Raparigas para um lado, rapazes para o outro. Nos tempos de escola de Bruno Madeira, a divisão nos trabalhos manuais estava bem assente: enquanto as jovens se dedicavam a aprender tapeçaria ou costura, os colegas dedicavam-se apenas à bricolage. Quase todos, sendo ele a exceção.
“Como não estava à vontade com aquela oficina, e a minha mãe era bordadeira, fui para o lado oposto”, recorda à NiT o criativo, atualmente com 44 anos. Tinha 13 quando aprendeu a fazer ponto cruz, uma das mais populares formas de bordado.
Natural de Santarém, Bruno é também o criador do Bis Ponto Cruz e usa os trabalhos manuais há mais de uma década para “desafiar preconceitos” com humor, segundo o próprio. Militar da marinha portuguesa há 25 anos e bombeiro voluntário, mistura esta sua vivência com as linhas e as agulhas.
Apesar deste interesse precoce, o ponto cruz só regressou à sua vida algumas décadas mais tarde. “Quando atingi a maioridade, fui chamado para o serviço militar obrigatório, onde estive quase meses. Na altura, trabalhava na dureza das obras, ao sol, e foi um período da minha vida em que senti a minha vida relativamente mais estável”, confessa.
Decidido a experimentar durante mais alguns anos, acabou por assinar um contrato e ser recrutado para a Marinha portuguesa. Ficou como condutor mecânico, começou a gostar e nunca mais saiu, mesmo quando uma paixão mais antiga regressou à sua vida.
Casado e pai de dois filhos, um menino e uma menina, Bruno começou a constituir família há 15 anos. Na mesma altura, descobriu que ia ser tio pela primeira vez, mas não “tinha um cêntimo para gastar”, conta. “Investimos todas as nossas economias na nossa casa e nos nossos filhos.”

Decidido a fazer algo especial para o sobrinho, lembrou-se do ponto cruz. Com a ajuda da mulher, designer de profissão, bordou uma simples fralda e foi surpreendido com pedidos de outros familiares. A certa altura, percebeu que este antigo hobby podia ser algo rentável e decidiu lançar a sua própria marca, em 2015.
Ao candidatar-se à Carta de Artesão Profissional, pedido que viria a ser aceite, ganhou cada vez mais visibilidade. Nesta altura, dedicava-se sobretudo a trabalhos mais tradicionais, como toalhas de banho, têxteis de mesa ou molduras. Só mais tarde passou a dedicar-se a criações de autor.
Atualmente, é conhecido por bordar frases provocadoras e criar peças inesperadas. Em muitos casos, transforma materiais improváveis, como madeira, papel, vidro, redes ou trapilhos — no fundo, tudo o que a imaginação permitir — em obras “que geram conversa”, afirma.
Neste momento, tem em mãos dias peças improváveis. Numa delas está a bordar um tronco num pedaço de papel, para que uma amiga artesã acrescente folhas e flores naturais, e noutra está a bordar numa lata de atum.
“Não tenho limites. A imaginação das pessoas é o meu limite. Já fiz óculos de sol, em parceria com uma ótica e só precisaram de me dizer onde podia bordar para não afetar a visão”, continua. “A dificuldade está lá sempre, mas o que me dá prazer é ultrapassar esses obstáculos e fazer asneiras até lá chegar.”

“Andei escondido”
“Durante muitos anos, andei escondido. Quando havia necessidade de falar com clientes, tinha vergonha e era a minha esposa que dava a cara”, admite. Foi então que todos os colegas da Marinha e dos bombeiros o incentivaram a assumir este talento.
Desde o início, foram um dos seus maiores apoios. “Se houve pessoas que me puxaram para a frente, foram os meus colegas de trabalho. As vicissitudes da vida obrigam a que sejam pessoas com uma mente aberta, por isso, não aceitavam que eu estivesse a limitar-me por medo.”
Quando começou a revelar-se, sentiu-se motivado a criar mais. Foi quando começou também a pensar em designs mais provocadores. “Não parei de inovar, de fazer asneiras e estragar material por esta necessidade de aprender coisas novas”, afirma.
Há várias peças no portefólio de Bruno que ilustram esta nova abordagem. Uma delas é um desenho que, à primeira vista, parece tratar-se de um retrato dos órgãos genitais masculino e feminino. “Só quem vê como uma peça de artesanato, sem pudor, é que vai identificar uma banana e uma flor.”
Além disso, brinca muito com o português. Enquanto numa, criou uma peça com a frase “vai para o …” com o desenho do cesto mais alto das caravelas, na altura conhecido como “caralho”, numa outra, o desenho de uma ave segue-se à provocação “mexe-me na…”.
“Vou fazendo isto com humor para quebrar ainda mais estereótipos”, acrescenta o artista, que também anda por feiras ou festivais de norte a sul do País. “Algumas até metem a mão nos olhos dos filhos. Tenho pessoas idosas que param, sorriem e seguem a comentar. Que mais posso pedir de alento e satisfação?”, acrescenta.
Por outro lado, nem sempre sentiu que os seus projetos eram bem recebidos pelo público mais jovem. “Faço questão de os chamar e desmistificar o conceito até que perceba que não basta olhar para a imagem. Temos que olhar para as várias leituras que pode haver da arte.”

Tudo é personalizado
Embora tenha o seu portfólio sempre disponível, o artesão adianta que não há peças em stock. O seu trabalho resume-se a obras personalizadas, criadas após uma conversa pessoal com cada cliente, onde partilham ideias até “chegar a um compromisso”.
Estas conversas podem acontecer por videochamada, por telefone ou até por email. Acima de tudo, Bruno sente a “necessidade de falar com cada um”, já que muitas vezes são trabalhos “muito pessoais” e que não podem ser publicados sem autorização.
O maior bordado que já fez, conta, foi numa rede com sete metros de altura. Tratava-se de uma fénix com uma cauda que acabava em forma de barrete, em representação do Ribatejo, para oferecer precisamente aos bombeiros voluntários de Santarém.
Contudo, não é suficiente e quer explorar ainda mais o universo da street art. Neste momento, tem a ambição de criar um bordado em grande escala a pedido de uma Câmara Municipal. “Tenho batido em algumas portas, mas ainda não foi possível concretizar”, afirma.
Mais do que ser reconhecido pelo seu trabalho, sonha ainda viver exclusivamente desta arte. “Apesar da minha idade, sou um miúdo a brincar com ponto cruz. Falo com um sentimento e uma vontade sobre a reinvenção deste produto tradicional porque é algo que me dá vida.”
Todos os pedidos podem ser feitos através da página de Instagram da Bis Ponto Cruz ou no perfil de Facebook. O site será lançado em breve e os preços variam e podem começar a partir dos 20€.
Carregue na galeria para ver alguns exemplos de trabalhos desenvolvidos por Bruno Madeira.









