Decoração

A casa de férias dos seus sonhos está camuflada na paisagem alentejana

Os tons terra apoderam-se das paredes, dentro e fora da casa, e ajudam a Casa Azul a adaptar-se ao cenário natural.
Pode nadar com esta vista (Foto: Francisco Nogueira)

Erguem-se como torreões nos extremos do edifício na serra de Grândola e marcam “o princípio e o fim”, mas também as duas divisões principais desta casa de férias na paisagem alentejana. Não são salas de estar ou quartos: são salas de fresco, refúgios do interior e do exterior, sítios perfeitos para escapar aos rigores do clima.

A ideia nasceu durante uma visita inicial ao terreno, inspirada nos espaços tão frequentados nas casas mais a sul e mais expostas aos rigores do calor. “No sul, mais do que viver no exterior, vive-se muito nos espaços de transição entre o interior e o exterior”, explica à NiT Ricardo Gordon, o arquiteto responsável pelo projeto. “São provavelmente os espaços onde se passa mais tempo, as salas de fresco.”

A Casa Azul que da cor pouco ou nada tem, é um projeto da Bak Gordon Arquitectos, terminado no início de 2021, ao fim de três anos de trabalhos. “Quatro amigos compraram quatro terrenos juntos e um deles veio até nós para construir uma casa de férias com os requisitos normais. Mas o mais importante é a forma como olhamos para a paisagem e como vemos o que pode corresponder às ambições do projeto.”

O terreno onde nasceu a casa, o mais elevado e, claro, com vista mais privilegiada, ofereceu desde logo a ideia da criação das tais salas de fresco, que foram instaladas em cada uma das extremidades, com objetivos diferentes. “Há uma mais a nascente que serve para as refeições, tem um forno a lenha, dá para estarmos sentados à mesa a deixar o tempo a passar; e há outra a poente, para ver o pôr do sol e contemplar a paisagem dos fins de tarde alentejanos”, explica.

Essa primeira visita deu origem a mais duas ideias: a do enorme muro construído numa das faces da casa, que queria que fosse “uma espécie de caixa de ressonância da paisagem” e a do tanque/piscina na base. Acabaria por ser decorada com lajes de mármore alentejano.

“Servem não só de elemento de proteção da parede da piscina mas também de elemento ornamental”, nota o arquiteto que se inspirou nos tanques de regadio mas também numa “fonte de Estremoz toda feita em mármore”.

Com 370 metros quadrados divididos por dois pisos, a Casa Azul divide-se de forma simples. Entre as duas salas de fresco existe uma longa sala. No centro da casa, um pequeno pátio ou claustro com um tanque, rodeado de um corredor de acesso às três suites, cada uma com um pequeno terraço interior. No piso inferior mora a garagem, as divisões de serviço e ainda uma quarta suite.

“Esta coleção de espaços exterior amplia a vivência da casa e torna-se no centro dela, até porque as casas do sul do País vivem muito desses espaços”, sublinha o arquiteto.

O choque com a paisagem era inevitável, mas acabaria por ser atenuado na escolha dos materiais. A “geometria artificial” do edifício cria um contraste inevitável com a paisagem e o segredo para suavizar a ligação passou pelo revestimento das paredes.

“Decidimos revesti-la com um material muito usado no sul, uma argamassa de cal, mas à qual juntamos um pigmento que acaba por minorar o contraste entre a artificialidade da casa e a paisagem que a envolve”, diz. “Por um lado, a geometria contrasta, mas a temperatura da cor dá uma continuidade entre a construção e a paisagem.”

É uma visão incomum na paisagem alentejana (Foto: Francisco Nogueira)

Opção mais arriscada foi a de reduzir ao máximo os materiais usados e estender ao interior os materiais e tons das paredes exteriores. “Acabamos por não ter que distinguir o espaço entre o material a e o material b. É sempre o mesmo material, o que nos permite apreciar apenas a escala, a proporção, a luz e a sombra.”

Sob o rigor do calor alentejano — e para contrariar as temperaturas extremas — a casa revestiu-se de cortiça, um material “que põe a casa a respirar” e que serve de “isolamento térmico ecológico e eficaz”, mas contrariamente a uma certa tendência, reduz as aberturas para o exterior. Uma opção consciente.

“Nas casas a sul é importante que a casa se abra com conta, peso e medida. Fico sempre impressionado quando vejo casas totalmente envidraçadas, porque das duas, uma: ou a pessoa vai cozer lá dentro ou vai gastar uma fortuna desnecessária em energia”, atira. “Gosto de ser criterioso na relação entre o interior e o exterior. Se tiver tudo em vidro, não há critério nenhum na relação entre a paisagem, em estar dentro e estar fora.”

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