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Afinal, porque é que as mulheres continuam a pagar mais pelos cortes de cabelo?

Em Portugal, já há salões que cobram o mesmo por serviços iguais aos clientes dos dois sexos. Porém, estão longe de ser a norma.
A NiT falou com três salões.

Regra geral, na maioria dos barbeiros a tabela de preços não demora muito tempo a ler. Os clientes conseguem decifrar quanto vão pagar pelo que pretendem fazer em meia dúzia de linhas. O mesmo não acontece nos salões unissexo, onde o preçário feminino elenca o dobro (ou mesmo o triplo) dos serviços e os valores-base são sempre acompanhados de umas quantas alíneas.  As mulheres pagam quase três vezes mais por um corte de cabelo do que os homens. Os dados são de uma sondagem da empresa YouGov, divulgados em 2020.

Em média, as clientes do sexo feminino têm de pagar 36€ pelo serviço. Já os do sexo masculino pagam, em média, 14€. Embora muitas mulheres optem por cortes igualmente curtos, pagam mais. E, quando tentam ir a barbeiros em busca de preços mais baixos, vários profissionais recusam prestar-lhes os serviços que procuram.

Porém, já há salões em Portugal que abordam a questão de forma diferente. Em novembro de 2022, o Slash Creative Hair Studio lançou um preçário sem género, por exemplo. Ou seja, o valor cobrado pelo atendimento varia consoante o comprimento dos fios, refletindo apenas o trabalho técnico necessário.

“Aproveito todas as viagens que faço para ir espreitar outros salões e também sito muitos nas redes sociais. Reparei que já havia esta tendência em alguns países antes da pandemia, nomeadamente em Inglaterra, onde fiz toda a minha formação”, explica à NiT Olga Hilário, diretora artística do espaço.

Até então, o corte masculino rondava os 40€ e o corte feminino variava entre os 47€ e os 69€. Neste momento, o intervalo mantém-se o mesmo, variando não só consoante os estilos definidos (super curto, curto, médio e longo), mas também tendo em conta a experiência do especialista responsável.

O tema tem-se alastrado um pouco por toda a Europa — e com diferentes abordagens. Na Bélgica, por exemplo, a federação de cabelos do país, a Febelhair, aconselha todos os membros a cobrar 1,30€ por minuto independentemente do sexo. “Precisamos de 40 minutos para quem quer um corte completamente novo”, explicou o proprietário de um salão em Bruxelas ao “The Guardian”.

No entanto, a diferença pode ir além do comprimento. A National Hair & Beauty Federation refere que as mulheres têm, frequentemente, cortes mais complicados e que não podem ser feitos tão rapidamente. Trata-se de um ponto de vista partilhado por muitos portugueses, mas que ainda divide as opiniões dos especialistas.

“Ainda existe bastante discriminação”

“Acreditamos que a frequência com que os homens cortam [o cabelo] tem impacto direto nos preços praticados”, admite Renata Schiavo, fundadora do Art.Z, à NiT. “Devido ao crescimento, os homens precisam de retocar o corte em média entre 20 e 30 dias, enquanto as mulheres só o fazem, em média, a cada três meses.”

O cabeleireiro Karlos Wendell, que abriu recentemente um salão homónimo no Seixal, também trabalha com uma tabela de preços indiferenciada. Porém, no momento do pagamento, costuma haver uma diferença substancial nos serviços prestados às senhoras.

“As mulheres costumam pedir um champô especial, querem adicionar uma máscara ou fazer um tratamento de reconstrução. São opções que acrescentam extras à fatura”, diz. “Quando somamos tudo, acaba por ficar mais caro.”

A opinião é partilhada por Renata. “De fato, mulheres usam novos produtos com maior regularidade e também fazem mais pedidos trendy. Isso tudo é levado em conta no momento de definir o valor cobrado.”

O debate levanta ainda outra questão: o facto de os produtos capilares femininos serem mais dispendiosos. A diferença pode ser atribuída a uma maior procura ou variedade, contudo, muitas vezes é apenas uma estratégia de marketing.

Ainda assim, um corte masculino não é necessariamente menos complicado. Olga defende que a técnica, a experiência do profissional e o tempo exigido que devem ser tidos em conta. Já Karlos afirma que o couro cabeludo de muitos homens requer mais atenção e trabalho, mesmo que isso não se traduza no tempo necessário.

Se muitos portugueses ainda encaram esta mudança nas tabelas de preços como uma experiência, os resultados mostram que estão recetivos à atualização. Mesmo os clientes mais antigos do Slash não repararam na alteração, sobretudo porque a filosofia já era aplicada antes do lançamento oficial do novo preçário.

“Ainda existe bastante discriminação e alguns negócios podem ter receio de fazer a mudança”, explica a diretora artística do salão. “Além disso, continua a haver uma grande divisão entre barbeiro e cabeleireiro. Há barbeiros onde as mulheres não podem entrar, mesmo quando procuram um corte curto.”

Ainda assim, os profissionais estão atentos. “O Art.Z. ainda não colocou a hipótese de colocar um preçário sem género pela diferença que notamos nas necessidades, mas estamos sempre atentos às demandas do mercado”, afirma Renata.

A realidade do Slash continua longe de ser a norma, porém, a iniciativa apresenta uma nova forma de olhar para a indústria — e o objetivo é transformá-la. “Os salões que se mantêm jovens vão, muito provavelmente, aderir a esta tendência. Acredito que é este o futuro”, conclui Olga.

Carregue na galeria para descobrir 11 penteados que fazem qualquer mulher parecer mais nova.

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