Beleza

Pedro Ribeiro, o talentoso hairstylist que transforma o visual de doentes oncológicas

No salão Além, o cabeleireiro encontra as melhores soluções para mulheres com problemas capilares e devolve-lhes a esperança.
Pedro Ribeiro a trabalhar na peruca de uma cliente.

No número 132 da Rua da Alegria, em Lisboa, nasceu um espaço que mantém vivo o espírito de António Variações. O cabeleireiro Além, tal como o camaleónico artista que inspirou a identidade visual, acredita no poder da transformação e usa-o para ajudar pessoas com cancro ou com problemas capilares. Pedro Ribeiro, fundador, acompanha inúmeras mulheres neste processo com toda a sensibilidade necessária — e algumas perucas à mistura, claro.

O cabeleireiro de 33 anos começou a trabalhar na área do hairstyling com apenas 14 anos. Mais tarde, quando atingiu a maioridade, apostou no mundo da arte e do espetáculo. Dedicou-se à caracterização para televisão, a preparar cabelo e perucas para apresentadoras e atrizes, até que lhe perguntaram se podia usar o seu talento para ajudar uma pessoa que sofria de uma doença oncológica.

Luísa foi quem “deu o corpo às balas pelo que queria” e foi a primeira pessoa com a doença a colocar-se nas mãos do hairstylist, explica o próprio, que desde esta estreia até hoje,  continua a fazer este tipo de trabalho recorrendo ao uso de extensões. “Permitem um resgate da feminilidade, a sensação de ter o cabelo molhado. A peruca só dá para tirar”, explica à NiT. Luísa assumiu as extensões e nunca as tirou, mesmo perante todas as drásticas mudanças que a dura quimioterapia provocava. Acabaria por morrer três anos depois, mas deixou  memórias muito vívidas em Pedro e marcou a sua carreira.

“Quando a Luísa morreu, fui contactado por uma amiga dela. Fui à igreja onde estava e toda a gente da família dela me conhecia e agradeceu”, adianta. “Todas estas mulheres sabem quem é a Luísa, porque falo sempre nela.”

A arte da transformação

Outra das mulheres que se entregou ao talento de Pedro foi Sofia Carmo, de 45 anos, que conheceu o profissional através da melhor amiga, Ana. “Tenho uma relação muito significativa com o meu cabelo. Uma relação de amor. Sempre tive um cabelão, mas agora está mais curtinho porque estou na fase antes de o rapar”, conta, enquanto encara a peruca que está a ser preparada para si. “O Pedro está a usar a imagem do cabelo que tinha antes de o cortar [para fazer a peruca]”.

Sheila. Foi o nome atribuído pela cliente à peruca de cabelo natural feita à sua medida. É o próprio hairstylist que incentiva as mulheres a encontrarem um nome para a prótese que vão passar a usar todos os dias. Inicialmente, a peruca era loira, mas agora está morena e cada detalhe foi idealizado pelos dois. “É um nome foleiro, como a doença, que também é foleira. Foi o pior nome que me lembrei de arranjar. Mas a peruca é linda”, acrescenta Sofia.

Trata-se, sobretudo, de um trabalho de mudança de imagem. Se ficar sem cabelo é uma fragilidade, também pode ser uma oportunidade para a reinventação. Numa cultura onde o visual desempenha um papel importante na mensagem que queremos transmitir, decidir a imagem que queremos apresentar pode ser uma forma de defesa.

“Não há muita gente que faça este tipo de desenvolvimento de imagem em Portugal. Durante muitos anos, o meu trabalho não foi entendido”, sublinha Pedro. “Com a evolução do mercado, começou a haver espaço para o profissional que atua como um conselheiro e que coloca as ferramentas utilizadas em televisão à disposição do público.”

Ao contrário do atendimento num salão de cabeleireiro tradicional, o fundador do espaço não pode estar à espera que alguém se sente na cadeira e diga o que quer. É o incorporar do visagismo neste negócio que torna o técnico num criativo. “Nós é que temos de propor uma solução aos clientes. Quero que o espaço eleve o profissional ao patamar de artista.”

Sofia dá um exemplo deste lado artístico e holístico de Pedro: o microblading que fez para preencher as sobrancelhas, teve origem num conselho dele, apesar de o próprio não aplicar a técnica. “Às vezes vemos pessoas com um ar muito doente e isso deve-se apenas à falta de densidade das sobrancelhas”, nota.

