Decoração

A ceramista que mistura grés e ouro para criar obras dignas de galerias de arte

A inconformista Eva Lé destaca-se pelo estilo fantasioso. Em colaboração com a mãe, cria joias com pendentes personalizáveis.
Tem 25 anos.

Quando começou a ter aulas de cerâmica, Eva Lé colocava sempre de lado o enunciado dos exercícios. Se lhe pediam peças utilitárias, a artista de 25 anos seguia o caminho contrário e fazia algo meramente estético. Os professores não eram fãs das suas criações, mas o que Eva queria realmente era explorar todas as possibilidades.

“Lembro-me de fazer bules, nos quais tem de haver um ângulo muito preciso para a água escorrer numa linha perfeita e não ir para trás”, recorda. “Não fazia grandes cálculos. Sabia que não ia correr bem, mas eu não queria que fossem funcionais. Só queria saber do lado estético.”

Apesar da rebeldia, Eva já conseguiu levar o seu trabalho com traços orientais e elementos naturalistas a várias casas, lojas ou galerias. A jovem admite que nunca se imaginou a trabalhar com esta arte, mas passa os dias entre a roda de oleiro, a criar peças e o atelier onde agora é ela quem dá aulas a iniciantes.

Quando entrou na faculdade, optou por tirar design de comunicação, por influência dos pais, que sempre estiveram ligados às artes. Porém, rapidamente percebeu que não era por essa área que passava o seu caminho e, um pouco por acaso, decidiu fazer um curso extracurricular de cerâmica, em 2018.

“Diziam sempre que ia contra tudo e contra todos, mas nunca me preocupei”, acrescenta. Na verdade, tentou encontrar o seu lugar quando se mudou para Paris, onde estudou artes decorativas até 2020. Quando surgiu a oportunidade de estudar num atelier de cerâmica, tornou-se assistente da dona.

Eva no seu habitat natural.

“Quando fazia as peças, sentia que as pessoas à minha volta gostavam. Percebi que podia ter algum potencial lá fora”, diz. “Foi quando percebi que, apesar das reações na faculdade, tinham algum valor.”

Eva ponderou ficar em Paris, mas a pandemia obrigou-a a regressar para Lisboa. O regresso que estava previsto acabou por acontecer, mas não deixou de construir-se em Portugal, para onde trouxe os seus trabalhos escultóricos que nascem dos universos fantasiosos em que se inspira.

“As referências variam muito de sonhos que tenho e que preciso de passar para o grés. Encontro formas e cores que gosto, algo mais mágico”, explica. “Inspiro-me em muitos filmes, como so de Miyazaki, ou na natureza. Quando crio uma peça, crio porque preciso de o fazer.”

Uma casa com o Trono da Princesa

Durante a pandemia, refugiou-se num escritório do pai que tinha ficado vazio — foi o seu primeiro atelier. Ali começou a dar alguns workshops nos quais ensinava o que aprendeu na faculdade para ganhar dinheiro e, eventualmente, alugar um espaço próprio para elevar o seu trabalho.

Eva ainda passou por um cowork de artistas, o Safra, antes de abrir o um espaço, em Moscavide, em outubro de 2022. É um atelier com bancadas de trabalho, néon nas paredes, a roda do oleiro onde mete as mãos à obra e até uma sala reservada para os vidrados. Mas é o trabalho ali feito que mais se destaca.

“[O estúdio] foi pensado como se fosse uma casa, um sítio onde me sentisse bem e confortável. Como é muito direcionado para os meus clientes, quis passar calma e tranquilidade — porque a cerâmica é isso. Há muita madeira e tons neutros,” diz.

As peças expostas que mais se destacam são as que combinam grés, vidrados e ouro, uma junção pouco usual. Foi assim que criou uma cadeira chamada “Trono da Princesa”, que mistura um estilo “meio grotesco” com “classe”. “Queria que desse nas vistas, mas que não incomodasse.”

O Trono da Princesa custa 800€.

A escultura foi feita na fábrica da Viúva Lamego, após Eva ter decidido que queria fazer a primeira peça em maior escala. “O dono convidou-me, porque o conheci num jantar onde fiz a apresentação de algumas peças. Só tinha à disposição grés, ouro e um forno gigante e decidi que ia trabalhar com aquilo.”

O uso de materiais contrastantes também surge nas joias, que misturam correntes de ouro com pequenos pendentes feitos à mão com cerâmica. A base é sempre a mesma, mas os clientes podem escolher a quantidade de pendentes que pretende ou sugerir as suas próprias ideias.

“Dou a cara pelas peças, mas é um trabalho colaborativo com a minha mãe, mais ligada ao design de moda”, refere. Quando abriu o atelier decidiu que lhe ia ensinar cerâmica e assim foi. Passado algum tempo, surgiu a ideia de juntarem forças para criar propostas exclusivas e bastante distintas.

Embora se sinta realizada, Eva sente que ainda é mais vista como professora do que como artista. Já tem o seu trabalho exposto em inúmeras lojas, mas quer entrar em mais galerias de arte. O principal objetivo é consolidar o seu nome no mundo desta técnica ancestral que está a voltar à ribalta — pelo menos, é essa a sua esperança.

As peças de Eva Lé podem ser encomendadas online, com preços que começam nos 8€ e podem chegar aos 800€.

Carregue na galeria para descobrir algumas das criações da artista.

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