Num altura em que ter uma casa ao pé do mar ainda era um sonho longíquo, o pai de Gonçalo Blétière Lopes já dizia que não iria querer ter uma uma “habitação delicada”. Teria de ser uma obra forte e que durasse. “Um ponto de abrigo”, recorda à NiT o filho, arquiteto de profissão, sobre as palavras que ouvira vezes sem conta. “Um objeto bruto, sólido e resistente.”
Aquilo que, em tempos, era apenas uma aspiração, começou a ganhar forma há cinco anos, quando “o universo se começou a arrumar”, continua. Em 2020, numa época em que “todos estavam com medo” por causa da pandemia, Gonçalo tinha acabado de regressar aos Açores vindo de Nantes, em França, para fundar o atelier SO Arquitetura & Design, com o amigo Bruno Furtado.
Naquele ano, os pais tinham comprado um terreno junto do mar, para erguerem a habitação com que tanto sonhavam. Coube ao filho ajudar a concretizar esse objetivo. “Por coincidência, quem estava a vender esse lote era um cliente meu e nem sequer sabia. Tudo estava alinhado”.
Assim nasceu uma moradia que o arquiteto descreve como “resumida ao essencial”. “Nem minimalista, nem brutalista”, a Casa da Rocha Quebrada, na Lagoa, ocupa o último vazio num troço da costa sul de São Miguel, um apontamento contemporâneo entre as construções mais antigas e a paisagem atlântica.
A missão foi, desde logo, desenhar uma obra “sem ruído”, pouco impactante na envolvente e com uma matéria “à prova de bala, do tempo e do sal”. A principal preocupação era fazer algo que aguentasse as intempéries frequentes da agressiva costa açoriana: sem portadas, portas pivot ou fachadas ventiladas.
A família optou então pelo betão, não só pela resistência do material, mas também para respeitar o budget. Gonçalo recorda que os pais “não tinham fundos infinitos” — cerca de 450 mil euros —, e não podiam optar por matérias-primas caras. O betão armado tem a vantagem de não exigir manutenção.
Quem passa à volta, pouco vê do interior desta residência, culpa também dos vãos recuados e protegidos. De fora, a casa parece até inabitável, “uma ruína nova”, segundo o arquiteto, que a compara a “uma sequência de grutas” na Rocha Quebrada.

“Tenho um fascínio por ruínas e por estes objetos inabitáveis, que quase pertencem a um mundo de fantasia. Como é uma zona com algum dinamismo, a nossa ideia foi logo que, de frente, desse para ver os tecidos. Já quem anda na costa ou nos passadiços, vê apenas essa carcaça.”
Estas grutas, porém, são totalmente habitáveis e com influências contemporâneas. No interior, predomina a madeira que não só contrasta com a frieza do betão da fachada, como aquece o espaço. “Não podia ser uma peça hostil ou dura.”
A mãe, também entusiasta de arquitetura, e que passara este gosto para o filho, confessava-lhe que tinha receio de acabar com “um bunker gelado e pouco confortável” para habitar. Gonçalo nunca teve dúvidas sobre essa integração. “Disse-lhe que, no interior, seria uma cabana de praia quentinha e simpática.”
Paralelamente, o cuidado para não ir além do orçamento refletiu-se na escolha dos materiais no interior. Os contraplacados de bétula, fabricados e laminados, também trouxeram algum desse calor para a parte de dentro. “Fomos esculpindo a peça à medida que íamos trabalhando.”
“O que não é essencial, não existe”
Do lado sul, a moradia abre-se para o mar, a partir das piscinas naturais logo em frente. “Tinha uma vista tão bonita e parecia ter uma série de frames que a bloqueavam. Os vãos podem ser uma arma para o arquiteto, mas às vezes é perigosa. Pode fazer sentido ou perder-se na força dos projetos.”
“Não existem blocos, apenas paredes maciças de betão armado. Se, um dia, vier um terramoto e abrir uma fissura, a casa cai como um objeto sólido”, explica. “Nunca vai partir porque, efetivamente, é uma caixa sólida. Serviu para quebrarmos este paradigma de que betão armado é caríssimo.”
No programa, pensado de forma descomplicada, “tudo o que não é essencial não existe”, garante o arquiteto. Resume-se a três quartos e uma zona social aberta e fluida, com ventilação e iluminação natural graças ao pátio central que rasga o volume principal.

“Estávamos limitados por um lote minimado, numa malha urbana consolidada. À partida teríamos de desenhar a obra com dois pisos”. Gonçalo optou por dividir em duas áreas: a cozinha e a sala de estar ficam no piso térreo, enquanto as zonas mais privadas ficam no segundo piso para preservar a privacidade.
O arquiteto recorda ainda como a infância com os pais informou estas decisões. “O meu pai era piloto da linha aérea, tinha muitos voos de madrugada e acordava cedo”, diz. Em contrapartida, a mãe, antiga jornalista, adora convívios com a família. “Manter essa separação era importante pela nossa vivência.”
Outro pormenor é um espaço de garagem com um vão que se abre para a zona social onde o pai, apaixonado por carros e motas clássicas, guarda a sua coleção. “É um gosto que, muitas vezes, faz parte dos eventos que organizam ou das discussões sociais, à volta das máquinas.”
“Não podemos dizer que temos um estilo arquitetónico”, admite o responsável. É mais um projeto onde este atelier, ainda jovem, se foca no que é indispensável. “É a realidade de muitos dos nossos clientes. Temos budgets um pouco apertados e, para os respeitar, as leituras essenciais ocupam toda a base dos nossos projetos.”
A obra acabou por ser “mais uma experiência” onde aprenderam, sobretudo, a dar novas roupagens ao betão armado. É entre os materiais disponíveis aquele que consideram não só “mais essencial”, lá está mas também básico. Ainda assim, conclui: “Uma parede em betão pode ser uma pintura”.
Carregue na galeria para ver mais imagens da Casa da Rocha Quebrada, captadas por Ivo Tavares Studio — e recorde a entrevista da NiT ao fotógrafo.

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