Beleza

Beleza sem barreiras: Carolina é a primeira modelo portuguesa com síndrome de Down

A jovem de 21 anos namora, sonha ser atriz e assume o protagonismo da sua própria história.
O empoderamento e a resiliência fazem parte desta história.

Enquanto a palavra “inclusão” continua a ser exclamada no volume máximo por marcas nacionais, os passos dados nessa direção continuam a ser poucos. Perante os muros que ainda perduram, Carolina Teixeira Rosa assume-se como o rosto de uma resiliência capaz de derrubar as barreiras que a indústria da moda e da beleza mantêm de pé. “A moda é muito importante, porque me sinto bonita, poderosa e forte”, conta a modelo de 21 anos, à NiT.

O gosto pela fotografia e pelas poses começaram a fazer parte da sua vida muito cedo, aos dois anos, despertando aquele que viria ser o seu sonho. Além disso, “gostava de aprender as falas dos filmes que via e transformar aquilo numa peça no seu quarto”, recorda a mãe, Paula. “Foi um estímulo muito grande para desenvolver a fala, porque ela tentava dizer em simultâneo o que ouvia nos desenhos animados.”

Ao crescer identificou-se com outros universos e quis, como acontece com muitas crianças, ser professora ou cabeleireira — mas o que foi permanecendo foi sempre o gosto por ser modelo, desfilar e fazer ensaios fotográficos. Tornou-se algo muito vincado, gravando sonhos muito firmes nas aspirações da jovem, que vão além do tamanho do seu corpo.

Por volta dos 13 anos, quando já manifestava mais vontade própria, começou a explorar o mundo das redes sociais, a partilhar as suas imagens e criou um blogue a que chamou “Minha Vida Nada Down” – nome que mantém até hoje. Foi quando iniciou o caminho em direção ao seu objetivo.

Nesta fase entre os 13 e os 14 anos, o bullying começou a delinear a consciência que a modelo tem do preconceito e da sua própria imagem. Entre comentários que a faziam sentir-se feia e colegas que apontavam a impossibilidade de realizar o seu sonho como modelo, a autoestima de Carolina passou por uma fase complicada. A moda foi uma forma de a fortalecer e perceber, ao olhar ao espelho, que era bonita e que devia cuidar de si.

A caminho dos sonhos

“Em 2017, como nós vivíamos no Brasil — e lá existe outra recetividade no mundo da moda e da representação — ela formou-se como modelo numa agência com outros jovens sem necessidades especiais”, continua a explicar a mãe à NiT. Conseguiu certificação para trabalhar na área, fez trabalhos como modelo, desfilou e apareceu numa revista brasileira.

Em simultâneo, começou a desenvolver o lado da comunicação quando gravou, a pedido, um vídeo para uma menina com síndrome de Down, como ela. Chegaram cada vez mais pedidos para trabalhos, que lhe deram muita visibilidade em Curitiba (onde vivia), até que começou a ser abordada na rua.

Atualmente, sente-se bem no seu próprio corpo. “Quem me faz sentir bonita são o meu namorado, os meus amigos e a minha família”, revela Carolina. E um pouco de maquilhagem, acrescenta. Passou por uma fase de muitas perguntas, em que começou a ver os amigos a namorar, e questionava-se porque não conseguia ter uma relação amorosa — mas agora sente-se feliz com o companheiro.

Carolina numa campanha para a marca “Susana Farinha”.

Quando regressou a Portugal, no ano seguinte, Carolina foi confrontada com as dificuldades que existem na indústria nacional. “Quando chegámos, tentei contactar algumas agências e o que me foi dito foi que não existe procura nessa área. Se não existe oferta, não existe procura”, afirma Paula. Os rostos de pessoas com trissomia 21 começam a aparecer cada vez mais em campanhas e revistas — com o último caso a ser o de Sofia Jirau, a primeira modelo com síndrome de Down da Victoria’s Secret — mas as experiências continuam a ser muito limitadas.

“São dados pequenos passos, mas ainda estamos muito além da inclusão no verdadeiro sentido da palavra. Nem sei se alguma vez vai existir de verdade, só quando deixarmos de falar de inclusão por já ser algo natural”, acrescenta a mãe. “As pessoas não têm noção do que é a verdadeira inclusão. Aceitam-nos, acolhem-nos, mas passar à prática é muito diferente.”

Neste momento, Carol é uma das funcionárias do Joyeux Portugal, um café restaurante que conta com colaboradores com dificuldades cognitivas, e dá a cara pelo espaço. “A nível profissional ficamos com uma perspetiva mais próxima da realidade. É super dedicada, social e afável com quem chega”, diz Paula. A nível pessoal, apresenta a dualidade entre o lado doce, generoso e sonhador com os momentos de raiva adolescente — agravada devido ao défice cognitivo — em que tem sempre uma resposta na ponta da língua.

Carolina continua a fazer o seu caminho contra tudo e todos e, em novembro de 2021, revelou o seu lado empreendedor com a própria marca de roupa, Sweet Caroland, ainda num estágio embrionário. “Uma vez que percebemos que não é fácil chegar a marcas, pensámos desenvolver uma marca de que pudesse, ao mesmo tempo, ser ela a cara da marca e integrar outras pessoas com necessidades especiais”, continua a progenitora. O objetivo é abrir espaço para mais miúdas que possam querer entrar no mundo da moda ou da televisão, uma vez que Carolina teve que se formar num outro país para ter hipóteses de trabalhar na área — formação impossível de fazer em Portugal.

Um ensaio para a marca Sweet Caroland.

O mês de março é dedicado à consciencialização sobre a síndrome de Down e, na segunda-feira, dia 21, foi convidada para falar numa escola sobre a sua experiência. A mãe explica que “foi muito emocionante ver as crianças a perceberem a diferença e foi fascinante vê-la a dar o depoimento dela e a dizer que acredita nos seus sonhos”, um momento que terminou com um desfile com os miúdos todos de mãos dadas e muitos abraços.

Com uma boa parte dos seus sonhos profissionais cumpridos, o próximo passo é tornar-se atriz. “Já fiz uma peça de teatro numa escola e a partir daí comecei a desejar ser atriz”, conta a jovem. Os trabalhos que tem feito em televisão, nos media e como modelo comercial são o gás que move Carolina Teixeira Rosa numa direção muito além da que lhe dizem ser possível. Empoderada e cada vez mais autónoma, a sua história continua a ser escrita, página a página e capítulo a capítulo.

Retrato de Carolina para o projeto Pinch of Heaven.

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