração, porém, nenhum dos dois tinha experiência profissional na área.
Anna trabalhava em produção cinematográfica e conheceu Yurii numa escola de cinema. O casal viveu durante vários anos em Espanha — seis em Barcelona e quase dois em Madrid — antes de se mudar para Portugal, no início de 2022. Foi já por cá que começou a pensar numa mudança profissional.
“A minha primeira ideia era abrir uma livraria. Tinha uma visão bastante romântica, porque gosto muito de livros e de ler. Depois percebemos que uma livraria, por si só, talvez não fosse um bom negócio e pensámos em acrescentar alguma coisa. O café surgiu naturalmente”, conta Anna à NiT.
O primeiro Liberty abriu em dezembro de 2022. Aos livros juntaram-se o café e, mais tarde, a comida, que acabou por ganhar cada vez mais importância. Atualmente, os dois espaços continuam a ter pequenas livrarias.
O Lobby surgiu de forma menos planeada. O casal soube que o espaço estava disponível e decidiu avançar. “Não podíamos deixar passar porque o local é muito especial”, explica a proprietária. A escolha também acabou por influenciar o conceito.
O restaurante ocupa o rés-do-chão de um hotel e serve igualmente os hóspedes, embora esteja aberto a qualquer pessoa que passe pela zona. A ideia passa por explorar duas personalidades completamente diferentes no mesmo espaço. “É um conceito novo também para nós. Queremos que funcione de manhã e à noite. Durante o dia temos o pequeno-almoço e o almoço, depois fechamos durante algum tempo e voltamos a abrir como bar de cocktails. Este espaço pedia mesmo um bar”, explica.
Por enquanto, apenas a primeira metade dessa ideia está a funcionar. O bar arranca a 7 de setembro e, mais tarde, será ainda inaugurado um segundo espaço de cocktails, escondido no interior do Lobby. A festa que assinala oficialmente a abertura de todo o projeto está marcada para 18 de setembro.
A cozinha está a cargo de Artem Matlaev, chef que passou anteriormente pelo Arca e pelo Doma. O ponto de partida são pratos reconhecíveis, mas trabalhados com produtos e referências portuguesas. “Queremos que todo o projeto seja inspirado em Portugal, nos ingredientes, mas também na cultura e no estilo de vida. Só não queremos fazê-lo de uma maneira turística. A ideia é pegar em coisas autênticas e reinterpretá-las através da forma como nós, que não somos portugueses, olhamos para elas”, explica Anna.
A própria localização ajudou a definir essa abordagem. Para a fundadora, esta zona de Lisboa sempre esteve ligada ao porto e à mistura entre pessoas e culturas diferentes. “Na comida, partimos de alguns clássicos conhecidos, mas reinterpretamo-los. Tentamos trabalhar sobretudo com ingredientes portugueses e criar pratos reconhecíveis com sabores ligados, de alguma maneira, a Portugal.”
Um dos exemplos é a Croque Madame Crocante (15€), preparada com queijo e fiambre dos Açores. Há ainda tortilla de farinheira (12€), Benedict de salmão com hash brown (14€), Benedict de roast beef com hash brown (14€) e omelete de espargos e edamame (12€).
O Prato de Pequeno-Almoço Lobby (15€) parte de uma inspiração escandinava, mas troca o tradicional fiambre por cavala fumada na casa, apresentada numa lata e acompanhada por queijo, pão, azeitonas e ovo.
Ao almoço, a carta inclui salada verde de proteínas, com tofu crocante, rabanete marinado, edamame, espargos e molho de limão (12€), risotto de espargos com stracciatella (12€) e uma sopa de kimchi “para a ressaca”, preparada com caldo de porco e frango, algas e ovo marinado (12€).
Nas sobremesas, as referências portuguesas tornam-se ainda mais evidentes. A Mousse de Chocolate da Maria custa 7€ e leva a conhecida bolacha Maria. Há também pudim de brioche de coco (9€), creme de ovos com ruibarbo (8€) e tarte de maçã da avó (6€). Croissants custam 5€, enquanto os rolos de canela ou cardamomo ficam por 4,50€.
