Beleza

Proprietária de salão: “Não param de chegar contas altas e não consigo pagar salários”

Como muitos portugueses, Eva Atalayão viu-se forçada a encerrar o seu espaço durante a pandemia e as dificuldades financeiras acumularam-se.
Está neste ramos há 20 anos.

Quem entrava pelo número 7 da Rua de São Bento, em Lisboa, costumava encontrar por lá a barulheira caótica muito característica dos salões de beleza. O som dos secadores impunha-se por cima de telefones a tocar, rampas de lavagem, os apitos das máquinas de laser e vozes alegres, agitadas, a trocar fofocas e gargalhadas.

Agora, o Salão de Beleza Eva foi forçosamente encerrado pela segunda vez em menos de um ano. As portas estão fechadas, os equipamentos desligados e as funcionárias em casa, à espera que as restrições impostas pelo governo para travar a pandemia de Covid-19 sejam levantadas. De todos aqueles que foram afetados, Eva Atalayão, de 56 anos, é a que está a enfrentar este cenário com mais dificuldades.

As contas altas, conta à NiT, não param de chegar à proprietária deste espaço. Não consegue pagar os salários e tem sobrevivido sem qualquer apoio do estado, a gerir com dificuldade as economias que juntou com o trabalho de uma vida. “Ainda não despedi ninguém, mas por este andar vou ter de o fazer”, relata.

Eva tirou o curso de Estética em 2001 no Centro Nacional de Estética, na Avenida Dom Carlos I. Pouco depois, conseguiu abrir o seu salão, em 2002, mesmo ao pé da escola onde se formou, mas continuou a especializar-se e a tirar outros cursos, como micropigmentação e dermopigmentação. O negócio foi crescendo com o passar do tempo e o número de serviços no menu aumentou.

Em circunstâncias normais, é possível cortar e pintar o cabelo, colocar extensões, arranjar as unhas das mãos e dos pés, fazer depilação a laser, tratamentos como mesoterapia homeopática e até aplicar botox ou ácido hialurónico, serviços feitos por uma equipa que foi crescendo ao longo dos anos, atraindo mais clientes e aumentando o volume de negócio — mas também dos encargos ao final do mês.

O salão abria de terça-feira a sábado, entre as 8h30 e as 19 horas. Quando conseguia, Eva tentava ainda encaixar uma ou outra clientes com pouca disponibilidade para as atender fora do horário de expediente. É respeitada por todas, conhecida como uma amiga, uma boa ouvinte, um par de mãos capazes nas quais podem confiar. 

“Tínhamos um movimento bom, mas agora estamos a zeros”, refere. “O problema é que isto tem muitas famílias à mistura, muitas pessoas que dependem de nós para tudo.” De forma direta ou indireta, o seu negócio era o sustento de muita gente.

Além das dificuldades financeiras, a empresária também se sente injustiçada pelas características específicas das novas regras, que afetam os profissionais do setor de formas quase antagónicas. “É uma injustiça para nós, visto que os artistas não pararam de ter acesso a estes serviços e o pessoal da televisão dá-se ao luxo de postar nas redes sociais”, comenta.

E acrescenta: “Com todas as medidas de segurança e por marcação, não há forma de contágio. Os dentistas não fecharam e estão mais em risco do que nós”. Enquanto lhe foi possível trabalhar, já durante a pandemia, enfrentava os dias de trabalho com viseira, máscara, luvas e bata. As desinfeções às mãos eram feitas constantemente e o desconforto era enorme, mas os cuidados também.

Conhece vários casos de falência nos últimos meses, de pessoas que se viram obrigadas a fechar permanentemente os seus espaços por não terem condições de os sustentar e até ouviu falar de quem tenha mantido a atividade ao domicilio, quebrando as regras só para poder sobreviver. “Infelizmente não têm outra solução”, acrescenta.

Ainda assim, Eva Atalayão mantém-se positiva em relação a um regresso à atividade nas próximas semanas. “Tenho muita esperança porque os casos estão a baixar consideravelmente e eu penso que no mês que vem já devemos abrir. Agora, no final do mês, devemos saber se podemos abrir no final de março.”

salão
Quando estava a funcionar.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Rua de São Bento, N. 7
    1200-815 Lisboa
  • HORÁRIO
  • De terça-feira a sábado, das: 08:30
  • às : 19:00

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