Beleza

O artista português que tatua “desenhos tortos” com uma máquina feita com blocos LEGO

Francisco Pinto criou o aparelho sem ter experiência na área. O seu estilo é intuitivo e semelhante aos rabiscos de um miúdo.
O tatuador é residente no estúdio Fiasco.

Atualmente, quase tudo o que podemos imaginar tem uma versão criada com peças de LEGO. Os coloridos blocos de plástico que marcaram a infância de várias gerações podem ser usados para construir todo o tipo de objetos — e o seu propósito não precisa ser apenas decorativo. Francisco Pinto criou uma máquina para tatuar com as nostálgicas peças.

“Sou um artista visual e costumo trabalhar com performances em vídeo. Por isso, o desejo de criar a máquina surgiu antes de começar a tatuar”, conta à NiT, o jovem de 31 anos. Quando descobriu que existiam equipamentos  do género nas prisões, feitos com motores de pequenos aparelhos, canetas e fios de guitarra, decidiu usar os blocos LEGO para perceber se era possível fazer com que a máquina trabalhasse.

Começou a criar o aparelho em em 2019 e tirou todas as dúvidas. O equipamento não só funcionava, como viria a tornar-se na imagem de marca do seu trabalho. Atualmente, muitos clientes visitam o estúdio onde trabalha — o Fiasco — para verem ao vivo o objeto que construiu.

Atualmente tem “várias máquinas de Lego”, explica à NiT. “Costumo tatuar apenas com uma delas, mas até conseguir desenvolver uma máquina funcionasse tive de fazer vários protótipos e muitas modificações. E continuo a fazer alterações para melhorar o desempenho de cada uma.”

A verdade é que, até então, o artista não tinha qualquer experiência no mundo das tatuagens. Licenciou-se em Pintura, na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, seguindo-se um Mestrado em Arte Multimédia. Porém, como conhecia várias pessoas no meio, como a tatuadora Espirro, sentiu-se motivado a descobrir mais.

“Fui pesquisando e, ao longo do vídeo, apresento tudo o que fui descobrindo sobre as máquinas para tatuar”, conta. O resultado final mostra ainda o momento em que utiliza a máquina — “que era para ser uma escultura” — pela primeira vez. Estreou-a numa tatuagem que fez na sua própria perna, uma citação do “Peter Pan”: “But Mother, I don’t want to grow up”.

“Não pensei que conseguisse fazer linhas direitas ou que fosse funcionar. Os motores feitos com blocos LEGO não têm muita força. As peças têm limites e várias medidas, por isso, a parte mais difícil foi arranjar um motor que fosse rápido o suficiente, mas que não perdesse a forma.” Para conseguir um equipamento rápido e capaz de perfurar a pele, colocou várias rodas dentadas a em torno da agulha.

Ao lançar o vídeo, percebeu que o seu trabalho gerava algum interesse e começou a tatuar “desenhos tortos”. As tatuagens de Francisco enquadram-se no ignorance style. Trata-se de um estilo relativamente novo, baseado em desenhos intuitivos e que não lidam com o realismo, muitas vezes comparados aos rabiscos feitos por um miúdo.  “A diversidade que existe foi o que me fez ficar ligado a este trabalho.”

Tem muitos clientes “que pedem uma peça de lego”, mas o portfólio do tatuador não se resume aos blocos coloridos. Porém, os desenhos acabam sempre por remeter para a nostalgia da infância, sobretudo para pessoas na mesma faixa etária do criador — ou seja, nascidos no principio dos anos 90 . Alguns são coloridos, outros ficam a preto e branco.

No momento de decidir, os clientes pode escolher um dos flashes — desenhos já feitos e, por isso, mais seguros — ou fazer um pedido personalizado. Neste caso, a figura a retratar parte da uma ideia da pessoa, que descreve ao máximo a proposta, até chegarem a um acordo sobre o que Francisco irá tatuar.

Quanto ao processo, não há grande diferença face a uma máquina mais tradicional. “É um pouco mais lenta, mas o cliente não a consegue distinguir das restantes. A maior mudança é para mim, é mais difícil de tatuar com esta máquina porque é preciso ir ajustando como funciona.”

Porém, nenhum destes desafios foi um obstáculo para Francisco, cujo caráter inventivo se manifestou cedo. “Sempre construí coisas, desenhava e pintava”, revela. “Os blocos LEGO foram uma resposta dos meus pais à minha vontade de desmontar todos os brinquedos para construir novos. Têm essa função.”

Natural de Alcácer do Sal, no distrito de Setúbal, aproveitou a loja de roupa que a mãe fechou para ter o seu próprio atelier desde os 13 anos, onde pintava todos os dias e fazia esculturas. O pequeno espaço em sua casa tornou-se numa espécie de atelier onde podia inventar.

As artes sempre estiveram lá. Ainda assim, até ao secundário não sabia se queria ser artista, “porque não via essa opção como uma carreira viável”. Ainda pensou em seguir arquitetura, mas desistiu da ideia e passou a ter uma abordagem multidisciplinar no que diz respeito à arte.

Esta visão muito própria enquadrou-se como uma peça de puzzle na identidade do Fiasco, um estúdio que nasceu de um coletivo de artistas com estilos distintos. Foi neste mundo arco-íris — que contrasta com os espaços de tatuagens tipicamente mais escuros — que recebeu ajuda quando estava a construir a máquina. Nunca mais de lá saiu.

“Gostei do estúdio porque todos nós temos um gosto fora do tradicional. Existem alguns locais fisicamente parecidos, mas as cores e a organização são muito diferentes”, conclui. “Quem aqui entra vê que é um ambiente com artistas únicos, que partilham um  objetivo: a procura de evasão. Estar no Fiasco sempre fez sentido.”

Carregue na galeria para conhecer alguns dos trabalhos de Francisco Pinto, também conhecido por Lego Tattoo. Pode visitá-lo no estúdio Fiasco, na rua Luís Monteiro 8A, em Lisboa, mediante marcação.

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