Beleza

A artista portuguesa que faz tatuagens para esconder cicatrizes (sem cobrar nada)

Raquel Pires ouve histórias de automutilação, queimaduras e doenças oncológicas. "É uma carga emocional tão grande."
Começou em 2019.

Quando Mariana (nome fictício) entrou no estúdio de Raquel Pires, tinha um desafio diferente para a tatuadora. Era fã da forma como desenhava flores e queria usá-las para esconder as marcas de queimaduras que tinha no braço. Apesar da hesitação, a profissional aceitou o pedido.

“O processo foi normal. Só tenho que dar mais indicações e o desenho no papel nem sempre corresponde ao que se vê na pele na realidade”, conta à NiT. Então, usou os diversos tons da lesão como sombras para dar a dimensão à ilustração que camuflava o acidente.

No final, ambas ficaram emocionadas. “Nunca vou esquecer o momento em que me disse que mudei a maneira como via o seu corpo. Contou-me que já se conseguia ver ao espelho e usar T-shirts. Quem a via, nunca imaginava que aquela rapariga linda não tinha confiança na sua imagem.”

Desde então, a artista de 30 anos dedica-se a fazer tatuagens em pessoas que tenham alguma cicatriz para esconder ou disfarçar, desde acidentes a casos de automutilação.  Recebe todo o tipo de clientes e presta-lhes um serviço pro bono para que possam recuperar a autoestima que perderam devido às marcas.

“É uma arte que me ajudou tanto”

Ao contrário de muitos profissionais da área, tatuar “não era algo que quisesse desde pequena”, explica. Raquel começou a trabalhar como designer em comunicação de moda até que percebeu que não lidava bem com a rotina. “Tenho problemas de ansiedade e estar em frente a um computador não era ideal para a minha saúde mental.”

Entretanto, decidiu fazer uma pausa e queria aprender algo novo. Quando experimentou tatuar apenas como um hobby, em 2017, percebeu que queria continuar. Além da liberdade dos horários, podia juntar a parte da arte, a comunicação com as pessoas e o mundo da estética.

Raquel começou na área do design.

Depois da pele sintética, gravou o seu primeiro trabalho no atual marido, Rodrigo, que é body piercer. Desenhou uma garrafa de vidro no estilo old school. “Ele adorava desenhos experimentais e não se importava que fizesse asneiras. Uma cobaia ter que ser alguém com menos exigências”, recorda.

Em outubro desse ano, começou a tatuar amigos em casa. Na altura, só havia um estúdio em Viana do Castelo, onde Raquel trabalha, e a equipa não se mostrou recetiva a receber aprendizes. Quando os pedidos se começaram a acumular, em 2019, trocou o escritório privado por um estúdio homónimo.

“Fazer uma tatuagem gera uma sensação de concentração tão grande que não penso em mais nada. É maravilhoso para quem é ansioso”, diz. “É uma arte que me ajudou tanto, que também queria ensinar os outros a lidar com os seus desafios emocionais ou mentais.”

“Nunca lidei com tantas doenças mentais”

Depois do caso de Mariana, a artista começou a ter mais gente a procurar este serviço. As pessoas falavam entre si e, graças ao passa-palavra, havia novos casos semanais de gente que tinham marcas com histórias por trás — algumas gostavam de outras contar, outras não se sentiam à vontade.

“Existe a parte da cicatriz com queloide (formação excessiva de tecido fibroso) e sem queloide. No primeiro caso, é preciso uma autorização médica e deve-se tatuar à volta da cicatriz, porque provavelmente ela vai mudar de cor ou de tamanho explica.”

Porém, existem outras condicionantes. Se a lesão for muito recente, a pele ainda não está estável para receber as agulhas e, no caso de um tratamento oncológico, o corpo tem que estar disponível para receber a tinta. Normalmente, implica um período de, pelo menos, cinco anos.

Uma das maiores dificuldades é gerir as expetativas daquilo que é possível fazer consoante as mazelas. “Não posso prometer um desenho muito delicado, com linhas finas, em algumas cicatrizes. Por vezes, tenho duas camadas extra de pele e tem que se adaptar a técnica para o que a pessoa pretende.”

Em 2020, quando Raquel passou uma temporada a trabalhar na Bélgica, percebeu que a maioria dos colegas não gostava de trabalhar com cicatrizes. Como notou esta lacuna, “porque o resultado visual não é igual a uma normal”, percebeu que podia explorar este nicho.

“O que mais fazia era tapar cicatrizes de automutilação. Nunca lidei com tantas doenças mentais como quando estava lá”, recorda. “Muitas eram pessoas que tinham tendências autodestrutivas na adolescência e percebiam que as marcas era um problema a nível profissional. Outros queriam um reminder para não voltarem a fazer.”

É conhecida pelo seu trabalho com flores.

A origem do Cicatrizarte

Quando regressou a Portugal, em 2022, a tatuadora quis trazer o poder deste serviço para o seu estúdio. Nesse ano, lançou o projeto “Ciatrizarte”, em que oferece uma tatuagem gratuita por mês a alguém que conte a sua história, a ideia e há quanto tempo sofreu a lesão.

A cicatriz pode ser em qualquer parte do corpo, de qualquer tamanho e em qualquer parte do corpo. Não existe limite de tamanho, nem cores, desde que se enquadrem no estilo de trabalho de Raquel — neotradicional e em linha grossa. O único requisito é que a ferida tem que ter uma idade superior a dois anos.

No âmbito desta iniciativa, foram surgindo novas histórias. “Uma cliente que me marcou visitou-me após ter sido internada por automutilação. Quando a tatuei, voltou à reabilitação algum tempo depois e tive que fazer a recuperação novamente. Tinha 20 anos e sentia a carga emocional tão grande.”

Mais tarde, ouviu uma história de suicídio não realizado. A pessoa sobreviveu, mas ficou com muitas mazelas. “Tenho acesso a experiências muito pesadas, mas também a outras menos agressivas. Há pessoas que me procuram porque tiveram um acidente de bicicleta e aparecem por uma questão apenas estética.”

A tatuadora tem ainda a preocupação com clientes de pele escura, em que é preciso um cuidado extra. Se há mais melanina, também há uma tendência maior em criar quelóide. Por isso, é preciso usar micro-argulhas que perfuram a pele mais sensível para diminuir a resposta cutânea.

“Existe algum preconceito com este trabalho. Não é pela pessoa, mas pela ideia de que não vai ficar bem e o cliente vai voltar para retocar umas quantas vezes”, conclui. “Muitos colegas de profissão evitam porque não é uma pele saudável. O que me move não é a cicatriz, mas a história por trás.”

Pode saber mais sobre o trabalho de Raquel Pires através da sua página de Instagram. Aproveite e carregue na galeria para ver exemplos de algumas das suas tatuagens.

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