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“A vontade de parar a greve de fome era diária mas estávamos ali por uma causa maior”

José Gouveia foi um dos empresários do movimento “Sobreviver a Pão e Água” que esteve na greve que terminou esta quinta-feira.
Foram sete dias em greve de fome.

A ideia da greve de fome já tinha sido mencionada por alguns elementos do movimento “Sobreviver a Pão e Água” depois da manifestação que levou centenas de empresários da restauração, e não só, a São Bento, em Lisboa, na tarde de 25 de novembro. O protesto ficou de lado por dois dias, uma vez que nessa mesma quarta-feira receberam a informação de que iam ser recebidos pelo gabinete da Presidência da República, na sexta-feira seguinte, 27 de novembro.

Ljubomir Stanisic, José Gouveia e Manuel Salema foram a essa reunião e saíram de lá sem nenhuma resposta. Horas depois iam dar início à greve de fome que já tinham falado dias antes. “Quando recebemos o pedido de audiência na casa da presidência, entendemos que seria como consequência uma reunião com o Presidente da República. Estivemos lá, mas foi com dois assessores. Houve uma certa desilusão por parte do grupo e decidimos avançar para a greve de fome”, explica à NiT José Gouveia, um dos empresários ligados ao movimento “Sobreviver a Pão e Água”.

Saídos da Casa Civil, fizeram nas proximidades a última refeição que iam ter nos dias seguintes. “Fomos até aos pastéis de Belém e depois passámos em casa só para vestir algo mais quente antes de começarmos a greve.” Começaram nove pessoas e depois juntou-se mais uma.

Durante os sete dias que estiveram em tendas, com cobertores e casacos quentes, apenas beberam água e chá. “Tomávamos também algum magnésio e vitamina c para mantermos os níveis.” Era normal que o corpo fraquejasse e nem mesmo com dois elementos a terem sido assistidos pelo INEM e levados para o hospital desistiram da greve e do protesto que tinha o objetivo de os levar a uma conversa com o primeiro-ministro, António Costa, ou com o ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, para a entrega do manifesto.

O chef Ljubomir Stanisic foi o primeiro a sentir-se mal, na tarde de quarta-feira, 2 de dezembro. “Estava com palpitações, níveis de glicémia em baixo e com sintomas de poder entrar em coma”, explica José Gouveia. Nesse mesmo dia, o chef do Bistro 100 Maneiras voltou ao protesto depois de assinar um termo de responsabilidade.

Nesta quinta-feira, 3 de dezembro, o último dia da greve de fome, houve mais um elemento que teve de ser hospitalizado. Mesmo com estas baixas, o protesto continuou e ganhava força com todo o apoio que recebiam.

Através das redes sociais foram vários os empresários ligados à restauração e ao setor da noite que deixaram mensagens, assim como muitas figuras da cultura. Houve até alguns mini concertos no espaço que montaram em frente à escadaria da Assembleia da República.

Foto de Christian F.

“Tivemos a Bárbara Bandeira, os D.A.M.A, os Calema, o Toy, pessoas dos Wet Bed Gang e ainda os bairros de Alfama e do Bairro Alto numa noite muito emotiva de fado.” Deu-lhes força para continuar, mas foram os testemunhos feitos para todo o grupo que mais os impressionaram e não os deixaram cair.

“Foram vários os empresários e os trabalhadores que passaram por lá a contar a sua história e como tinham perdido tudo. Foi um apoio, mas também o que nos deu mais pressão e vontade de nos mantermos ali.”

O pensamento de terminar o protesto era uma constante, mas também a força que tiveram em continuar. “A vontade de parar a greve de fome era diária, mas estávamos ali por uma causa maior do que nós. Recebemos mensagens de amigos que nos viam na televisão a dizer para desistirmos, por causa também das nossas famílias, mas víamos que estávamos ali por uma causa, como soldados dispostos a morrer pela causa.”

Durante aqueles sete dias foram confrontados com vários testemunhos. “Um dos que mais nos impressionou foi o de uma senhora que teve de fechar o negócio logo em março, teve de sair do T3 onde estava e passar a viver num parque de campismo. Só tinha 10€ na conta e mesmo assim foi comprar água para nos levar.”

Os dias eram passados todos juntos nas tendas. Acordavam sempre por volta das sete da manhã e falavam com algumas das pessoas que passavam por ali. Regularmente era acompanhados por uma equipa médica que lhes fazia testes rápidos de Covid-19 e media os níveis de glicémia.

Usavam um hostel ali perto, de um amigo de uma das pessoas do movimento, para irem à casa de banho e descansarem por algumas horas numa cama. “Era uma greve de fome, não de privação do sono.”

O protesto terminou ao final da tarde desta quinta-feira, 2 de novembro, depois de uma reunião com Fernando Medina, uma iniciativa que partiu do próprio. “Não foi enquanto presidente da câmara de Lisboa, mas sim como pessoa próxima do governo e que irá fazer a ponte.” Na conversa que José Gouveia e Ljubomir Stanisic tiveram com Fernando Medina nos Paços do Concelho, perceberam que houve alguma abertura para serem ouvidos e foi aí que decidiram parar com o protesto que durava desde sexta-feira, 27 de novembro.

Do Terreiro do Paço, os dois foram até à Assembleia da República reunir com os restantes elementos que ali estavam do movimento “Sobreviver a Pão e Água” e brindaram ao fim da greve com croquetes e fatias de pizza. “Foi uma pizzaria ali ao pé que nos ofereceu. Podia ser a pior pizza do mundo, mas soube como a melhor.”

Arrumadas as tendas e todos os materiais que ali tinham há quase uma semana, seguiram para um jantar no Solar dos Presuntos. “O Pedro Cardoso tinha-me prometido uma canja, mas houve muita coisa, abusámos de tudo.”

Já o começo do dia não foi o melhor. “Dormi muito mal, por causa do excesso do jantar, já não comia há sete dias. Acordei com cãibras e com a perna presa.” Já o almoço pôde ser mais tranquilo, tanto o de José Gouveia, como o dos restantes elementos que estiveram na greve de fome.

“Estava com desejos de grávida de um sushi. Já partilhámos fotos dos almoços. Houve quem fosse ao Chimarrão e outro que comeu codornizes.” Depois da conversa que teve com a NiT, José Gouveia ia a uma consulta de nutrição para perceber como estavam todos os níveis.

Ficou marcada nova reunião com os elementos do movimento “Sobreviver a Pão e Água” para a próxima sexta-feira, 11 de novembro. Será novamente com Fernando Medina, numa ponte com o governo e o ministério da Economia. Apesar do avanço, não consideram que a batalha está ganha. “Não é uma vitória, apenas o fim da greve de fome e uma chamada de atenção para o que está a acontecer no País.”

José Gouveia admite, no entanto, o regresso a este protesto. “Se nada for feito, se sentirmos que nenhuma das medidas que achamos essenciais for aceite, vamos voltar com a greve de fome.” Considera, contudo, que este “não deve ser o modus operandi para se chegar ao governo”. Ainda assim, “as necessidades do povo têm de ser ouvidas”.

Entre as medidas principais, e que consideram mais urgentes, estão o apoio à tesouraria de empresas que estão encerradas desde março; a flexibilização da plataforma Apoiar.pt, para que dívidas neste período da pandemia, como ao fisco ou a TSU, não sejam descontadas no apoio; e a reposição progressiva dos horários da restauração e de outros espaços.

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