Apesar da dimensão que a comida ganhou nos projetos de Anna e Yurii, o café de especialidade continua no centro da proposta. A equipa do Liberty é responsável pelo programa do Lobby.
Um espresso custa 1,80€, o americano 3€, o cappuccino 3,50€ e o flat white ou latte ficam por 4,50€. Há ainda propostas de assinatura, como o RAF Laranja, preparado com espresso duplo, natas, leite e xarope caseiro de laranja (6€), ou o Bumble Bee, com sumo de laranja, espresso duplo e xarope de agave (5€).
Também encontra matcha latte clássico (5€), matcha hojicha (5€) e matcha tonic com tónico caseiro de toranja e alecrim (6€). Entre as bebidas sem café há limonada de mel, camomila e louro (3,50€) e outra de hortelã, morango e pimenta rosa (5€).
As primeiras semanas ainda não permitem tirar grandes conclusões sobre o público, admite Anna, sobretudo numa zona com uma forte presença turística. O objetivo, porém, passa por não depender apenas de quem visita Lisboa.
“Claro que teremos muitos turistas, porque esta zona é muito turística, mas queremos atrair também o público local. Queremos pessoas interessadas em comida e bebidas simples, mas de boa qualidade e com alguma coisa diferente”, diz. Até agora, acrescenta, a croque madame tem sido uma das propostas que mais elogios recebe.
Quando anoitece, tudo muda
A segunda vida do Lobby começa a 7 de setembro. A carta de cocktails foi desenvolvida por Ilia Shirokov, que já trabalhou nos menus de espaços como Santelmo, Katsu, LKS e Solta. Tal como acontece na cozinha, também aqui a inspiração portuguesa aparece sem a intenção de reproduzir receitas tradicionais.
O Per Se Spritz, por exemplo, troca o Aperol pelo licor português Per Se, infusionado com flor de laranjeira e acompanhado por laranja e sal marinho. O Grape Collins leva um cordial da casa feito a partir de Vinho Verde, enquanto o Fig Leaf Negroni junta gin infusionado com folhas de figueira e um tónico de vinho do Porto envelhecido.
À noite haverá também comida, com propostas como sapateira recheada, conservas artesanais de peixe, vitello tonnato e tártaro de novilho. A carta de vinhos aposta igualmente em referências nacionais, do Dão aos Açores, Bairrada, Douro e Vinhos Verdes.
O próprio edifício vai ajudar à mudança de ambiente. O projeto de interiores, desenvolvido pelo estúdio NWDS, aproveitou uma sequência de salas abobadadas e elementos que já existiam no imóvel, como antigos armários de boticário e frescos. Uma das áreas funciona durante o dia como sala de pequeno-almoço e, à noite, transforma-se num bar escondido.
Há ainda outro elemento que deverá reforçar a vertente noturna. Em outubro, a Fauve Radio, plataforma independente de rádio online anteriormente sediada em Hong Kong, vai começar a transmitir a partir do segundo piso do Lobby. “Teremos uma cabine de DJ e eles vão transmitir a partir dali. A música será ouvida pelo público online e também pelas pessoas que estiverem no espaço. Vão ainda fazer a curadoria musical e organizar eventos com DJs”, conta Anna.
Para os proprietários, esta ligação entre comida, café, cocktails, música e a própria cidade é precisamente aquilo que deverá distinguir o Lobby quando estiver completamente operacional. E Portugal não surge apenas como inspiração para a carta.
“Gosto muito da natureza, do oceano, das montanhas e das florestas, mas também da forma de estar dos portugueses. Sinto uma simpatia, um apoio e uma abertura que são muito importantes para mim”, conta Anna. “Portugal permite-me ser quem quero ser.”
Carregue na galeria para conhecer melhor o novo Lobby e alguns dos pratos que já pode provar no espaço.








