Beleza

“Tamanho: TU”: o movimento que luta contra o culto do corpo perfeito

Na primeira iniciativa, fotografaram 45 mulheres diferentes. O grupo reuniu pessoas gordas, com deficiências e cicatrizes.
O objetivo é que as mulheres se sinta bem de biquíni.

Umas das expressões mais utilizadas na estação quente é “corpo de verão”. Esta referência volta a estar no centro da discussão todos os anos, com múltiplas mensagens que reforçam um ideal impossível de alcançar para muita gente. A expressão usa o singular, um só corpo, que recusa a existência de uma pluralidade corpos a coexistirem num mesmo espaço público, seja em praias, piscinas ou até nas ruas, sem vergonha. A luta contra o uso corrente desta formulação deu origem ao movimento Tamanho: TU.

“Nesta altura do ano somos bombardeadas com [anúncios a] cremes redutores, massagens, propostas para reduzir centímetros ou dietas milagrosas”, conta à NiT Liliana Monteiro, de 30 anos. A isto, acrescentam-se os planos de treino exagerados e formas nem sempre saudáveis de olhar para o nosso próprio corpo.

Formada em Ciências do Desporto, com especialização em Educação Física, a sua vida profissional desenvolveu-se em torno do fitness e na ideia de corpo ideal. Por isso, partilhava da ideia que afirma que “um corpo saudável é aquele que respeita um certo tipo de normas”.

“Isso mudou recentemente, quando fui mãe, e comecei a ler sobre o assunto, especificamente sobre a recuperação do corpo da mulher no pós-parto e a exigência em regressar ao corpo que tínhamos antes de engravidar”. Após um período de reflexão sobe o tema apresentou o movimento Tamanho: TU, que invadiu as redes sociais no mês de junho.

O ponto de partida da iniciativa, porém, foi uma mensagem intrusiva de uma treinadora. A proposta que Liliana e uma amiga receberam em maio, sobre formas de perder peso não saudáveis, levou-as a falar com outras mulheres. Ao perceberem que todas estavam a ser bombardeadas com este incentivo, decidiram juntar-se e fazer algo diferente.

Corpos reais, saudáveis e felizes

“Não precisamos de perder cinco quilos em 15 dias para ir à praia e para nos sentirmos bem de biquíni”, afirma Liliana. E foi com base nesta afirmação que nasceu uma comunidade com mais de 70 mulheres, reunidas num grupo do Whatsapp, das quais 45 voluntárias participaram na primeira iniciativa do movimento. A sessão fotográfica que marcou o arranque do projeto contou com o trabalho de Daniela Torres e Inês Carrola.

Na praia de Marbelo, em Vila Nova de Gaia, as quatro dezenas de mulheres envolvidas aceitaram expor-se sem complexos. A celulite, estrias e cicatrizes são visíveis nos corpos de mulheres muito distintas.

O objetivo era mostrar a diversidade através da celebração de diversas silhuetas. Mulheres magras e gordas, musculadas ou com deficiências motoras, todas se uniram contra a padronização da beleza. A mulher mais velha que participou, por exemplo, tem 62 anos.

Ainda assim, a movimento tem um longo caminho a percorrer: “Queria mais mulheres negras, transsexuais e com outra orientação sexual. Não consegui encontrá-las num espaço de tempo tão curto, porque só tivemos 15 dias até à data da sessão”.

Desde então, tem recebido mensagens de inúmeras mulheres que se identificam com o movimento e “conseguem rever-se em alguém com peso semelhante ao delas, com estrias e a usarem biquíni orgulhosamente”. A voluntária mais velha do grupo disse que estava pronta para voltar a usar um biquíni, trinta anos depois da última vez que o fez.

“Há muito tempo que não se sentiam livres, sem se sentirem julgadas, para se exporem desta forma”, conta Liliana. Começaram a utilizar peças mais justas ou saias mais subidas, que antes não utilizavam. Um impacto que leva a fundadora do movimento Tamanho: TU a querer alargar este coletivo, para que mais mulheres se sintam dessa forma.

Um estudo recente da Dove revelou que, 64 por cento das mulheres portuguesas já sofreram ou sofrem de body shaming, ou da chamada gordofobia, e 66 por cento reconhecem que o facto de outras pessoas as fazerem sentir vergonha do corpo tem impacto na sua auto estima.

O principal propósito passa por incentivar à reflexão, sobretudo sobre a questão do peso. Afinal, a maior parte dos comentários negativos recebidos foram sobre as mulheres gordas e as acusações de romantização da obesidade: “Defendemos a prática de exercício físico, a alimentação saudável e o cuidar da mente, mas para o bem-estar e não para atingir o corpo ideal”.

O nosso próximo passo, no final de agosto, será organizar uma iniciativa para envolver a comunidade”, adianta. “Vai ser uma manhã de empoderamento feminino com aulas de ioga, pilates e coaching. No final, vamos fazer outra sessão fotográfica, como a primeira que fizemos”.

Carregue na galeria para descobrir o resultado da sessão fotográfica do movimento Tamanho: TU, cuja presença digital se concentra sobretudo no Instagram.

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