Beleza

De agente funerário a barbeiro de futebolistas. Este açoriano é uma estrela internacional

João Rocha foi o primeiro português na corrida para um Barber Grammy. Já soma duas nomeações e promete não ficar por aqui.
A barbearias são pontos turísticos nos Açores.

“Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, ser barbeiro nunca foi o meu sonho”, começa por dizer João Rocha à NiT. Hoje, é conhecido internacionalmente e a coleção de jogadores a quem já cortou o cabelo não para de crescer.

Trabalha na área da estética há apenas oito anos, queria ser engenheiro informático, mas ao longo da sua (ainda curta) vida já passou um pouco por todo o lado. Vestiu mortos, trabalhou nas obras e teve um stand de motos, mas foi numa viagem a Lisboa, numa altura em que estava desempregado, que deu de caras com aquela que seria a sua vocação.

“Estava à porta de uma escola de cabeleireiros quando um professor me perguntou se vinha para o curso de barbeiro.” Na altura tinha já um gosto pelas barbas grandes, mas a questão fê-lo rir: “Nunca pensei seguir este caminho, não estava de todo nos meus planos”. Numa atitude impulsiva e “sem saber se ia resultar ou não”, gastou todo o dinheiro que tinha na inscrição do curso. Coincidência ou não, era a quantia exata que estava na sua conta bancária, “sem mais nem menos um cêntimo”.

Em 2014, três meses depois de ter começado a cortar cabelos na ilha onde nasceu (Terceira, nos Açores), percebeu que tinha de investir mais na formação e foi para Inglaterra fazer outras formações. “Ao longo de dois, três anos a minha vida foi esta: trabalhava no arquipélago, juntava dinheiro e fazia cursos no estrangeiro; depois voltava e o ciclo repetia-se.”

Os clientes começaram a aumentar e as filas de pessoas que queriam ser atendidas pelo profissional não paravam de crescer. O contacto do antigo jogador do Futebol Clube do Porto Felipe Augusto mudou-lhe a vida. Na altura, já publicava fotografias nas redes sociais, porém “não tinham ainda o poder que têm hoje”, afirma João, de 37 anos. E continua, “do nada, recebi uma mensagem no Instagram de um futebolista que queria cortar o cabelo antes de um jogo contra o Sporting”.

Com um oceano pelo meio, rapidamente multiplicou as viagens para o continente e assim começou a jornada que o tornou conhecido: “Barbeiro dos jogadores e famosos”. Nomes como Nani (“o mais exigente”), Raminhos, Luís Filipe Borges ou Fernando Andrade já passaram pelas suas mãos, e é com eles que mantém uma “quase relação de amizade”.

“Não temos nenhum contrato, nem obrigatoriedade. Quando vou ao continente combinamos, vejo o jogo, jantamos e depois corto-lhes o cabelo”. Com dois espaços abertos na Terceira e em São Miguel — que são mesmo considerados pontos turísticos pelos vários visitantes que lá passam só para tirar fotos às camisolas dos futebolistas — não prevê, contudo, abrir nenhum em território continental.

Embora já tenham surgido propostas para abertura de mais barbearias em Lisboa, Porto e até no Dubai, prefere manter-se ligado às suas raízes e manter a sua marca 100 por cento nos Açores. “A nossa equipa (de oito pessoas) prefere focar-se na qualidade e não na quantidade.”

Já distinguido com uma medalha de mérito empresarial e outra de honra municipal, João Rocha costuma ser convidado como artista/educador para os maiores palcos de eventos de barbearia e cosmética pelo mundo fora, como é o caso do Dubai, Milão, Las Vegas, Nova Iorque, Edimburgo e Madrid. Esta semana, vai estar, aliás, no Texas como júri de um evento.

Mesmo com uma reputação já construída, nada o preparava para ser o primeiro português na corrida para um Grammy da barbearia. Nomeado pela primeira vez em 2021 para Barber of the Year (barbeiro do ano, em português) nos The Internacional Barber Grammys, foi só através de um email que teve conhecimento da conquista. “Fui nomeado e não dei por nada. Só percebi quando, uma semana depois, recebi um email da organização que estava a estranhar ainda não ter promovido nada nas minhas redes sociais”, conta-nos. Este ano, 2022, foi novamente selecionado para o que é o maior evento da barbearia a nível mundial e que distingue anualmente os melhores barbeiros do mundo.

Um corte num dos seus salões custa 21€, já a combinação de barba e cabelo fica por 31€. Quanto ao episódio mais estranho, o barbeiro revela-nos que teve a visita de um padre que tinha uma enorme linha rapada mesmo no meio da cabeça. “Foi aí que ele nos contou que costumava passar a máquina em casa com o pente um só que ela avariou a meio. Ficou daquela forma e o senhor tinha crismas no dia seguinte para os quais não podia aparecer assim.” Ainda assim, foi o pedido do “corte à Ronaldo fenómeno 2002” que mais estranhou até hoje.

Nas suas várias histórias, continua a guardar o primeiro corte feito a Felipe Augusto como o mais especial: “ele deu um mortal depois de um golo que foi capa do jornal e o penteado aparece intacto, foi brutal”.

Carregue na galeria para conhecer as propostas de cortes e algumas das celebridades a quem João Rocha já cortou o cabelo.

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