Restaurantes

O restaurante onde o chef não quer receber “pessoas que venham para matar a fome”

O Geo deixou de servir almoços e formalidades. Tornou-se no Supra, onde o vinho e a comida de partilha são os pontos fortes.
Um novo conceito.

Fica no distrito de Leiria, região da Estremadura, cidade da cerâmica e das termas. Quem lá entra nota a influência da arte e da terra. Geo, o restaurante das Caldas da Rainha aberto no Hemiciclo João Paulo II, não é novo, mas foi transformado — e até arte tem exposta.

A falta de staff fez com que Archil Shinjikashvili, de 34 anos, tivesse de pensar noutro conceito para o seu espaço. Saíram os almoços, entraram os vinhos. O Geo transformou-se, então, num local Wine & Supra, que privilegia os vinhos e os petiscos. Mas não são uns quaisquer. São georgianos — para sermos mais específicos. Afinal, é de lá que Archil chega.

Veio para Portugal com 12 anos, com os pais e a irmã. Ficou a morar na zona das Caldas e foi lá que andou na escola. Foi jogador de basquetebol, treinador e trabalhou em bares e discotecas. Em 2010 começou a trabalhar como ajudante de cozinha e a seguir os passos na área. “A vida foi correndo”, diz à NiT. Passou por Lisboa, Peniche, até que, em 2018, foi para a Geórgia fazer consultorias. “Entretanto casei-me, tive duas filhas e percebi que não queria andar para a frente e para trás”, revela.

A 12 de outubro de 2019 abriu um restaurante de fusão de cozinhas. “No início não foi fácil conseguir transmitir aos portugueses aquilo que queria mostrar”. Depois, porém, os clientes começaram a voltar e percebeu que “valia a pena”. “Só que entretanto chegou a pandemia”. Arregaçou as mangas, readaptou-se e manteve o espaço aberto.

“Se há coisa que aprendi nessa altura é que, quando chega um obstáculo, temos de nos adaptar e arranjar logo maneira de ultrapassá-los”. E foi isso que fez, quando, há menos de dois meses ficou sem pessoal para trabalhar no espaço. Diminuiu a capacidade, mudou o conceito e a decoração.

O Geo largou as formalidades e é agora um espaço de lifestyle. Já não serve almoços e transformou-se em Supra, o nome de uma celebração tradicional da Geórgia, onde há sempre “uma mesa comprida repleta da melhor comida e vinho que o anfitrião possa oferecer, onde as pessoas se juntam durante quatro, cinco, seis horas, para celebrar o amor, a amizade e a vida”. E, como tal, o restaurante conta agora com uma enorme mesa central, pronta a receber grupos que queiram provar vinho e petiscos georgianos e também portugueses.

A bebida de eleição é igualmente um detalhe importante no Geo — não é por acaso que se chama Geo Wine & Supra. Ainda assim, “Geo não é só pela referência à Geórgia”, diz-nos. “Quando criei o negócio tinha a ideia de utilizar produtos da terra, plantados por mim”.

Hoje, “os clientes chegam ao restaurante não para matar a fome, mas para terem uma experiência”. “E é isso mesmo que eu quero”, diz-nos em tom de graça e desculpando-se pela sua “frieza”. “Mas é verdade: eu quero que eles saiam cheios de experiência e a dizer «epá, estive num sítio pequenino e acolhedor, mas muito fixe»”.

O que teve em tempos 55 lugares, tem agora apenas 32 e Archil diz ser o suficiente. Com um conceito baseado na partilha, o chef oferece aos seus clientes entradas e pratos típicos da Geórgia — como as Khinklushkas (6,50€), Khachapuri (9€) ou Ajapsandali (5€) — e também portugueses, sempre para partilhar. “É tudo comida de casa à qual damos uns toques para se tornar mais saudável e mais apresentável”, especificou Archil Shinjikashvili.

Também o vinho é servido nesse sentido. São 68 referências georgianas, desde espumantes, orange wine, rosés, entre outros, que podem ser pedidos e servidos no copo (desde 4€). “Esta vertente dá a possibilidade de se conhecerem vários e mais tipos”. Numa terra “com tanto vinho e de tanta qualidade”, o sucesso que o empreendedor está a ter nesta área está a deixá-lo impressionado.

Shinjikashvili começou a trazer vinhos da Europa em 2019 e logo aí a “aceitação foi muito boa”. No mesmo ano, ficou com vinhas de família na Geórgia e construiu uma adega, em conjunto com o primo, para produzir vinhos naturais “sem grandes misturas”. “Estou atualmente a produzir vinho na Geórgia com familiares que, depois, me enviam as garrafas”, contou à NiT. Além de serem vendidos no restaurantes, o antigo treinador revende-os também para fora e até já tem alguns distribuidores em várias zonas do país (cada garrafa custa a partir de 10€).

A decoração do Geo foi feita pelo próprio empreendedor, que se rendeu à tendência minimalista e aos pormenores em madeira. “Costumo dizer que sei exatamente onde está cada prego, cada parafuso e cadeira” e é isso que “ajuda a cuidar do espaço e a manter o conceito”. Expostas estão ainda obras de artistas da zona, principalmente da escola de arte, como pinturas e cerâmicas.

No centro do restaurante colocou um balcão de madeira, onde prepara os produtos frios como queijos e enchidos. No fundo, o Geo “despiu-se de formalidades” e está mais intimista e confortável. Além dos petiscos, tem também alguns especiais determinados no momento de compra dos produtos em cada manhã na praça. “Vejo o que há de qualidade, compro, levo para o Geo, faço e sirvo”

Os vegetarianos não esquecidos e também para eles há petiscos. Isto porque “não têm de comer só arroz com ovo estrelado”. E é precisamente por se destacar com este cuidado e atenção, “seja no atendimento, como na qualidade da comida” que se torna cada vez mais difícil conseguir lugar no restaurante sem reserva de quinta a sábado .

Com o restaurante aberto das 17 horas às 22h30, Archil quer “agarrar as pessoas” à sua maneira. “O português é um povo boémio, que gosta de sair e conviver à noite. Eu apareço para mostrar que durante a semana também se pode beber com os amigos, mas em vez de ser até às 5 da manhã, é a partir das 17 horas, quando se sai do trabalho”. “O cliente vem, bebe um ou dois copos e, quando dá por isso, está a sair jantado”, continua.

Claro que, sendo proprietário e chef, a tarefa é mais difícil e confidencia estar sempre numa luta consigo próprio. Ainda assim, as decisões tomadas estão a resultar. “Inicialmente estava receoso, por estar numa cidade pequena e num ambiente mais rural, com picos de turismo. Não foi fácil, mas percebi que as pessoas estão a procurar cada vez mais as coisas não comuns”. E vão ter ao Geo e “à sua comida diferente”.

Carregue na galeria para conhecer melhor o espaço onde o vinho e a comida de partilha são reis.

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FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Rua Hemiciclo João Paulo II, n° 9A
    2500-212 Caldas da Rainha
  • HORÁRIO
  • Terça-feira a sábado, das 17h às 23h
PREÇO MÉDIO
Entre 20€ e 30€
TIPO DE COMIDA
Georgiana

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