Decoração

A invulgar casa no campo do casal que fugiu da cidade — e se refugiou na montanha

Todas as áreas sociais estão associadas a pequenos jardins, um deles com piscina. É descomplicada, mas tem um telhado invulgar.
Em comunhão com a natureza.

À primeira vista, parece uma casa térrea. Só quando nos aproximamos é que percebemos que os dois pisos estão dissimulados por um grande plano de rampa. Embora inclinada “num sentido tradicional”, a cobertura tornou-se o grande destaque desta moradia familiar ao rasgar o horizonte da paisagem da envolvente rural em que os detalhes ganharam vida.

“[A ideia do] telhado foi a parte mais bonita do processo, porque foi muito coincidente. Num momento em que senti que podia ser interessante abordar uma estrutura inclinada, os clientes dizem-nos que tinham pensado no mesmo”, conta à NiT o arquiteto Pedro Ferreira. “A partir daí, toda a obra está cheia de momentos que revelam esta sintonia sem necessidade de convencer a outra parte.”

A imagem, muito provavelmente, não foi aquela idealizada por Elis Regina, quando cantou que queria “uma casa no campo, onde possa ficar do tamanho da paz”. Os versos da artista brasileira, lançados em 1972, ainda ecoam na cabeça de muitos que sonham com um lar rústico onde possam ter “carneiros e cabras” no jardim ou plantar os seus “amigos, discos e livros, e nada mais”.

O sonho de um casal, com duas filhas pré-adolescentes, era um pouco diferente. A família queria a sua Casa no Campo — o nome do projeto não engana — que funcionasse como uma oportunidade de fuga na cidade. E conseguiram este retiro de 380 metros quadrados na freguesia de Gandra, em Esposende, entre terra, rio [Cávado] e a montanha. Mas decidiram criá-la à sua maneira, através do formato ou dos materiais.

“Tinham vontade de sair do círculo urbano e ter uma vida informal no meio da natureza. Foi o principal motivo que os levou a vender a residência anterior”, acrescenta o fundador do PF Architecture Studio. “E também pensaram no futuro. As filhas vão para a universidade, saem de casa e queriam um elemento agregador para os genros, os netos e para aguentar uma vida social num local com menos ritmo.”

A cobertura inclinada é um dos destaques do projeto.

Desejava-se uma casa fácil e despretensiosa, mas que respondesse a este imaginário de vivência campestre. A forma para o conseguir foi apostar numa forte relação com o exterior, um dos principais traços característicos do ADN do atelier. “A casa não é um objeto abstrato que caiu ali, liga-se aos elementos naturais como o vento ou a exposição solar.”

Quanto ao programa, a casa forma um T. As áreas sociais surgem voltadas a sul, direcionadas para a rua de acesso, com direito a um primeiro pátio exterior com piscina — a eira —, um alpendre coberto — o varandão e o hall de entrada. Já as áreas privadas foram localizadas a norte, aproveitando-se o desvão criado pela cobertura para criar a suite principal da casa.

“Conseguimos separar as áreas privadas, públicas e mais sociais e cada uma tem um espaço. Queríamos pequenos jardins associados a diferentes valências da casa”, afirma.  “Se por um lado temos uma zona desportiva com rede de voleibol, do outro está a piscina protegida pelo vento.”

A relação com a envolvente também foi pensada a partir da relação com os pontos cardeais, de forma que a luz solar entre consoante o posicionamento da divisão na planta, quer estejam mais virados para a nascente ou para poente.

Acima de tudo, é uma construção que “procura envelhecer bem”. A escolha dos materiais reflete essa preocupação, nomeadamente o revestimento de tijolo burro manual da fachada, “que vai ganhando beleza e qualidade à medida que o tempo passa”. O arquiteto priorizou elementos locais como o carvalho europeu, a única madeira utilizada, ou os pavimentos exteriores em lajeado de betão produzido na região.

“Tudo o resto é feito pela luz, e pela vivência e apropriação [dos clientes]”, acrescenta Pedro, que fez com que a eira exterior se tornasse uma espécie de extensão da sala. Destaca-se ainda o quarto do casal, que tem a particularidade de estar isolado num só piso e virado para o pátio.

Concluída em 2023, a moradia cumpre o objetivo de ser uma casa fácil sem abdicar de quaisquer pormenores, como o canto para a filha que toca piano. O mais importante era que se entendesse de imediato como uma casa de família. “E aguente todas as necessidades desta família — dos que já vieram e dos que estão por vir”, conclui.

Carregue na galeria para ver mais fotografias da casa tiradas por João Morgado.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT