Decoração

Anabela Nunes: a artesã que transforma lixo em peças de decoração incríveis

A artista produz candeeiros através de pedaços de madeira e faz quadros a partir de material deixado à beira-mar.
Aqui, encontra-se a restaurar uma cadeira.

Ainda praticamente não se falava de sustentabilidade e já Anabela Nunes olhava de forma diferente para aquilo a que todos chamamos de “lixo”. Por isso, em paralelo com a sua atividade profissional, dedica-se a transformar tudo o que vai encontrando no dia a dia em autênticas peças de arte.

Anabela tem 52 anos, mas durante toda a sua vida sempre olhou para o lixo de forma diferente. Foi exatamente assim que começou por explicar à NiT a razão que a fez avançar com este projeto. No fundo, não tem um nome, mas sim um lema: “do lixo ao luxo”. “Costumo dizer isto por brincadeira, mas na verdade olho para o lixo como luxo porque sinto que consigo dar sempre uma nova oportunidade àquilo que encontro”, afirma.

E essa sensibilidade não é algo que tenha surgido há meia dúzia de dias. Apesar da artesã não saber definir ao certo quando se apercebeu desta tendência sustentável, reconhece que é algo que a acompanha desde miúda. Por exemplo, quando era mais nova tinha por hábito pintar pedras polidas que encontrava com canetas de feltro. Anabela também se recorda de estar na casa do padrasto e agarrar em caixas e meias velhas para fazer teatro de fantoches para os miúdos da rua.

“Sempre gostei e senti uma ligação com o combate ao desperdício das coisas. Recordo-me de um ano em que fiz uns poucos de arranjos de Natal. Na altura era muito fora do vulgar, estamos a falar de uma época anterior a 2000. Para isso só utilizei caixas de relógios e de bombons que tinha guardado. Transformei-as e fiz arranjos de mesa para o Natal. Isto é mesmo algo que é meu. Nunca frequentei uma escola de artes, nunca fiz workshops. Sou muito de ver, de mexer, de meter as mãos na massa”, esclarece.

Um dos episódios que mais recorda e que a marca dentro das experiências das suas transformações de peças foi vivido na Holanda. Entre 2008 e 2010, começou por trabalhar nas limpezas de uma fábrica de dimensão internacional. Por ser muito comunicativa, numa conversa com a secretária da administração contou-lhe algumas ideias que tinha e acabou por mostrar alguns dos seus trabalhos. A empresa ficou impressionada e não hesitou em convidar Anabela a fazer uma árvore de Natal sustentável.

“Eles vieram perguntar-me se queria participar. E eu só disse que o faria se fosse uma green tree. E tinha todo o sentido, porque naquela altura a fábrica estava a implementar um lado mais amigo do ambiente. Estavam a começar a fazer a reciclagem, a tirar os fumadores de dentro da fábrica. Chegámos a um consenso e o resultado foi uma árvore de Natal com desperdícios da fábrica, ou seja, mesmo com restos de peças da empresa”, recorda.

Ao todo, praticamente tudo o que qualquer pessoa possa imaginar pode ser alvo de transformação pelas mãos de Anabela Nunes. Normalmente, por se encontrarem muito danificadas, é preciso haver uma reconstrução total da peça. No entanto, também existem casos em que os clientes da artesã lhe oferecem determinadas peças que iriam para o lixo e que, muitas vezes, estão em ótimo estado. “Não sei mesmo como as pessoas se desfazem assim das coisas”, confidencia.

A sua dificuldade em compreender esta banalização da grande maioria das pessoas vem do facto de Anabela realmente ter a capacidade de olhar para qualquer material e ver nele a possibilidade de lhe dar uma nova vida.

Segundo partilhou com a NiT, há até um caso de um móvel que teve muito sucesso nas redes sociais que exemplifica essa mesma premissa. “Já era super velho e estava a servir de galinheiro. Estava cheio de palha e consegui transformá-lo e dar-lhe uma segunda vida. Acredito mesmo que a maioria das pessoas olhava para aquilo e pensava que só tinha um destino: o lixo”, diz.

Mais recentemente, a artista tem estado focada na transformação de peças em madeira. O culpado é o seu atual companheiro com quem partilha deste mesmo interesse e cujo talento para trabalhar as madeiras é especial. “Ele tem um espaço magnífico e consigo aqui trabalhar as peças. Apanho pedaços de madeira da Baía do Seixal ou da Fonte da Telha, já que gosto de ir lá caminhar e aquelas madeiras que estão às vezes queimadas e mesmo muito danificadas para algumas pessoas”.

Todos os trabalhos são partilhados nas páginas do Instagram e do Facebook de Anabela. Porém, os conteúdos dos posts não são nada artificiais, antes pelo contrário, já que tudo acontece com grande naturalidade. Aliás, a artesã até relata que se sente sempre muito pouco segura a mostrar os seus trabalhos ao público.

“Não gosto dos trabalhos perfeitos. Tudo o que for muito reto para mim não é normal nem natural. Aprecio mesmo a imperfeição. Por isso, as minhas peças não são perfeitas e também não gosto delas perfeitas, porque caso contrário dá-me a sensação de que estão a sair de uma fábrica ou de uma linha de montagem onde as coisas são realmente todas muito cleans”, sublinha.

Anabela Nunes está a começar a aceitar outro tipo de desafios. Por exemplo, domingo, dia 1 de maio, vai apresentar os seus trabalhos pela primeira vez num pequeno mercado em Palmela, no distrito de Setúbal.

Até lá, carregue na galeria para conhecer algumas das transformações feitas por Anabela Nunes.

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