A visita às novas instalações da Bordallo Pinheiro foi marcada para as 10 horas de 23 de abril. Quando a NiT chega à esquina da rua dos Cerâmicos Caldenses, já é possível avistar a rã que serve de logótipo da marca e enfeita a fachada da fábrica das Caldas da Rainha.
Por incrível coincidência, ou talvez não, no terreno agrícola vizinho há uma enorme plantação de couves. Uma das referências mais icónicas do “imaginário bordalliano” (expressão usada na fábrica) permanece viva a alguns metros de distância do sítio que produz este legume em canecas, pratos e travessas em cerâmica.
Para entrar na zona onde os artigos da marca são feitos, passamos por dentro do novo showroom da Bordallo Pinheiro. No lado esquerdo da área de exposição, uma banca expõe objetos decorativos como caranguejos, lagostas, mexilhões, gorazes, chicharros, sardinhas e percebes. Do lado direito há tomates, pimentos, couves, beringelas, melancias e ananases.
Uma pequena porta ao fundo da sala dá acesso às novas instalações da fábrica, que foram inauguradas a 10 de abril. Uma unidade de 13 mil metros quadrados (antes eram nove mil) limpa, arejada e cheia de luz natural, vinda diretamente do telhado.
“Nesta ampliação, tivemos a preocupação de consultar os nossos funcionários. Nunca irei esquecer o dia em que um deles disse: ‘O nosso telhado é em fibra ou cimento? Por favor, mudem-nos o telhado.’ Fizemos questão de mudá-lo completamente, não só para que se sentissem bem, mas para que se sentissem parte integrante do projeto”, conta à NiT Tiago Mendes, diretor industrial da fábrica Bordallo Pinheiro.
Com um investimento de nove milhões de euros, o projeto de expansão da marca prevê um aumento da capacidade de produção em 60 por cento. Além de criar mais 100 postos de trabalho e elevar para 270 o número de colaboradores, a empresa modernizou as máquinas e equipamentos para dar mais agilidade ao processo e manter a qualidade das peças.
Numa parceria com outras empresas nacionais, desenvolveu fornos maiores e 30 por cento mais eficientes, que mantêm a temperatura para garantir objetos idênticos, sem queimaduras ou cores transformadas.
“A fábrica foi dotada de meios tecnológicos para complementar o trabalho dos nossos artesãos. Ouvimos pessoas com 40 anos de casa para nos ajudarem a criar as novas instalações, de forma a facilitar as tarefas que desempenham no dia a dia e valorizar o trabalho manual dos funcionários”, explica Tiago Mendes.
A nova dimensão da fábrica aumentou de imediato a produção. Em abril, a Bordallo Pinheiro bateu o próprio recorde e chegou a produzir 7700 peças num único dia. A meta é chegar ao fim de 2019 com uma produção de até 10 mil cerâmicas. Antes das obras de ampliação e requalificação, a empresa já tinha atingido a capacidade máxima diária de 3750 peças.
“Durante toda a transformação da fábrica antiga, não paramos um único dia. Tivemos cortes momentâneos de luz na hora do almoço e na madrugada, e cortes de gás sem prejudicar a cozedura nos fornos. As primeiras demolições foram em agosto de 2017 e em abril deste ano chegamos ao ponto em que estamos hoje“, explica Tiago Mendes.
Honrar o espírito do fundador é a prioridade da empresa que mantém a paixão pela arte e pelo legado de Raphael Bordallo Pinheiro — passados 135 anos da inauguração da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha.
O universo naturalista de um dos maiores artistas portugueses do século XIX continua a ser a alma e o coração da empresa. Ao todo, são 1400 peças de referência no catálogo que podem ser produzidas a qualquer hora, mas que exigem um trabalho minucioso dos artesãos desde a modelagem das cerâmicas, passando pela ornamentação e pintura das peças até ao controlo de qualidade.
É difícil traduzir em dias a atenção dedicada a cada artigo mas, por exemplo, um prato pode ser confecionado em duas semanas, enquanto uma peça gigante pode demorar até seis meses a ficar pronta.
Todos os anos, designers da marca e artistas de todo o mundo participam na criação das novas linhas e coleções da Bordallo Pinheiro, mas os bestsellers nunca saem de moda.
“As linhas tomate, couve e com formato de alcachofra são algumas das coleções centenárias que têm uma grande aceitação entre os nossos compradores. Em 2019, a coleção alcachofra conquistou o German Design Awards, o principal concurso de design da Europa”, conta à NiT Elsa Rebelo, diretora criativa da fábrica.
Entre os novos projetos da empresa está a “WorldWide Bordallianos” — uma coleção que dá continuidade às anteriores “Bordallo Pinheiro 125 Anos — Bordallianos de Portugal” e “20 Bordallianos do Brasil”. Serão dois lançamentos anuais, limitados a 125 exemplares numerados, desenhados por criadores nacionais e internacionais.
Para outubro de 2020 há ainda mais novidades. Os Pavilhões do Parque, nas Caldas da Rainha, vão ser transformados no Montebelo Bordallo Pinheiro Caldas da Rainha Hotel — da rede Montebelo Hotels, que faz parte do Grupo Visabeira.
Com um investimento de 14 milhões de euros, o edifício será inspirado no legado de Raphael Bordallo Pinheiro e na história da fábrica de faianças. Além de conhecer em detalhe a obra do mestre da cerâmica, quem ficar lá hospedado poderá participar em programas de formação de desenho ou pintura.
A ideia é que o hotel também funcione como alojamento para os profissionais que integram os projetos artísticos da Bordallo Pinheiro. A previsão é que as obras comecem ainda este verão.
Carregue na galeria para conhecer as novas instalações da Fábrica Bordallo Pinheiro, nas Caldas da Rainha.

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