Restaurantes

A tasca lisboeta que é um templo dos sportinguistas — e dos fãs de comida minhota

Chama-se Tasquinha do Lagarto e é uma instituição da capital. E não, o nome não é uma alfinetada aos adeptos do clube.
Fica em Campolide está sempre composta.

Pataniscas suculentas, arroz de miúdos ou cozido à portuguesa. Quem visita a Tasquinha do Lagarto, em Campolide, já sabe ao que vai: comida minhota, pratos bem servidos e um espaço carregado de homenagens ao Sporting Clube de Portugal. E desengane-se quem achar que o espaço foi batizado pela ligação aos adeptos sportinguistas — ou por um menos bem intencionado adepto do rival da Segunda Circular.

O lagarto, que deu nome à casa, já lá está embalsamado “há mais de cem anos”. “Era do antigo dono, um primo nosso, e deve ter vindo da guerra do Ultramar”, diz sem certezas o gerente Ricardo Rodrigues. Isto porque ainda antes de ser um restaurante era, ainda na altura da guerra, uma pequena carvoaria que vendia, como o nome indica carvão, vinho e petróleo.

E apesar da assumida paixão sportinguista, a tasquinha não discrimina. “Também temos camisolas do Benfica, do Porto, do Braga e até uma do Vitória do Guimarães”, conta. Em setembro de 1973, regressado do conflito nas colónias portuguesas em África, Tomaz Rodrigues, natural de Ponte de Lima, começou a trabalhar na Tasquinha do Lagarto. Três anos depois, após casarem, a mulher juntou-se a ele e logo depois o cunhado, João Vila Verde.

No início dos anos 1990, surge a oportunidade de Tomaz e João ficarem com o negócio. Não viraram costas e transformaram a antiga carvoaria num café típico de bairro, com pipos de vinho e jogos de damas e dominó. Em 1992 decidiram reformar o conceito e aí nasce a Tasquinha do Lagarto como a conhecemos hoje em dia: um restaurante que assenta nos pratos regionais que saem da cozinha.

“A coisa começou a correr bem. O restaurante inicial era do outro lado da rua. Mas em 1995 passou a estrada para abrir a Tasquinha 2. No primeiro dia de agosto de 2008 decidimos ficar apenas com um espaço e fazer as obras finais”, conta Ricardo Rodrigues, de 47 anos.

Desde então, pouco mudou. Continuam a servir cozido à portuguesa às quartas e sábados e os filetes de polvo com arroz de polvo, assim como arroz de garoupa são dos mais pedidos. Brilham também as favas à tasquinha, ou seja, com entrecosto e enchidos, bochechas de porco com farinheira, atum de cebolada e as famosas pataniscas com arroz de feijão.

As sobremesas foram ganhando as suas próprias tradições e algumas não podem sair da lista. “A mais vendida é o bolo de bolacha com mousse de chocolate. Mas o arroz-doce, a aletria e o leite creme nunca podem faltar. A siricaia e a encharcada de ovos também não”, adianta.

Apenas trocou a cozinheira. A mãe de Ricardo saiu e foi substituída pela nora Paula Pereira. “Ela passou-lhes os livros e, por isso, a comida continua exatamente igual. Continuámos a fazer o cabrito à minhota, regada com vinho branco, servido com arroz de miúdos e batata assada”, conta o gerente. Um prato que o faz lembrar a segunda casa, Ponte de Lima, de onde toda a família é natural.

Honrando a tradição, ali só se bebe vinho verde de tinto de malga — e a imperial adota o nome nortenho: fino. Para Ricardo, já nem é uma questão a debater: “Atualmente já toda a gente sabe o que é, mas eu gosto de brincar com os clientes e trocar-lhes as voltas e chamar a cerveja de fino.”

A boa disposição é uma característica da casa, assim como o facto de serem todos sportinguistas. “Não foi planeado, mas sim coincidência”, apressa-se a justificar. Mas o que é certo é que é ali que em dias de jogo muitos adeptos do clube de Alvalade se juntam. Segundo o responsável, chegam de vários pontos do País. Mas no final da partida, são os lisboetas que gostam de passar lá.

Ricardo já não sabe bem como começou a tradição, mas a verdade é que jogadores e dirigentes de todas as modalidades passam por lá para provar as especialidades. “Infelizmente é algo que desde a pandemia diminuiu. A exposição a que estão sujeitos, sobretudo os da equipa A de futebol não ajuda. Normalmente nem conseguem acabar uma refeição descansados.” Porém, quando Rui Patrício era guarda-redes do clube, aquela casa era ponto de paragem obrigatória para o atleta. O roupeiro Paulinho, figura mítica do clube, também gostava de lá ir, assim como o presidente Frederico Varandas.

Durante estes anos a presença de atletas federados acabou por deixar marcas positivas em todos os que lá trabalham. “Conhecer alguns dos meus ídolos de miúdo, como o Ângelo Girão foi inacreditável. Foi como se reavivasse a criança que há em mim”, diz. Mas o melhor, para o responsável que ainda tentou fugir da restauração quando era mais novo, é a paixão pelo que faz. “Nesta área temos mesmo de gostar muito do que fazemos e é isso que acaba por nos diferenciar”, garante.

Carregue na galeria para conhecer a Tasquinha do Lagarto.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    R. de Campolide 258
  • HORÁRIO
  • Terça a sábado das 12h às 15h30 e das 19h30 às 22h30
PREÇO MÉDIO
Entre 20€ e 30€
TIPO DE COMIDA
Portuguesa

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