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D’AVEIA: a primeira marca portuguesa de dermocosmética já foi lançada há 20 anos

A NiT falou com Cristina Varandas para conhecer melhor a história deste negócio de família, pioneiro na indústria nacional.
Cristina Varandas com o seu filho, Vasco.

Quando terminou o curso em Ciências Farmacêuticas, na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, a indústria dos cosméticos não era uma paixão para Cristina Varandas, de 56 anos, que confessa à NiT ter sido sempre “muito ligada à ciência e ao medicamento”. A opinião da fundadora da D’AVEIA era, na altura, muito simples: a cosmética não era suficientemente científica para lhe despertar interesse.

Passadas duas décadas, esta empresária natural de Almada tornou-se na improvável criadora da primeira marca portuguesa de sempre na área da cosmética dermatológica (isto é, ligada aos cuidados da pele), conquistou o mercado nacional e conseguiu levar a D’AVEIA até Angola e Moçambique, com a visão de internacionalizar o projeto para que um dia possa “cuidar da saúde da pele a uma escala global.” Mas afinal, como se deu esta mudança de opinião em relação à indústria?

Em entrevista à NiT, Cristina Varandas conta que o interesse pela cosmética surgiu quando se começou a dar uma revolução no setor que deu início “à nova era”, em que cada componente passou a ter a sua própria função num produto, com uma vertente mais científica e o desenvolvimento de testes clínicos para evidenciar a sua eficácia. Depois de ajudar a lançar a marca norte-americana Aveeno e a francesa URIAGE no nosso País, tomou a decisão de fundar a sua própria empresa.

A Dermoteca foi criada em 1994 com apenas quatro colaboradores. Na altura, o que a empresária pretendia era trazer para Portugal marcas internacionais conceituadas nesta indústria, trabalhando sempre de perto com as classes médica e farmacêutica. Durante cinco anos, a empresa cresceu exponencialmente impulsionada pela Aveeno, que pertencia ao seu portefólio, a uma velocidade tão grande que o nosso País acabou por se tornar num caso de estudo a nível europeu.

No entanto, a situação mais crítica ao longo dos 25 anos de existência do projeto apareceu logo em 1999, quando a gigante Johnson&Johnson comprou a Aveeno e deixou a Dermoteca sem a marca que representava mais de 80 por cento da sua faturação. “Estava em risco a nossa sobrevivência e a manutenção dos postos de trabalho. Com 16 funcionários, tínhamos 16 famílias que dependiam de nós”, recorda Cristina, que estava na altura divorciada, com um filho de 10 anos e a ver a sua carreira a desabar.

Esse momento de crise acabou por ser o maior ponto de viragem na história da empresa, uma vez que inspirou Cristina a reunir toda a aprendizagem que tinha desenvolvido a trabalhar nos laboratórios e a lançar marcas para “entrar numa nova aventura”, uma ideia que tinha tudo para correr mal no pequeno mercado português: criar uma marca única, desenvolvida com o máximo rigor científico, qualidade e eficácia, a pensar especificamente no público nacional.

A D’AVEIA nasceu em abril de 2000, num “momento de tudo ou nada”, como descreve a farmacêutica, que tinha como únicas preocupações preservar a empresa que tinha fundado “com tanta dedicação e paixão” e manter os postos de trabalho de todos os colaboradores. “A visão da marca foi-se construindo à medida que fomos crescendo”, acrescenta. O foco inicial era produzir cosméticos dermatológicos, mas a marca foi-se expandindo para outras áreas, como a pediatria e a ginecologia. Hoje, emprega 27 trabalhadores, sendo mais de 65 por cento mulheres.

Ao longo dos anos, a D’AVEIA lançou no mercado português dezenas de produtos adaptados às necessidades dos consumidores, mas sempre com foco no rigor científico e qualidade exigidos pelas classes médica e farmacêutica. Para Cristina, foi essa visão que levou a marca a destacar-se na indústria e a conquistar o nosso mercado, apesar de todo o ceticismo com que o mesmo a recebeu.

“Há 20 anos, a desconfiança em relação a marcas portuguesas era muito maior e dava-se um maior reconhecimento a marcas francesas. Felizmente, essa mentalidade tem vindo a alterar-se nos últimos anos”, afirma. Agora, as nossas origens são mesmo um dos maiores focos na comunicação da D’AVEIA — segundo Cristina, há muitos portugueses que não a reconhecem como uma marca nacional, apesar do nome evidenciar o contrário. “Somos das poucas marcas de dermocosmética que têm um nome português”, sublinha.

Todas as fórmulas são desenvolvidas com base em três ingredientes naturais: arroz, milho e, naturalmente, a aveia. Há cerca de 27 produtos segmentados em quatro categorias, distinguidas por cores: dermatologia (bege), focada na hidratação e cuidados específicos da pele de adulto; pediatria (verde), desenvolvida para a higiene e cuidados da pele de bebés e crianças; cuidado íntimo (lilás), onde se insere a higiene, anti-aging e cuidados da zona íntima da mulher; e solares (laranja), para a proteção solar da pele em todas as idades.

Apesar de todo o reconhecimento dado ao segmento de bebé e criança, Cristina revela que as referências mais populares são o D’AVEIA Ginecológico, para o cuidado íntimo no dia a dia, e o Hidratante Corporal, para a hidratação de pele dos adultos. Os principais distribuidores são farmácias e parafarmácias por todo o País, mas as propostas da marca também podem ser compradas através da loja online

Quando pensa no seu legado, a empresária recorda com orgulho os obstáculos que ultrapassou para ser uma pioneira na indústria da cosmética no nosso País, tradicionalmente dominada por grandes grupos internacionais com um elevado poder económico. O seu filho Vasco, que tinha apenas 10 anos quando o negócio enfrentou a sua maior crise, ajuda agora a mãe no desenvolvimento das áreas de inovação e tecnologia, mas também na condução do departamento comercial, na transformação digital e no marketing.

Agora, os desafios que enfrentam são outros, sem quaisquer precedentes. “A pandemia veio afetar várias indústrias e a de dermocosmética não foi exceção”, afirma. Além da quebra no poder de compra dos consumidores, destaca as restrições de acesso às farmácias, consultas e prescrições médicas, que vieram colocar um entrave às vendas. Ainda assim, a sua visão mantém-se positiva: “Nos tempos que correm, o impacto final da pandemia ainda não pode ser medido, mas até agora a marca conseguiu contrariar a abrupta queda do mercado de dermocosmética”, fatores que justifica com a confiança dos consumidores e a capacidade rápida de adaptação com que o projeto encarou a situação.

Posta de lado a pandemia, Cristina Varandas quer focar-se no futuro em exportar e dar a conhecer a D’AVEIA lá fora, um plano que já tem vindo a desenvolver nos últimos anos. “Começámos a participar em congressos internacionais para divulgar a marca e atualmente temos vários contactos que estamos a explorar. É fundamental encontrarmos parceiros e distribuidores que partilhem os nossos valores e o modo de trabalhar a cosmética com a mesma exigência”, indica.

Ao mesmo tempo, estão cada vez mais focados na sustentabilidade e no impacto ambiental e social do negócio. Além das várias doações de produtos a associações sem fins lucrativos, Cristina revela que a frota de carros da empresa está a ser alterada de veículos a gasolina para alternativas elétricas. O mais importante, ainda assim, continua a ser o foco nos produtos que levaram a marca a destacar-se no nosso mercado ao longo de duas décadas. “Continuamos atentos à investigação na área da cosmética para estarmos sempre atualizados e a fazer novos lançamentos que completem a nossa oferta e se distingam pela sua formulação e inovação”, conclui.

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