Decoração

A ceramista sueca que trouxe as suas esculturas surrealistas para Lisboa

Anne Öhrling Dersén mistura surrealismo com uma estética infantil. O seu trabalho é "uma coleção de memórias e experiências."
Apaixonou-se por Portugal.

Antes de visitar Portugal, Anne Öhrling Dersén já tinha ouvido falar na tradição dos azulejos. Na sua passagem pelo curso de belas artes em Amsterdão, nos Paíxes Baixos, passava horas à volta dos ateliês a explorar todo o tipo de cerâmicas — ora inspiradas na herança do sul da europa, ora a reinterpretar o design nórdico.

“Dei por mim a querer viver num país que tinha esta arte como parte do património”, conta à NiT a artista sueca de 38 anos. No final do curso, em 2018, conheceu um português que estava a regressar para casa e que a ajudou a trazer todas as caixas que tinha consigo.

No início, instalou-se no estúdio Olho, de Cécile Mestelan, até que conseguiu encontrar o seu atelier em Campolide, onde agarrou nas bases e desenvolveu o seu próprio estilo. “As pessoas diziam que eu não era realmente uma ceramista, então decidi aprender cada vez mais.”

A maioria das pessoas conhecem-na como I’m Not Messy I’m Creative. Anne transforma personagens e formas que surgem na sua cabeça em peças originais, juntando um lado surreal e uma linguagem infantil. No fundo, são “esculturas funcionais” com acabamentos imperfeitos.

“Sempre fui criativa. Não me lembro de uma altura em que não estivesse ocupada com as mãos”, recorda. Quando não estava a desenhar, estava a explorar o mundo da joalharia, da costura ou até do graffiti. Nos momentos de pausa em que se afasta do grés, também se dedica às colegas.

O nome artístico surgiu enquanto lia uma revista e cortava as palavras. Aproveitou uma fotocópia que tinha no quarto para juntar uma série de termos que deram origem à expressão que, agora, surge ao lado do seu trabalho. Comprou o domínio, partilhou os seus primeiros desenhos et voilà.

“O meu estilo é uma coleção de memórias e experiências. Vem muito do meu crescimento”, explica a criativa, uma fã confessa dos anos 70 e de feiras de antiguidades. “Sou influenciada pelos meus amigos de Estocolmo e pela história do design sueco. Quero reproduzir objetos com uma nova visão.”

Uma das personagens criadas por Anne.

Apesar das referências, tem um ADN difícil de comparar. Anne destaca um candeeiro em forma de concha, na qual uma pérola serve de lâmpada, como um das criações mais elogiadas. Há ainda os candelabros e jarras que parece que estão a derreter, como se fossem feitos com o slime verde e viscoso que os miúdos adoram.

“Se estou a fazer algo completamente novo, nunca prevejo o que vai surgir. Se não tenho ordens, olho para as minhas emoções: estou stressada? calma?”, explica. Mais do que o lado funcional, é a parte estética do objetivo que lhe interessa. “Gosto de ver como é que as pessoas usam peças loucas nas suas casas.”

Quando está a criar algo novo, Anne pode demorar até duas semanas. O tempo depende sempre do tempo e se permite secar rápido os moldes. Se estiver a refazer uma antiga, o tempo é encurtado para três ou quatro dias.

Todo o processo acontece num atelier luminoso e funcional, no Campolide Atlético Clube, que já partilha com outros criativos. Sabia que queria ter uma mesa de mármore grande e uma aparência DIY, com peças a decorar as paredes ou as mesas.

O seu atelier é como um parque de diversões.

Num dos cantos, está exposto um candelabro com espigões e dedos pendurados que, confessa, prefere não vender. “Se alguém quiser comprar, pode. Mas aumentei o preço. Se o qusierem ter em casa, quero que estejam dispostos a pagar o que acho que merece”, explica.

É um compromisso com o seu trabalho, sobretudo porque ainda não vive apenas da sua arte. Quando não está a criar algo novo, está a trabalhar em freelancer em sistemas digitais. “Tenho rendimentos muito irregulares, porque não aceito grandes encomendas e não trabalho para restaurantes.”

Se a firmeza se mantém desde o início, a estética mudou ao longo dos anos. Quem vê as suas peças industriais a preto e branco, de quando vivia nos Países Baixos, não as associa às cerâmicas atuais, com mais cores e “uma imagem mais alegre.”

“Estou mais feliz. Quando me mudei, fazia mais desenhos e disseram-me que dava para perceber que tinha mudado de sítio. Dizem que o meu trabalho parece mais tropical agora”, recorda.

Anne prevê um regresso temporário à Suécia, mas o objetivo não é ficar por lá. Quer mudar-se durante algum tempo com os sócios para Lyon, em França, e estabelecer uma rede de contactos noutras partes da europa. “Mas não vou abandonar Lisboa. Quero estar entre vários sítios”, conclui.

As encomendas de peças da I’m Not Messy I’m Creative estão disponíveis no site com preços a partir dos 25€.

Carregue na galeria para ver algumas das criações.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT