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Mariza Seita: a tatuadora de mamilos que muda a vida de sobreviventes de cancro

Após a mastectomia, muitas mulheres perdem a autoestima. Este serviço gratuito tem como objetivo devolver-lhes a esperança.
As clientes vão dos 18 aos 80 anos.

É igualmente uma forma de arte, mas a responsabilidade que acarreta desenhar na pele de alguém está a anos luz de fazer o mesmo no papel ou numa tela. O ónus é ainda maior para a tatuadora Mariza Seita, de 31 anos. Entre agulhas e tintas, a profissional recebe no seu estúdio mulheres que passaram por uma mastectomia. Presta-lhes um valioso serviço que não tem qualquer custo.

“Sempre me dei com pessoas alternativas, mesmo quando era mais miúda, antes de ir para a faculdade. Os meus amigos eram mais velhos e tinham todos tatuagens”, conta à NiT, sobre o início da paixão. Encantou-se pelo romantismo dos anos 50 e 60 e pelo tradicional estilo norte-americano da época, o único que está presente no seu corpo — das tatuagens de marinheiros a andorinhas.

Com 18 anos, sem precisar de autorização dos pais, fez a sua primeira tatuagem com a mãe do melhor amigo. Não se tratava de um estúdio de tatuagens, mas de um espaço de estética. “Foi o único ato de rebeldia de toda a minha vida”, revela sobre a estrela náutica que tem na parte de trás no pescoço.

A segunda tatuagem surgiu um ano depois, no antebraço, feita por uma aprendiz. Quando viu o desenho finalizado reagiu de forma tão efusiva que percebeu que gostaria de poder fazer a mesma coisa. Acabou por não concluir o curso de Escultura, a seis meses de o terminar, para dar os primeiros passos na criação de obras de arte na pele dos outros. Foi aprendendo tudo com amigos tatuadores.

“Prometi aos meus pais: sei que vocês não são a favor disto, mas vou fazê-lo na mesma. E prometo que vou ter sucesso.” Em 2015, ganhou coragem para abrir o seu próprio espaço no Campo Pequeno, a Ink&Wheels. Está situado no número 5A da rua Oliveira Martins, em Lisboa. Quando começou a pensar na loja, percebeu que queria apresentar uma proposta diferente. “Não quero que as pessoas tenham medo de entrar na minha loja”, confessou, descrevendo o estúdio como clean, muito claro e convidativo.

Tatua a pele de mulheres dos 18 aos 80 anos e todas se sentem confortáveis. A faixa etária alargada significa que a artista faz muitas primeiras tatuagens, introduzindo jovens ao seu mundo, mas também contraria o estigma de que pessoas mais velhas não fazem ou não devem ter tatuagens. As histórias que Mariza tem para contar provam o inverso.

Mariza não terminou o curso de escultura para seguir o seu sonho.

Devolver a autoestima

Procurava novos caminhos para desbravar quando descobriu um tatuador muito conceituado na Austrália. O profissional fazia tatuagens de mamilos, um serviço pago e que podia atingir os 300 euros. O primeiro instinto de Mariza foi começar a pesquisar até descobrir como é que este processo se desenvolvia. “Inicialmente, pensei que poderia ser mais um serviço pago que poderia fazer”, revela.

Recebeu a primeira cobaia no seu estúdio apelativo no final de 2015. Era a mãe de uma amiga e mostrava-se mais calma do que a própria artista. “Mariza, relaxa, vai ficar melhor do que está agora, de certeza”, disse, tranquilizando-a. Não estava errada.

Finda a tatuagem, dirigiram-se ao espelho e a reação não podia ser mais genuína. Entre lágrimas e abraços, a profissional percebeu algo muito importante: tinha nas mãos o poder de devolver a autoestima a muitas mulheres. O plano inicial alterou-se: “Descobri que não conseguia cobrar por aquilo”.

Desde então, faz tatuagens pro bono a todas as clientes que sonhavam poder voltar a ter a parte do corpo de volta. No momento em que tatuava uma senhora de 76 anos, sentada na cadeira, a sobrevivente da doença disse algo que Mariza nunca mais esqueceu: “Estou a fazer isto, mas não é para maridos, nem mais ninguém. Isto é para mim”.

“Não acredito. Finalmente vou fazer topless outra vez!”, exclamou outra senhora que acabou por aparecer no estúdio, apesar da sua reticência inicial. Quando se viu ao espelho, também começou a chorar. São histórias como estas que lhe transmitem algo que a fundadora da Ink&Wheels não consegue explicar.

Nos primeiros dois anos, não ultrapassou a meia dúzia de reconstruções. No entanto, o serviço ganhou tanta popularidade que, neste momento, tem de conciliar quantos mamilos consegue tatuar por mês. Mensalmente, recebem duas ou três pessoas que passaram pela mastectomia: “A lista de espera é longa, infelizmente, — porque as mulheres continuam a enfrentar estes problemas”.

Dos medos aos cuidados

A tatuagem faz-se em cerca de 20 minutos, metade do tempo para cada mamilo. Não é um processo demorado e, apesar dos mitos que possam existir, é praticamente indolor. Mariza revela que “80 por cento das mulheres não têm sensibilidade na zona”, porque a pele não tem terminações nervosas, devido à cirurgia de remoção completa da mama.

“Só gosto de fazer a reconstrução do mamilo um ano após a última cirurgia. Preciso que a pele esteja rejuvenescida, preparada para ser ferida e capaz de cicatrizar”, adianta.

Quanto ao processo de cicatrização é semelhante ao de qualquer outra tatuagem. As pessoas saem de lá com a película protetora e têm de aplicar o creme. A Ink&Wheels tem parceiros que oferecem várias amostras — um cicatrizante, para as primeiras 72 horas, e um hidratante, para usar após os primeiros três dias. Durante 10 dias, o que não se pode fazer é ir à praia, à piscina ou tomar banhos turcos.

“Neste momento, o que me deixa orgulhosa é quebrar a barreira entre o tatuador e a medicina”, conclui, sobre facto de serem os próprios médicos e cirurgiões dos hospitais a indicarem às utentes esta solução. A tatuadora tem participado, inclusive, em várias conferências em hospitais, prova do reconhecimento da arte: “O que faço é ajudar a fechar um ciclo e a autoestima delas recupera em vinte minutos”.

Leia também a história de Leah Reddell, a norte-americana que se dedica há 15 anos a uma arte que decora as cabeças de mulheres que lutam contra o cancro. Faz coroas de henna, pinturas temporáriasque celebram a queda de cabelo.

Pode visitar o Ink&Wheels no número 5A da rua Oliveira Martins, em Lisboa. Também pode descobrir mais sobre este arte no Instagram de Mariza Seita ou na conta da loja, que está aberta de terça a sexta-feira, entre 13 e as 21 horas, e ao sábado, das 12 às 18 horas. Carregue na galeria para ver algumas das tatuagens feitas pela artista.

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