Durante anos, quem passava pela Rua Luciano Cordeiro, em Lisboa, encontrava ali uma pequena tasca conhecida pelos moradores da zona. O espaço acabou por fechar e deixado ao abandono, mas a sua história não terminou. Depois de seis meses de obras totais, ganhou uma nova vida, desta vez com pizzas napolitanas, cocktails e preços pensados para quem vive no bairro.
O Oh Glória! abriu a 3 de julho, perto do Marquês de Pombal. O restaurante pertence ao chef Santosh Lamichhane, de 32 anos, natural do Nepal, que passou por cozinhas de restaurante famosos — como o 100 Maneiras, de Ljubomir Stanisic.
Ao seu lado está Vinicius Alkmim, brasileiro de 36 anos que vive em Portugal há mais de uma década. É um dos responsáveis pela dinamização do projeto e assume a comunicação, o marketing e a estratégia do espaço. O percurso dos dois já se tinha cruzado antes.
“Eu tinha aberto o Vegan Junkies em 2019 e vendi o espaço ao Santosh em junho do ano passado. Entretanto, tinha também criado a Plant Base, uma pizzaria vegan no Carmo. Quando a pizzaria ao lado ficou livre, disse-lhe que fazia sentido ficar também com este espaço”, conta Vinicius à NiT.
Santosh aceitou o desafio, mas deixou uma condição clara. “Disse-me: ‘eu não sei criar conceitos, mas sou bom cozinheiro’. Então, sem entrar na criação dos pratos, desenvolvi todo o conceito. O restaurante é dele e eu faço a parte de consultoria e sou o rosto do espaço”.
A transformação demorou cerca de meio ano. Antes das obras, funcionava ali uma antiga tasca conhecida no bairro como a Tia Celeste. “Chegámos a pensar chamar-lhe Celeste, como homenagem à senhora que estava aqui. Mas acabámos por escolher Oh Glória! porque queríamos recuperar uma coisa mais autêntica, bairrista e popular. É quase uma celebração.”
Essa ligação ao bairro acabou por definir também os preços. Vinicius diz que um dos compromissos assumidos desde o início foi criar uma pizzaria onde os moradores pudessem jantar sem gastar demasiado dinheiro.
“Acho que estamos a sofrer uma crise de gentrificação que está a retirar às pessoas a possibilidade de jantar fora. Disse ao Santosh que a pizza tinha de ser acessível. Eu tenho uma filha e sei como é caro sair para jantar em família. Não podemos gastar sempre 60€ ou 70€. Se conseguirmos jantar por 30€ e sair satisfeitos, já é bastante bom.”
É por isso que a pizza Marinara custa apenas 7€: leva tomate San Marzano, alho laminado, manjericão e azeite. Já a Margherita, preparada com tomate San Marzano, mozzarella Fior di Latte, Grana Padano e manjericão, fica por 8,50€.
A carta tem 11 pizzas e combina receitas mais clássicas com propostas menos óbvias. A Kimchi & Pancetta (12€) junta mozzarella Fior di Latte, kimchi, barriga de porco fumada, sementes de sésamo e cebolinho. Já a Hot Pepperoni (13€) leva salame picante, stracciatella, pickles de cebola e mel picante.

A carta tem ainda a Funghi & Prosciutto (11€), com béchamel infusionado com porcini, queijo Edam, cogumelos salteados, fiambre e Pecorino; a Pera & Gorgonzola (12€), com pera roxa bêbeda e nozes; a Parmigiana di Melanzane (12€), com provola fumada, beringela grelhada e pesto de manjericão; e a Rucola & Prosciutto (14€), com presunto de Parma e Grana Padano.
Uma das propostas mais caras custa 14€: a ’Nduja, Burrata & Pomodorini Gialli, que combina tomate San Marzano, mozzarella Fior di Latte, ’nduja, burrata e tomates amarelos semi-secos. Pelo mesmo preço pode pedir a Cinque Formaggi, com cinco queijos.
A massa foi desenvolvida com a consultoria do pizzaiolo italiano Roberto Stracquadaini, que já tinha trabalhado com Vinicius na Plant Base e está ligado a projetos no Porto e em Guimarães.
“Ele gosta de chamar a estas pizzas neo-napolitanas e tem muito orgulho na massa. A borda é maior do que o habitual. Queríamos manter a qualidade, mas continuar acessíveis”, explica. Segundo Vinicius, a massa passa por um processo de 48 horas e as pizzas são cozinhadas num forno vindo de Nápoles, que pode chegar aos 500 graus.
O espaço acompanha a proposta descontraída. A madeira domina o balcão e o piso superior, enquanto as paredes claras, as mesas simples e a cozinha parcialmente aberta ajudam a criar um ambiente informal. À porta, a fachada antiga foi mantida, com o novo letreiro verde a destacar-se sobre a entrada.
Quando chegar ao restaurante, pode começar a refeição com pão de alho com Grana Padano, alho confitado e gremolata (4,50€) ou uma salada de funcho e laranja com rúcula, amêndoas tostadas e hortelã (6€).
Para terminar, há duas sobremesas. A mais invulgar chama-se Tiramigiu (6€), uma interpretação do tiramisù com biscoitos Savoiardi, creme de mascarpone, polpa de maracujá e chocolate branco. “Em vez de café, trabalhamos o maracujá. A ideia é ser uma coisa mais relaxante, ao contrário do tiramisù tradicional, que tem o café a puxar-nos para cima”, brinca Vinicius.
A outra opção é uma panna cotta com queijo de cabra velho e pera bêbeda (4,50€).
A carta de cocktails inclui criações da casa como Consuelo (14€), com mezcal, Aperol e Prosecco; Bergamota (13€), preparado com Lillet Blanc, Italicus, Prosecco e cold brew; Sabugueiro (8,50€), com whisky, cordial de flor de sabugueiro, lima e soda; e Chá de Troia (9€), com Havana 3, Absolut, Suze, Olmeca, lima e xarope de chilli.
Todos os dias, entre as 17 e as 18 horas, há ainda uma happy hour em que a pizza do dia ou a Margherita custa 5€. A iniciativa segue a mesma lógica de tornar o restaurante acessível a quem passa ou vive naquela zona da cidade.
Segundo Vinicius, a resposta dos vizinhos acabou por superar as expetativas. “Achava que, no início, íamos falar sobretudo para turistas. A realidade foi completamente diferente. Temos um vizinho do prédio que vem regularmente e já sabemos exatamente o que pede. Vêm muitos portugueses que vivem aqui no bairro comer a sua Marinara.”
E conclui: “Estou muito feliz porque era precisamente essa a lógica: queríamos que isto fosse um ponto de encontro para a malta do bairro”.
Carregue na galeria para conhecer o Oh Glória! e algumas das pizzas que pode provar no novo espaço de Lisboa.







