Durante anos, Mafalda Luís de Castro fez precisamente o contrário daquilo que hoje vemos nas redes sociais: tentou manter-se longe delas. Enquanto outros atores abriam os perfis e começavam a mostrar partes do quotidiano, a atriz preferia preservar a vida pessoal. Acabou por ceder, mas encontrou uma maneira muito própria de o fazer.
Hoje, aos 37 anos, entre causas que defende, momentos do dia a dia e visitas a restaurantes vegan, aparecem pequenos vídeos narrados por uma voz infantil que contrasta deliberadamente com aquilo que surge no ecrã. Mafalda chama-lhes simplesmente “narrações tolas”. E aquilo que começou quase por brincadeira acabou por conquistar público e ajudar a fazer crescer a página.
“Foi uma adaptação ao novo mundo, ao que estamos a viver agora”, conta a atriz de 37 anos à NiT. “Durante imensos anos resisti porque sempre gostei de manter a minha vida pessoal privada. De certa maneira, considero que continuo a conseguir fazê-lo, mas acabei por me render porque pensei: se isto existe e se as pessoas estão a consumir, vamos usar isto da forma correta.”
A comida acabou por encontrar naturalmente espaço no meio desse conteúdo. Mafalda é vegan há 14 anos e aproveita algumas das saídas para mostrar restaurantes onde consegue comer sem produtos de origem animal, em Lisboa, onde vive. Atualmente, soma mais de 103 mil seguidores no Instagram. Nem todos os vídeos são reviews e nem todos os espaços são exclusivamente vegan. Quando não são, têm pelo menos opções que considera suficientemente interessantes para partilhar.
“Como gosto muito de falar sobre opções e sobre uma vida mais livre de crueldade, acabo sempre por gostar de dar esse destaque a essas possibilidades”, explica.
Normalmente, não entra num restaurante desconhecido com a câmara ligada à procura de uma reação. Muitos dos espaços que aparecem nos vídeos já fazem parte da sua rotina há vários anos. Noutras ocasiões, recebe convites para conhecer novos projetos ligados à cozinha vegan, uma área que acompanha há bastante tempo.
E há um favorito claro. Quando lhe perguntamos qual é o restaurante vegan de Lisboa que colocaria em primeiro lugar, Mafalda não hesita: “O meu restaurante favorito de todos é A Minha Avó. É inspirado na cozinha tradicional portuguesa, só que em versão vegana, e eles são muito rigorosos com isso”, conta. Para Mafalda, o espaço veio preencher uma lacuna que existia na cidade, onde a oferta vegetariana e vegan estava muito associada a cozinhas internacionais, sobretudo asiáticas.
A vantagem, explica, é poder regressar aos sabores que faziam parte da alimentação antes da mudança de dieta. “Quem sempre teve uma dieta omnívora pode voltar a comer as coisas que sempre comeu, mas sem ingredientes de origem animal. Portanto, o meu número um vai para eles.”
A lista de recomendações não termina aí. Entre os favoritos estão também o Kong, onde destaca os conhecidos croquetes de alheira; o Vegan Junkies, dedicado a uma espécie de fast food artesanal; o Plant Base; e o Gambuzino.
No caso do Vegan Junkies, é precisamente o lado artesanal que a conquista. “Sentes que é uma fast food boa. Estás a comer molhos e coisas bastante calóricas, mas não estás a comer coisas altamente processadas”, explica.
Apesar de gravar estas experiências, Mafalda tenta que a presença do telemóvel não transforme o jantar de quem está à volta. Primeiro observa o espaço e só depois começa a filmar. Quando alguém pode ficar identificável nas imagens, pede autorização ou oculta a pessoa na edição.
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“Gosto sempre que a minha experiência não perturbe a experiência das outras pessoas que estão no restaurante. As pessoas estão lá para jantar, não estão para ver um influencer de telemóvel apontado a filmar tudo e todos”, diz. A partir daí, prefere não criar demasiado um guião e aproveitar aquilo que acontece naturalmente durante a refeição.
Até agora, garante, nenhuma das experiências em restaurantes correu suficientemente mal para abandonar um vídeo. E acredita que, mesmo que acontecesse, provavelmente encontraria maneira de aproveitar a situação. O maior problema é outro: cortar ideias.
“Nas narrações tolas, como eu lhes chamo, a minha mente está sempre a fervilhar de ideias. Tenho mesmo de me focar e conseguir que o vídeo fique o mais curto possível, porque quando estou a narrar começo com uma ideia e tenho sete a seguir.”
Afinal, de onde veio aquela voz?
