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Salt Bae: de miúdo pobre a meme viral (e chef favorito dos famosos)

Os críticos odeiam a sua comida. Os futebolistas não se cansam dele. Um vídeo viral deu-lhe fama, mas ele já era um craque da carne.

Nusret Gokce não se aperaltou para o vídeo. De T-Shirt branca, calças pretas e uns pequenos óculos de sol arredondados, pegou na faca, esperou pela ordem para gravar e atirou-se à carne.

Com gestos teatrais e visivelmente coordenados, próprios de quem já repetiu o movimento dezenas de vezes, fatiou delicadamente a carne. Depois, o coup de grâce: com a mão cheia de sal, eleva o cotovelo e deixa que os cristais deslizem pelo antebraço, em cascata, para temperar a carne.

Em poucos dias, a coreografia tornou-se viral em todo o mundo. Publicado em janeiro de 2017, os 36 segundos de vídeo foram vistos perto de 17 milhões de vezes — só na publicação original. Nascia o meme.

Não se sabe, até hoje, se existe alguma base científica para o característico espalhar do sal. Suspeitamos que o bife saiba exatamente ao mesmo. Mas a teatralidade tornou este restaurador turco numa figura mundialmente conhecida e até o ajudou a ganhar uma nova alcunha: Salt Bae.

Quatro anos depois, e ao contrário do que seria esperar de um fugaz meme viral da Internet, Salt Bae não só não desapareceu como acaba de inaugurar um restaurante em Los Angeles. E, nas próximas semanas, segue-se o irmão londrino.

Esse fenómeno pode ter uma explicação simples: antes de Gokce se tornar viral, já geria uma cadeia de steakhouses e hamburguerias na Turquia. É certo que, sem o meme, talvez nunca tivesse passado de um caso de sucesso local a celebridade internacional. Hoje, a sua cadeia de steakhouses, a Nusr-Et, tem perto de 20 espaços espalhados pelos locais mais luxuosos do mundo, dos Estados Unidos ao Médio Oriente.

A sua pequena dança da carne tornou-se também numa espécie de chamariz para figuras públicas e, sobretudo, para futebolistas. Os futebolistas são loucos por Gokce — e ele por eles.

Quase tão famoso como o vídeo original, é o da visita de Diego Maradona a um dos espaços, onde alinha na coreografia de Salt Bae como só o génio argentino poderia fazer. A seguir à estrela argentina, a lista de craques é longa, demasiado longa para ser escrita num só artigo.

Também esse sucesso poderá explicar-se facilmente: na cozinha e na mesa de Salt Bae, tudo é feito para o espetáculo. O meme é também o segredo do negócio: todos fazem fila à porta para, a cada noite, recriarem o vídeo que se tornou famoso em 2017.

Além disso, os preços são caros, muito caros, o que lhe dá um toque de exclusividade. E o excesso que atrai tantos extravagantes futebolistas está perfeitamente visível na estrela da carta, um enorme Tomahawk que chega à mesa envolvido em folha de ouro comestível, vendidos nos Estados Unidos a mais de 800€ cada um.

Salt Bae aproveitou o meme. Os futebolistas e as celebridades certificaram-se que ele não morreria tão cedo. Mas para lá dos artifícios e do show off, será que a comida é realmente boa? Os críticos puseram tudo à prova.

Dos memes às críticas

“Agarrou uma pitada de sal, torceu o braço a imitar o pescoço de um ganso e agitou os dedos para que o sal caísse até ao cotovelo e depois para cima do bife. Foi ligeiramente estranho e também ligeiramente nojento”, escreveu o crítico local da revista gastronómica “Eater” depois da visita ao recém-inaugurado espaço de Nova Iorque.

A insatisfação não se ficou por aí. Do espaço que serve apenas carne de vaca — com cortes que podem ir dos 50€ aos 230€ —, reteve a quase inexistência de carne maturada.

Foi brindado com a coreografia de Gokce, revelada “com uma eficácia e um magnetismo impressionante”. “Mas já tínhamos visto isso muitas vezes, umas no telemóvel, agora ao vivo, e pareceu tudo um pouco insonso. A peça precisa de um segundo ato.”

Do lado da “GQ”, outro crítico atirou-se à carne. “O bife é transcendente? Não. É vulgar, um pouco duro e algo insípido.” E perante a pergunta se algum desses fatores importa, a resposta é breve: “Não importa [se a comida é má]. Uma pessoa não visita o Salt Bae por causa do bife, tanto quanto quem vai à missa não está lá pela qualidade das óstias.”

Outro crítico foi ainda mais duro e queixou-se do “ribeye rijo como uma sola” e “carregado de bolas de gordura”. Não hesitou no momento de chamar ao restaurante de Gokce o “Embuste Público Número Um”.

Não foram apenas os críticos que atormentaram a chegada de Gokce aos Estados Unidos. Até a sua coreografia ficou em risco, quando uma artigo online levantou dúvidas sobre o cumprimento das regras de higiene e segurança do seu famoso espalhar do sal.

Ao manusear os alimentos diretamente com as mãos e sem qualquer proteção, diziam os críticos, estaria a incumprir os códigos em vigor, criados pelo Departamento da Saúde. Não só por interferir com comida pronta a consumir, mas também por usar joalharia nos braços e mãos, com as quais o sal entra em contacto.

Se Gokce não ligou aos críticos gastronómicos — “só vendo as melhores carnes”, reclamou —, ouviu as recomendações e, nos Estados Unidos, passou a replicar o meme sempre com umas elegantes luvas pretas.

O miúdo que gostava de carne

Aos 37 anos, Salt Bae é mundialmente famoso. Nem sempre foi assim. Nascido numa família turca de origens curdas e humildes, foi obrigado a deixar a escola antes do secundário. Os pais não tinham dinheiro para o manter a estudar.

Foi, então, trabalhar para o talho do mercado de Bostanci, onde chegou como aprendiz. Aprendeu a arte entre os mestres, em horários punitivos: chegava-se a trabalhar quase 18 horas num só dia.

Do talho saltou para um ponto intermédio: um restaurante com conceito de talho, onde chegou em 2007. Mas Gokce queria mais e decidiu viajar para um dos países onde a carne é venerada.

Gokce antes do sucesso viral — e do look obrigatório

As férias de três meses na Argentina, entre talhos e restaurantes, deram-lhe uma nova perspetiva e, de regresso à Turquia, decidiu que iria tentar a sorte em Nova Iorque. De estágio em estágio, muitos não remunerados, acumulou experiência valiosa para concretizar o sonho de criar o seu próprio restaurante no seu país.

Desempregado e de volta a Istambul, precisou da ajuda de um velho amigo que se tornou investidor. As portas abriram, Gokce serviu a sua carne e foi um sucesso. Em menos de meio ano, pagou a dívida. A partir daí veio o lucro.

Em 2012, um grupo de investimento ajudou-o a internacionalizar a cadeia Nusr Et. E quem tiver umas boas centenas de euros para gastar, poderá ter a experiência ao vivo, esteja em Abu Dhabi, em Doha, em Jeddah, em Mykonos, Miami, Nova Iorque, Los Angeles e brevemente em Londres.

Pode é ter azar: Salt Bae é um meme viral, mas não consegue estar em todos os espaços ao mesmo tempo. Sem ele, terá que se contentar com o bife que, espera-se, seja suficientemente delicioso para fazer esquecer o meme.

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