Decoração

Clo Soares: a designer de interiores que transforma divisões em obras de arte

Já colocou um barco numa sala de reuniões e um carrossel num restaurante. O objetivo é tornar cada espaço numa experiência.
O surrealismo é uma das suas grandes inspirações.

No mundo do design de interiores, a questão da vivência é algo intrínseco ao setor. Habitamos um espaço e vivemos experiências dentro de quatro paredes, pelo que cada divisão deve refletir a nossa história e envolvência com o edifício. O conforto pode estar numa parede branca ou pode ir muito além disso, deformando conceitos esperados, porque num empreendimento ou zona com casas muito semelhantes, as pessoas não o são.

Aos 38 anos de idade, Cláudia Soares — conhecida profissionalmente por Clo Soares — tem dado continuidade à uma paixão que a segue desde infância, a decoração. Não tinha uma casa na árvore como as que vemos nos filmes, mas ocupava-se a apreciar o poder transformador do design de interiores. Na adolescência, antes de se dedicar a mudar este mercado, começou pelas constantes mudanças no seu quarto a um ritmo quase semanal.

“Estava sempre a procurar um equilíbrio” diz à NiT. “Felizmente, tive uns pais muito bons e, quando decidi fazer um graffiti na parede, tive essa possibilidade. Foi feito de propósito para mim, com a mensagem de como eu era na altura e as cores que eu escolhi”. Foi o seu primeiro passo no deformar de ideias estabelecidas, já que, há mais de duas décadas, a arte do graffiti estava na rua e não dentro de casa. O desejo de ter algo diferenciador dentro de quatro paredes foi a força que a fez perceber a relação entre o espaço e as pessoas que nele habitam.

Um dos trabalhos de Clo no Passport Lisbon Hostel.

Aponta também o arquiteto Gaudí como uma das suas primeiras grandes referências, pelas sensações que as suas obras despertam: “entra-se, olha-se para os vitrais e conseguimos perceber a variação do dia e a luz a entrar dentro de casa. Cria-se o quente e o frio, [temos] as formas sinuosas que ele utiliza na arquitetura e a energia flui como se fosse na natureza”. Esta grandiosidade é contrastada com a Bauhaus e a ideia de que menos, por vezes, é mais.

Recorda-se, ainda, da forma como Salvador Dalí a fez ficar encantada com o seu universo surrealista, nomeadamente num museu em que se perdeu dos pais. “Lembro-me de estar a olhar para uma parede, os olhos sobem e, no teto, está uma corda e um balde de água. As pessoas assustam-se”, diz. Aos 14 anos, já conseguia olhar para uma peça de arte e ver mais do que um quadro, criando réplicas das pinturas do espanhol para oferecer à família.

Comunicar através da arte

Das artes ao curso de Design, no ensino superior, percebeu aquilo que realmente a fascinava. A oportunidade de desenvolver um conceito e criar um propósito para essa conceptualização acompanhou-a desde que terminou o curso, há 15 anos. Apesar de ter transportado este desejo de ir além do esperado para a faculdade, a reação dos professores nunca foi um obstáculo.

De acordo com o que revela, foi conseguindo manter-se dentro das exigências académicas. Nas palavras do designer Alexander McQueen, “é necessário conhecer as regras para as poder quebrar” e Cláudia procura fazê-lo como algo primário, uma forma de libertação. “Quem me conhece, sabe que sou uma pessoa muito tímida, mas no trabalho, é o momento em que posso explodir”. O seu ofício foi a forma que arranjou para comunicar com uma linguagem muito própria.

Quando abriu a sua empresa em nome próprio, há cinco anos atrás, procurou fazê-lo para alargar o léxico desta linguagem, mas não só. Em simultâneo, queria mudar a forma como os seus clientes experienciam um espaço, fugindo do foco exclusivo nas variantes do design, como a estética, a ergonomia ou a funcionalidade. Percebeu a sensação de surpresa que causava nas pessoas e alimentou a sua paixão pela forma como conseguia oferecer algo novo a estas pessoas.

A criativa foge dos habituais beges e brancos.

A relação entre o espaço e quem o habita

“Quero trazer para dentro das casas as emoções, as vivências e as memórias, tudo o que é importante para essas pessoas. Uma cristaleira pode não ter significado nenhum, mas para eles tem, então não posso chegar lá e colocar de lado”, diz. Afirma que o trabalho de uma designer de interiores é sempre desenvolvido em equipa e em conjunto com os clientes, para que a organização tenha uma razão de ser, ou seja, é necessário perceber a história que está por trás.

Como é que a artista consegue, então, concretizar esta ambição? “É poder escrever nas paredes da casa ou uma sala com palavras cruzadas nas paredes. É ter uma sala de reuniões que pode ser um ringue de boxe ou com um barco a fazer de banco. É sempre tentar ir ao ‘eu’ da pessoa e identificar elementos com que se vai identificar”, explica. “As paredes não são só paredes, é também a relação das paredes com as pessoas. É essa parte cinematográfica e imersiva que gosto de incluir nos projetos”.

Um dos seus trabalhos mais memoráveis é o banco em forma de barco.

Para isso, os principais métodos passam pelo recurso a texturas, cores e reflexos, sempre com um conceito base. Ao ser convidada para um espaço de cowork com mais de 2 mil membros, desenvolveu uma sala em torno do trabalho de Piet Mondrian. “Existe todo um estudo sobre como transparecer um quadro de arte para uma sala”, sublinha, mostrando que a arte continua a ser uma presença no seu trabalho.

Ao longo da sua carreira, o seu maior desafio foi a segunda localização do Idea Spaces [espaço de cowork], situado na parte inferior do Palácio Sottomayor. “Não existe muita luz natural. Quando cheguei, era quase como se fosse uma cave. Levei as mãos à cabeça,” conta a designer. “Foi brincar com o efeito das luzes, porque tive de conseguir as diferentes temperaturas ao longo do dia para as pessoas não se sentirem fechadas. Tive que trazer a verticalidade para ser um espaço mais fluído e não tão fechado”.

Mais recentemente, foi convidada por uma unidade hoteleira que se preparara para abrir em Lisboa e, contra todas as expetativas, colocou um carrossel no meio do restaurante. Apesar do inicial ceticismo por parte da gerência, não conseguiram libertá-la da ideia, que acabou por seguir para a frente.

“O que sinto [quando estou a trabalhar] é que parece que [a cabeça] sai da órbita e só consigo estar focada naquilo”, conclui. “Entro no meu transe e fico. A minha paixão é o meu trabalho, algo que vem mesmo cá de dentro”.

Numa sala de reunião, emulou um ringue de boxe.

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