Cuidar do visual é uma arma importantíssima na luta contra a doença, assegura. “Mesmo que a pessoa, antes de estar doente, possa não ligar tanto à sua imagem, o facto de estar doente vai fazer com que fique mais fragilizada. E melhorar a imagem, quando estamos em baixo, com enjoos e dores, afaga-nos o coração.”

Mais do que uma luta emocional

Atualmente, Pedro vive de perto o drama do cancro que afeta a irmã. A vontade de se dedicar a este tipo de trabalho desenvolveu-se após ter perdido a avó, o pai e as melhores amigas devido à patologia, que ajuda a explicar o seu envolvimento emotivo em cada processo. Acaba por ser muito mais do que uma profissão, é a prestação de um serviço.

O atendimento que faz no Além passa, sobretudo, por uma mensagem de esperança. As consultas começam sempre com a mesma pergunta: “Quanto pode gastar?”. A procura da peruca é feita com base na resposta e depois é adaptada à pessoa em causa. E, claro, procurando que seja também o mais barata possível.

“Uma peruca tirada de uma caixa permite manter determinadas características, como a hairline da pessoa e a forma como se penteia”, explica o cabeleireiro que quer ajudar o maior número de pacientes possível: “A minha irmã tem cancro e o Instituto Português de Oncologia (IPO) tem três meses de fila de espera. Está no privado e adicionar os 1.500 euros da peruca aos gastos já elevados é uma violência.”

Pedro admite já ter tentado entrar em contacto com o IPO e outras fundações para tentar a ajudar a resolver este problema, mas as portas permanecem fechadas. Os profissionais compram uma peruca por 200 euros, mas são vendidas por valores exorbitantes ao público em geral. As outras pessoas que descobrem que existe esta enorme diferença de preços são as que procuram este serviço, as mulheres que encorajam o cabeleireiro: “A Sofia já deu o meu contacto no hospital a outras mulheres. Passam a palavra, trocam os números de telefone umas com as outras”.

Também ela foi confrontada com as mesmas questões e realça a importância do seguro de saúde. “Quando descobri que tinha cancro, achei que ia só fazer radioterapia. E, quando pensei na quimioterapia, a primeira coisa que me passou pela cabeça foi: vou perder o cabelo”, nota. De seguida, ganhou consciência dos custos: “Felizmente, os valores que o Pedro me cobrou são muito diferentes de todos os já tinha visto. Nem toda a gente pode pagar”.

Sofia Carmo, uma das clientes que beneficiam do serviço.

A tudo isto, junta-se um processo onde as emoções se mantêm à flor da pele do início ao fim. O contexto onde é realizado, à porta fechada, foi pensado para não dissociar o caráter emotivo do procedimento. O ritmo a que se avança é definido pela pessoa, assim como a decisão do momento de cortar o cabelo ou se pretende ou não falar sobre a situação.

“Tenho de estar bem emocionalmente para a pessoa que tenho á minha frente, o que também é um exercício. Isto não é sobre mim, mas sobre ela”, diz Pedro. “Continua a falar com a minha cliente mais antiga e, até hoje, não há uma vez em que não choremos juntos. Acompanhei-a desde o início e acompanhou o meu crescimento”.

Apesar do foco serem os pacientes com cancro, esta não é a única condição que afeta a saúde capilar de homens e mulheres. Se cada vez se abordam mais facilmente as patologias oncológicas, não se fala tanto sobre a alopecia, por exemplo.

“Na semana passada, tive cá duas miúdas de 22 anos com esta doença, que vão ficar carecas e nunca mais vão ter cabelo para o resto da vida. E só conseguem encontrar informação internacional. As pessoas encontram-me através de pesquisas rebuscadas, estão perdidas e só têm apoio no âmbito da saúde. Não têm apoio em relação à imagem.”

Esta lacuna vai sendo preenchida, aos poucos, por projetos como o Além, onde se aborda a condição de a pessoa sofre, o que vai perder e o que pode fazer para colmatar essa perda. E, ao retirar o peso emocional da necessidade de rapar o cabelo, permite mostrar formas de lidar com a falta de cabelo.

“Não sou pessoa com uma fraca autoestima, mas [o Pedro] ajudou-me a perceber que existem soluções acessíveis para que possamos continuar a sentir-nos bem”, termina Sofia. “O ânimo e a experiência dele ajudam-me a perceber que isto não tem de ser o fim do mundo para a nossa imagem”.

Carregue na galeria para conhecer um pouco mais sobre o cabeleireiro Além, sobre o qual pode ler mais aqui.

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