A voz aguda e infantil tornou-se uma das características mais reconhecíveis dos vídeos, mas não nasceu de uma estratégia especialmente estudada. Mafalda começou a experimentar o registo há cerca de um ano e a personagem foi ganhando forma à medida que publicava.
“Comecei há cerca de um ano a fazer estes vídeos com esta narração assim meio tola e depois percebi que estava a ir para um registo um bocadinho infantil”, recorda. A graça, para a atriz, está precisamente no contraste entre aquela espécie de voz de criança e imagens ou assuntos que podem ser bastante adultos.
“Acho que é um conceito bastante nonsense que me agrada”, explica. Os vídeos começaram a chegar a mais pessoas do que esperava e decidiu continuar. “Coisas que eu achava que não iam ter visibilidade nenhuma, que fazia só por graça, começaram a ter.”
A vontade de usar humor nas redes não surgiu propriamente do nada. Mafalda assume que gosta de misturar assuntos sérios com momentos mais descontraídos. Além de conteúdos sobre veganismo e outras causas, usa a página para mostrar partes do quotidiano sem sentir que precisa de transformar a vida privada num reality show.
“Também partilho algumas palhaçadas porque muito do que eu sou é isso. Acho que toda a gente gosta de se rir e, sempre que posso usar essa plataforma com sentido de humor, mesmo quando falo sobre coisas sérias, gosto sempre de fazer as pessoas rir.”
De “Lua Vermelha” para o Instagram
Para uma parte dos seguidores, porém, Mafalda continua inevitavelmente associada a Isabel, a personagem de “Lua Vermelha” que interpretou na série juvenil da SIC, em 2010. A atriz começou a trabalhar muito antes disso, aos 11 anos, e passou por produções como “Olhos de Água”, em 2001, mas foi a novela de vampiros que a tornou particularmente reconhecível junto do público.
A diferença entre a personagem e a mulher que agora aparece nas redes até gera algumas mensagens curiosas. “Recebo algumas a dizer: ‘A Isabel está tão diferente’”, conta. Não a incomoda. Pelo contrário.
“Efetivamente, eu não sou a Isabel. Sou bastante diferente da Isabel”, reforça. Nas redes, prefere que essa diferença seja evidente e que aquilo que mostra corresponda à pessoa que é atualmente. “Gosto de ser autêntica e de partilhar coisas que tenham a ver com liberdade. Que a minha mensagem seja sempre muito sobre as pessoas se sentirem à vontade para serem quem são.”
E se os restaurantes aparecem cada vez mais no ecrã do telemóvel, a relação de Mafalda com a cozinha não se resume a sentar-se à mesa e fazer reviews. Também cozinha e adapta receitas que fizeram parte da infância.
Quando lhe perguntamos pelo prato preferido, a resposta surge rapidamente: cachupa vegan. Depois aparecem a pizza e a lasanha da avó, que entretanto também transformou numa receita sem produtos de origem animal.
Durante a pandemia da Covid-19, chegou mesmo a ter um pequeno negócio de entregas de comida. Nunca foi um projeto público e funcionava apenas entre amigos, mas a lógica era semelhante àquela que hoje a entusiasma nalguns dos seus restaurantes favoritos: pegar em cozinha tradicional e adaptar os pratos de que se lembra desde criança.
O sonho de abrir um restaurante vegan
A experiência deixou uma ideia que ainda não desapareceu. Mafalda Luís de Castro gostava de abrir o próprio restaurante vegan. O problema é saber perfeitamente aquilo que esse projeto exigiria. “Adorava. Só que sei que iria deixar de ter uma vida, porque implica muito de nós e teria de deixar de ser atriz. E eu ainda sou atriz, a verdade é essa. Portanto, ainda não estou preparada para isso”, admite.
Para já, os planos são bastante mais compatíveis com a representação. Quando mudar de casa e tiver uma cozinha com melhores condições para gravar, quer começar a publicar mais receitas próprias. Ainda não decidiu se serão apresentadas num formato convencional ou acompanhadas pela personagem que ajudou a dar uma nova vida à sua página.
“Vamos ver se com receitas, vamos ver se com narrações engraçadas ou não”, brinca. Até lá, entre trabalhos como atriz, receitas e visitas aos restaurantes vegan de Lisboa, as “narrações tolas” vão servindo para juntar mundos que durante muito tempo estiveram separados: a representação, o humor, a alimentação vegan e umas redes sociais às quais Mafalda resistiu durante anos.
Carregue na galeria para ver algumas imagens de Mafalda Luís de Castro à mesa e descobrir a sua relação com a comida vegan.








