Beleza

Eric Ribeiro: o cabeleireiro das estrelas da TVI que sonhava ser Miss Mundo

Esteve sempre ligado à televisão, mas a sua carreira explodiu em 2017, quando trabalhou n'"A Herdeira".
Tem 39 anos.

No vasto currículo de Eric Ribeiro, 39 anos, multiplicam-se experiências em novelas da TVI como “A Impostora”, “Ouro Verde”, “Valor da Vida” e “A Herdeira”. Foi, aliás, quando trabalhava nesta última que a sua carreira explodiu de repente, em 2017, e os seguidores se começaram a acumular no Instagram, vindos principalmente das páginas de Sofia Ribeiro, Jessica Athayde e Kelly Bailey, que publicavam quase diariamente stories onde faziam palhaçadas com o cabeleireiro nos bastidores.

É quase impossível passar despercebido. Eric tem barba, bigode e cabelos castanhos compridos e ondulados; usa óculos graduados com hastes grandes à anos 70; põe perucas na cabeça, calça botas de salto alto e veste vestidos; às vezes pinta-se com maquilhagem carregada, cola pestanas falsas nos olhos e flores no cabelo. É uma espécie de António Variações do século XXI misturado com as cores e os espíritos de Carmen Miranda, Frida Khalo e Ney Matogrosso, todos juntos num só embrulho.

Pela sua conta de Instagram, vai encontrar fotografias onde veste drag e outras onde não veste quase nada. Num país como o nosso, nem toda a gente o percebe. “Houve uma grande polémica quando eu tirei uma foto nu em Guimarães”, recorda. Na imagem, publicada numa noite de agosto de 2018, usava botas texanas vermelhas e mais nada, encostado à torre da antiga muralha da cidade onde se pode ler “Aqui Nasceu Portugal”.

 
 
 
 
 
Ver esta publicação no Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação partilhada por Eric Ribeiro (@erikiric)

“Tornou-se viral porque houve pessoas que não gostaram. Começou a haver discussões no meu feed, ameaças de que podia perder o meu trabalho e até saiu nas notícias.” Entre alguns dos comentários que ainda se podem ler por lá — Eric nunca apagou o post — há mensagens como “isto é nojento” ou “lamento, mas não vejo nem beleza nem arte nesta foto.” “Não ligo muito a isso e passo à frente”, conta, “acho que sempre vivi no meu mundo.”

Nasceu na África do Sul e veio para Portugal aos 8 anos com o irmão e os pais, portugueses, que tinham emigrado para lá 10 anos antes. Não se recorda de sentir um choque cultural com a mudança de país, mas o bullying marcou-o. Começou no 5.º ano. “Eu tinha trejeitos e só tomei consciência disso quando me vi numa gravação, na altura. Era eu de rabo empinado nas férias a encher uma boia. Quando me vi na cassete achei que era a coisa mais bicha do universo e até para mim foi um choque a voz, os gestos. Percebi o porquê das pessoas gozarem comigo”, desabafa. “O meu sonho era ser Miss Mundo, achava mesmo que tinha nascido no corpo errado e ia mudar de sexo”. Aos 10 anos, disse à mãe que era uma mulher. Às escondidas, vestia as roupas dela, via-se ao espelho e fingia que estava naquele seu mundo à parte.

As coisas começaram a melhorar quando foi estudar para a Escola Artística António Arroio. “Percebi que havia gays, homossexuais, toda a gente me recebeu de braços abertos e ninguém me apontou o dedo. Pus essa ideia [a da mudança de sexo] de parte, mas acho que se fosse mulher era mais determinada, mais assertiva. Tornei-me mais frágil por ser homem. Se fosse mulher tinha feito mais coisas sem medo.”

Quem conhece o seu percurso, acha difícil acreditar que Eric Ribeiro alguma vez tenha sentido medo. Cresceu nos subúrbios de Massamá e completou o 12.º ano na António Arroio. Queria concorrer à Conservatória Nacional de Lisboa para estudar Argumento, mas não entrou “por milésimas”. Para o ajudar, um dos seus professores arranjou-lhe um trabalho na NBP (o antigo nome da produtora Plural) e por lá ficou, aos 19 anos. Recebia guiões em bruto e corrigia-os de forma a que tudo batesse certo, os raccords, se as personagens mudavam ou não de roupa. Fez edição e anotação ao lado dos realizadores durante 8 anos.

Seguiu-se uma proposta com um ordenado melhor para trabalhar na produtora de Teresa Guilherme, a Terra do Nunca, e foi. No entanto, pouco tempo depois decidiu que queria mudar de vida. Tinha 27 anos quando se inscreveu num curso de cabeleireiro para seguir as pisadas da mãe. Ao longo dos três anos de especialização em pós-laboral, foi parar à “GQ” para trabalhar como assistente de moda, e até recebeu uma proposta para continuar, mas não quis “dar esse desgosto à mãe”. 

 
 
 
 
 
Ver esta publicação no Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação partilhada por Eric Ribeiro (@erikiric)

Decidiu ir por o curso em prática e arranjou uma vaga na cadeia Tony&Guy, onde acabou por conhecer a sua futura chefe, Helena Vaz Pereira. “Fiquei fascinado com ela e com o trabalho dela. Um dos meus sonhos tornou-se trabalhar com ela e houve uma altura em que estava a precisar de um assistente. Mandei-lhe uma mensagem e fui para o Griffehairstyle em 2011.”

Foi por lá que ficou até hoje. “Por ironia do destino”, diz, Helena recebeu uma proposta há “uns quatro ou cinco anos” para restruturar as equipas de maquilhagem e cabelos da Plural. E foi assim que Eric voltou à televisão aos 30 anos, à mesma produtora onde tinha iniciado a sua carreira com apenas 19.

“Já conhecia muita gente dos meus tempos de anotador”, recorda. Esse à vontade entre cabeleireiro e estrelas deu-lhe uma vantagem extra, a de correr riscos. “Como me conheciam, incentivavam-se a fazer umas loucuras.”

A cada projeto, o número de seguidores no Instagram aumentava. Agora, são mais de 20 mil, mas Eric explica que está sempre a oscilar — “quando não estou na novela, desce”, conta. 

Entre os momentos mais marcantes da sua carreira, diz que nunca vai esquecer as viagens que fez com as novelas. Brasil, México e Líbano estão entre a lista; mas também recorda com carinho as oportunidades de conhecer atrizes brasileiras como Sílvia Pfeifer ou Lucélia Santos, a primeira “Escrava Isaura”. “As novelas têm essas coisas boas, trabalhas com pessoas que nem podias imaginar”, continua. Pelo meio, também apareceu oportunidade de colaborar com Helena Vaz Pereira nas gravações do videoclipe de “Madellín” em Lisboa, o single lançado por Madonna com o colombiano Maluma.

Para o futuro, Eric não faz grandes planos, mas mas há um assunto que ainda está meio pendente, que para já guardou na gaveta. “Quanto mais velho for, mais difícil será. Se tudo corresse mal na minha vida, ou se não tivesse mais nenhuma saída pensava: acabou este ciclo, vou mudar de sexo”, afirma. “Temos de ser o que somos, não há nada pior do que estares a esconder-te. A minha essência e a minha pessoa passam muito por isso.”

 
 
 
 
 
Ver esta publicação no Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação partilhada por Eric Ribeiro (@erikiric)

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT