Decoração

Eles querem encher a decoração da sua casa com peças únicas (e raras) da natureza

Na One of a Kind, todos os objetos são verdadeiros achados: de borboletas a fósseis com milhões de anos.
Há borboletas cheias de cor para decorar a casa

Quando em 2019 foi necessário abrir um novo canal entre os recifes das Ilhas Salomão, o governo decidiu que iria aproveitar ao máximo a riqueza do local. A zona de coral foi delimitada e vendida em hasta pública a um grupo de mergulhadores que cortaram as peças mais bonitas, de forma a evitar a sua destruição.

O comércio de fauna e flora em perigo está devidamente acautelada pela Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção, que emitiu o certificados que permitem que essas plantas sejam agora vendidas. Alguns desses corais — e a respetiva documentação legal — estão nas mãos de António Nora, fundador da One of a Kind, a nova marca que quer decorar a sua casa com peças, lá está, que são únicas.

A contrariar a tendência da massificação e da decoração saída das linhas de montagens, a One of a Kind aposta na riqueza, na beleza e na singularidade da história natural. Na coleção existem não só corais, mas insetos e borboletas raras, pedras invulgares e fósseis.

Esta história é indissociável da própria história do fundador que chegou a ser um dos maiores colecionadores de conchas do mundo com mais de 75 mil exemplares, dos quais havia de se desfazer. Mas tudo começou com os primeiros exemplares, oferecidos por um padre missionário vindo de África.

“O meu tio avô era o Padre Manuel Grilo, que recebia muitas visitas de padres missionários. Um deles trouxe-me, numa ocasião, umas conchas de Moçambique. Foi o que despertou o interesse”, recorda à NiT o empresário de 65 anos.

Eram conchas muito bonitas, diferentes das que se viam nos areais portugueses. A paixão levava-o a todo o lado, sobretudo à bancada de peixe no mercado de Matosinhos. “Ela de vez em quando recebia uns pacotes com umas conchas de Moçambique, avisava-me e eu ia a correr. A partir dos 16 comecei a corresponder-me com colecionadores fora do País.”

António Nora criou o projeto com ajuda da filha, Filipa Nora, e a amiga Lúcia Rumor

Aos 20, a revolução de abril interrompeu os planos de uma formação superior. Começou logo a trabalhar e a dedicou-se ao hobby das conchas. Acabaria por pegar nas malas e viajar pelo mundo, da África a Ásia, até aos confins da Austrália.

Começou a criar uma das maiores e melhores coleções de conchas, de tal forma que chegou a fornecer muitos museus, caso do Smithsonian nos Estados Unidos. “Tinha imensos contactos em todo o mundo, viajei por todo o lado. Também negociava fósseis e minerais”, recorda.

Apesar de não ter qualquer formação na área, confessa-se um “fortíssimo estudante”, um verdadeiro autodidata. Acabaria, no entanto, por constituir família e vestir o fato e a gravata. Trabalhou numa grande empresa durante vários anos, antes de se dedicar aos vinhos e as garrafeiras, antes de ser diretor da Herdade do Monte da Ribeira, no Alentejo.

Das muitas viagens pela Ásia trouxe um livro cheio de contactos e, com a ajuda do filho em Xangai, acabou por trabalhar como consultor para a China com várias empresas nacionais. Isto até à pandemia decidir pôr uma pedra na engrenagem.

Os corais são algumas das peças disponíveis

“O mercado interrompe-se abruptamente e eu, que não consigo estar parado, tive que pensar em alguma coisa. Como nestas alturas os nichos de mercado funcionam sempre, voltei a contactar alguns amigos de décadas e percebi que agora a área destes objetos funciona num prisma diferente”, conta. “Se antigamente trabalhávamos para os colecionadores fanáticos, hoje a vertente mais interessante é a da decoração.”

Foi essa a pista que o levou a criar a One of a Kind, a reacender contactos por esse mundo fora e a comprar fósseis, borboletas, corais e tudo o mais que pudesse servir de peça decorativa.

“As pessoas gostam de ter em casa coisas diferentes e a história natural é um mundo absolutamente extraordinário de beleza. Não há duas peças iguais”, sublinha.

Arrancou com o projeto no final de 2020 e em fevereiro nascia a loja que vende as peças exclusivamente online.

António Nora faz questão de desmistificar algumas das ideias erradas sobre a venda destas espécies invulgares e raras. No caso das borboletas, por exemplo, explica que muitas delas vêm de quintas que as criam em estufas. “São uma fonte de rendimento para as populações locais e até ajuda a que algumas espécies não caiam no perigo da extinção”, nota.

Apesar de na coleção atual só ter necessidade de documentação CITES para os corais, recorda um caso paradigmático, o do Narval, a espécie marinha rara que se caracteriza pela invulgar presa de marfim que o associa ao mítico unicórnio.

“Alimentam-se de bacalhau e muitas vezes são apanhados nas redes e morrem. Os governos recolhem as pontas de marfim e uma vez por ano fazem um leilão. Quem os comprar tem direito ao tal documento que atesta que não foi recolhido ilegalmente, que o animal morreu de forma natural”, explica. Uma dessas pontas de marfim pode chegar a custar mais de cinco mil euros.

Na coleção da One of a Kind há muito por onde escolher para dar um toque diferente à decoração lá de casa. Há objetos que encaixam mesmo nas decorações mais minimalistas. Mas, se preferir, pode sempre adotar a tendência vitoriana dos cabinets de curiosités, móveis usados para guardar e exibir as peças mais curiosas, raridades e bizarrias.

Encontram-se pequenas conchas, rochas e minerais, insetos, corais, borboletas, mutias delas protegidas com redomas. Todas as peças são finalizadas por António Nora, que escolhe cada um dos suportes. E a mais recente tendência são as redomas de vidro.

“São uma tendência mundial. Tiveram uma época de ouro no período vitoriano, onde serviam para proteger os objetos de curiosidade mais valiosos. Desapareceram durante muitos anos e agora há imensa procura”, explica.

Na secção dos insetos, quem reina são os besouros, muitos com padrões belíssimos e dimensões gigantes.

O fóssil raro que custa 2.300€

À primeira impressão de repugnância segue-se, garante António Nora, uma sensação de admiração. “As pessoas costumam ter muita repugnância, mas perdem a noção da beleza que têm. Há insetos absolutamente fantásticos. Mas acontece uma coisa curiosa: quando os veem, acham-nos bonitos e compram um. Depois normalmente ganham mais interesse pela área.”

As novidades chegam de todo o mundo todas as semanas. Os fósseis são outra área em que a One of a Kind aposta. Brevemente terão mesas feitas com árvores petrificadas.

“Temos outra vertente agora, já que trabalhamos com decoradores porque vendemos peças especiais, de maior dimensão. Há fósseis com mais de um metro e que pode, por exemplo, ser usados como murais.”

As peças podem custar uns meros 15€ ou uns estonteantes 2.300€, como é o caso de um fóssil do período triássico — há cerca de 247 milhões de anos — descoberto em Madagáscar. E pode ter a certeza de que mais ninguém terá uma peça igual na estante lá de casa.

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