Restaurantes

O português que acabou de ganhar uma estrela Michelin num antigo bordel da Noruega

O Bar Amour foi convertido num restaurante liderado por Carlos de Medeiros, que criou uma carta bem original.
É liderado por Carlos de Medeiros.

“Desde o começo que nos dizem que aquilo que fazemos não pode ser feito, que não vamos conseguir, que não vale a pena tentar. Para mim, foi interessante porque não há progresso sem luta. Para todos os chefs, sigam o vosso sonho. Se vos dizem que não pode ser feito, é porque estão no bom caminho. Ninguém tenta diminuir uma coisa se sabe que ela não vale a pena. Continuem”.

Foi este o discurso de Carlos de Medeiros, de 30 anos, após ter vencido uma estrela Michelin esta segunda-feira, 27 de maio, na gala que celebra os melhores restaurantes dos Países Nórdicos. O português é o líder da cozinha do Bar Amour, na Noruega, que já foi um bordel.

O cozinheiro é natural de Oeiras e foi ali que abriu o primeiro restaurante da sua carreira, quando tinha 20 anos. No entanto, o espaço não teve o sucesso que pretendia. “Continuo a achar que Portugal não é muito convidativo para trabalhar, muitos jovens saem do País por faltar esse apoio ao desenvolvimento profissional; e o mais importante é quem se conhece e não quem somos. Em Inglaterra ou na Noruega, o seu trabalho fala por isso”, contou o chef ao “Observador”.

Frustrado, comprou um bilhete de avião para a Inglaterra dois anos depois. Várias entrevistas de emprego mais tarde, encontrou finalmente emprego para se ir pagando as contas. Até que, aos 29 anos, surgiu a sua primeira grande oportunidade, que descreve como dura, “mas também prestigiante”. Durante um ano e meio esteve, então, no restaurante Maaemo, em Oslo, na Noruega. Medeiros diz que aquela cozinha foi uma verdadeira escola. Ao longo deste período criou pratos novos e mudou a apresentação de muitas das propostas que já existiam.

A sua reputação foi crescendo rapidamente naquele país até que o chef recebeu nova proposta irrecusável: tomar conta do Bar Amour, após uma conversa com um amigo que lhe tinha dito que estava de saída do restaurante. “Perguntou-me se queria ficar com o lugar dele. Como não tinha planos, pensei: ‘por que não?’.”

Sem precisar de sair da capital da Noruega, voltou a dar o seu próprio twist à apresentação dos pratos e ao menu. Ao seu lado contou com a ajuda de dois outros portugueses: Gonçalo Beija, da linha de Sintra, e Pedro Sequeira, do Algarve.

Carlos tem 30 anos.

Este estabelecimento “era um bar de cocktails e nos anos 70 funcionava como bordel”, explica. “Os clientes do café de baixo eram guiados ao primeiro piso por uma madame para algo que não fazia propriamente parte do menu”, explica Carlos ao público da gala. “E aqui estamos nós. Tomámos conta dele e convertemo-lo num restaurante. Foi uma grande oportunidade, estou contente que o tenhamos conseguido.”

O conceito mudou por completo e agora é um dos restaurantes obrigatórios para visitar em Oslo. Carlos tenta utilizar produtos portugueses, mas afirma que estes não são fáceis de encontrar na Noruega. Tem, mesmo assim, alguns queijos nacionais, carnes ou alfarroba espalhados pelas prateleiras da cozinha.

“As nossas mães são muitas vezes os nossos pequenos fornecedores porque nos enviam coisas”. Pão de ló com gelado de louro e um xarope de presunto ibérico é apenas uma das sobremesas que pode provar no espaço que aposta sobretudo na cozinha de fusão.

A qualidade e apresentação da comida foram mesmo um dos pontos mais destacados pelos inspetores do Guia Michelin, que afirmam que ali se encontra “um menu de degustação que combina soberbos e reconhecíveis produtos noruegueses com skrei ou rena, com as influências do país de origem do chef Carlos de Medeiros”. “Cada prato que chega à mesa reflete um equilíbrio de sabores.” Os preços para as cartas de degustação começam nos 78,90€ e chegam aos 144,65€.

Os especialistas exaltam ainda a localização do Bar Amour, que “não é fácil de encontrar”, visto que está “escondido no primeiro piso do café e pizzaria Tramen”.

“Correndo o risco de soar arrogante, fizemos o nosso trabalho, conhecemos o nosso trabalho. Esforçámo-nos para isso, estávamos confiantes de que de iríamos termos resultados, mas claro que há sempre alguma surpresa”, acrescenta o chef oeirense. “Queremos ser o primeiro restaurante fora de Portugal com três estrelas.”

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