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Lola Bunny: a drag queen portuguesa que escreve “cartas de amor às mulheres”

Jorge Fonseca, de 32 anos, inspira-se nas figuras femininas da sua vida. Atua no Coliseu dos Recreios, na capital, em abril.
Começou a fazer drag em 2014. Fotografia: Melissa Vieira

Se durante muito tempo o drag foi pouco considerado e muitos não o reconheciam como arte, o cenário tem mudado. Nos últimos anos, o transformismo — como é popularmente designado em Portugal — tem marcado presença nas semanas de moda, originado programas de televisão e captado o investimento de marcas colossais. Entre os nomes que têm contribuído para a valorização desta arte estão, claro, artistas nacionais.

Jorge Fonseca, de 32 anos, é um dos principais rostos da nova geração de drag queens em Portugal. Natural da Serra da Estrela, é conhecido nos palcos e nas redes sociais como Lola Bunny, uma figura magnética, teatral e sensual. É uma das performers residentes da discoteca Trumps, em Lisboa, e um dos nomes mais solicitados da capital.

A artista prepara-se para se estrear na sala principal do Coliseu dos Recreios a 9 de abril, onde vai juntar moda e drama. Vai responsável pela abertura do espetáculo “The Big Reveal Live Show”, organizado pela norte-americana Sasha Velour, atualmente uma dos maiores representantes desta arte no mundo. Os bilhetes estão disponíveis online a partir dos 20€. 

“O convite partiu dela e, como é a minha favorita, disse logo que sim. Foi uma loucura”, conta à NiT. “Ela conhece a Jazmine, que também é portuguesa, e pediu-lhe sugestões. Acabou por seguir algumas pessoas e creio que escolheu aquela com quem se identifica mais.”

Vai atuar no Coliseu dos Recreios. Fotografia: Melissa Vieira

A cada paragem do seu one-woman show, Sasha aproveita para dar uma plataforma a talentos locais. Isto é especialmente importante num País onde, segundo Lola, ainda é difícil ter espaço e visibilidade fora do universo noturno.

“O trabalho que faço no Trumps é animação. Quando estou fora, gosto de mostrar algo conceptual”, refere. “Como o espetáculo é sobre surpresas, vou incluir algumas. Quero interpretar a letra dos temas e fazer uma exibição de looks, o ponto forte do meu trabalho.”

Se este é um dos pontos altos da sua carreira, aquilo que mais orgulha Lola é como o seu trabalho impacta a vida de quem a segue. Entre dezenas de mensagens que recebe diariamente, destaca uma fã que fez uma tatuagem com a sua imagem. “É uma figura que representa estares bem com aquilo que és.”

“Uma carta de amor às mulheres”

Lola começou a dedicar-se a esta arte como “uma carta de amor às mulheres”, sobretudo aquelas que fazem parte da sua vida. Influenciada pela mãe e pela irmã, percebeu desde cedo que gostava de tudo o que podia ser descrito como belo — a moda, a maquilhagem e a arte moldaram-no para se expressar visualmente.

“Sempre vi a feminilidade como algo forte, ao contrário do que a sociedade me fazia acreditar”, afirma. “Quando diziam que era feminino, não me ofendia. Nunca levei como um insulto.”

Aos poucos, foi ganhando confiança para mostrar essa diferença na sua vida pessoal. Ainda assim, começou por seguir um percurso profissional mais tradicional e, durante largos anos, trabalhou como optometrista. O mundo drag surgiu apenas como um passatempo que o ajudou a explorar outras facetas.

“Tive contacto com esta arte através do meu namorado [Rebecca Bunny]. Ele já se caracterizava e mostrou-me que era uma arte versátil”, recorda. Em 2016 encarnou Lola pela primeira vez — nome inspirado na personagem dos Looney Tunes —, mas rapidamente percebeu que queria que fosse algo pessoal.

Como sempre gostou do excesso, quis destacar-se pela diferença. No início, inspirava-se num estilo mais feminino e parisiense, que trocaria pela androginia, com muitas máscaras faciais, uma maquilhagem mais severa e figurinos cinemáticos à mistura. Nos seus visuais recorre à justaposição do glamour com um lado mais obscuro ou bizarro.

Rebecca e Lola Bunny. Fotografia: Inês Costa Monteiro

Apesar do apoio da família, “o início é sempre meio escondido”, diz. “Não sabemos onde aquilo nos vai levar. Em Portugal, é algo muito ligado ao mundo da noite e associado à prostituição. Antes delas entenderem o que fazia, tive de desmistificar esta arte.”

E, de facto, as oportunidades surgiram. Lola tinha começado a caracterizar-se há dois meses quando a discoteca Trumps organizou uma festa para recrutar novos talentos. Apesar de ser novata, acabou por ser escolhida para atuar a tempo inteiro. Nesse período, ainda trabalhava na área da saúde.

“Era fácil conciliar os dois. Quando se está motivado, é tudo simples”, sublinha. A agenda estava bem dividida entre as consultas, durante a semana, e os espetáculos ao fim de semana. Tornou-se numa das poucas pessoas em Portugal que vivem apenas desta forma de arte.

“Vivemos numa sociedade leiga a nível do que o drag é e onde pode estar presente. É difícil ser um trabalho a tempo inteiro, porque são só festas privadas ou eventos noturnos. Ainda não temos mercado para representar marcas, por exemplo”, afirma sobre a falta de oportunidades.

Recursos limitados, imaginação ilimitada

Apesar da falta de recursos — sejam financeiros ou de matérias-primas —, Lola cria figurinos dignos de desfiles de alta costura. “Não é fácil chegar a um sítio e ter 50 mil perucas. É brincar com o nosso imaginário e, muitas vezes, com aquilo que já temos em casa.”

Muitas vezes, o processo começa com um tema: kitsch, terror ou mitologia, por exemplo. Outros casos, é uma ideia que surge no momento e aposta no styling para transformar peças banais em criações inusitadas. “Costuro muita coisa, mas o que mais gosto de fazer é agarrar em peças e montar algo diferente.”

Lola tem ainda a sorte de ter um grupo próximo de colegas de profissão com quem trabalha diariamente. “Às vezes uma amiga dá-me um casaco antigo, peço umas peças emprestadas, recorto e acrescento alguns detalhes”, frisa. No final, tem uma imagem conceptual e quase sobre-humana.

Jorge dá vida a Lola Bunny.

É neste espírito de entreajuda que a artista trabalha todos os dias. Antes de subir ao palco, todos os fins de semana, o ritual é o mesmo: preparam-se juntas, criam uma atmosfera de diversão. “Somos irmãs, como costumamos dizer, e temos o apoio e admiração umas das outras. Às vezes, é beber um shot juntas e entrar.”

Apesar da estabilidade, a artista quer ir além deste registo mais comercial. Lola considera o drag como uma das artes mais completas e, por isso, não tem dúvidas que pode chegar a outros palcos. “As plataformas teriam de passar pela televisão. É o caminho que nos pode trazer mais frutos.”

“Não faço planos detalhados a longo prazo”, confessa. Mas ainda tem muitos sonhos para concretizar: gostava de criar um espetáculo como o da Sasha, onde mistura moda e storytelling, e até explorar o mundo da representação. “Se quiser continuar a construir uma carreira de sucesso, poderei ter de sair de Portugal — mas vai custar-me muito.”

Pode descobrir mais pormenores sobre o trabalho de Lola Bunny através da sua página de Instagram.

Carregue na galeria para ver algumas das melhores produções visuais da drag queen portuguesa.

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