Decoração

O antigo lagar nas vinhas do Douro que renasceu como “uma casa camuflada”

A residência em Lamego manteve a pedra da arquitetura original. Até os habitantes mais velhos da zona ajudaram na construção.

As uvas que cresciam na Quinta de Recião, em Lamego, eram pisadas num lagar construído por volta dos anos 50. Entre a apanha da azeitona e o trabalho no moinho, este pequeno tanque juntava uma pequena comunidade local para produzir o vinho na propriedade isolada, que vivia sobretudo das atividades agrícolas.

Embora a história do espaço não seja esquecida, acabou por ganhar uma nova vida. Tudo começou quando o casal Henrique e Francisca, a herdeira dos proprietários, regressou do Porto para o concelho em Viseu. Os atuais donos — que trabalham nas indústrias hoteleiras e farmacêuticas, respetivamente — queriam dar continuidade a este projeto.

Assim nasceu a Casa do Lagar, junto às vinhas do Douro, que se destaca pela mistura da pedra e dos pedaços de xisto originais com a madeira predominante no interior. Assinado pelo atelier Colajj, o projeto nasceu da ideia de criar outra habitação na quinta, que pudesse apoiar economicamente a parte da agricultura.

“O edifício revela um trabalho de alvenaria muito interessante no piso térreo, que se conseguiu manter no novo programa. No entanto, procurou-se que o piso superior conseguisse um melhor enquadramento na encosta do vale, com uma cobertura de uma água que flui paralela à inclinação do terreno”, explica à NiT o arquiteto João Vasconcelos. Uma das exigências era precisamente preservar parte da história dos antigos proprietários.

A casa era constituída por dois pisos, sendo que um se encontrava bastante destruído e não deu para aproveitar nada. “O volume de pedra já não era compatível com o novo uso, então foi removido para dar lugar a uma plataforma para um cenário mais contemplativo”, acrescenta.

As pedras contrastam com o ripado.

Reutilizaram-se os blocos de pedra dos dois tanques do piso térreo para estender uma eira, que desenvolve o interior da sala ao exterior. Foi aproveitada a abertura do maior vão da casa para o rio, para criar uma ligação mais natural entre as duas esferas.

Durante o processo, os arquitetos restauraram a escadaria, e revestiram-na com os bardos de xisto provenientes do stock de manutenção da vinha da Quinta. Enquanto o xisto “absorve o aquecimento do calor e mantém uma temperatura mais agradável no inverno”, o ripado deixa as divisões frescas no verão e cria “uma casa camuflada” na paisagem.

O piso inferior dedica-se à área social, com a sala de estar, sala de jantar e cozinha, em open space. No piso de cima, o hall distribui para três quartos, sendo um deles uma suite.

No piso superior optou-se por armários abertos, que como as janelas devolvessem alguma amplitude aos espaços reduzidos. Toda a volumetria do piso superior é revestida a ripado de madeira, que nos remetem para a constituição das pipas.

“Há um desnível no interior que transporta os socalcos do terreno para o interior”, reforça o arquiteto. “É uma habitação pequena que se amplia com as relações pontuais com o exterior.”

Durante a obra, o atelier contou com a ajuda de vários dos habitantes mais velhos da região, que chegaram mesmo a trabalhar na apanha da uva nos primórdios do lagar. “Aconteceu de forma natural, porque as pessoas aqui já tinham tido outro tipo de trabalhos na Quinta”, conta João Vasconcelos. “Dá para perceber que é uma comunidade unida e que estende alguns laços com outras vilas mais próximas que também estiveram envolvidas.”

As portas da Casa no Lagar podem abrir-se a mais gente. Desde o início da construção, concluída em 2023, Francisca revelou a intenção de lhe dar um propósito como turismo rural e receber vários visitantes. Os interessados podem ter acesso a um estilo de vida com várias atividades ligadas à cultura vinícola e aprender mais sobre o processo.

Carregue na galeria para ver mais imagens da casa pela lente do fotógrafo Marcos Sousa.

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