Decoração

Esta casa “suspensa” inspirada nos socalcos do Douro é um autêntico miradouro

Uma parte da moradia repousa sobre um muro de betão. Tudo gira em torno do pátio com vista desafogada.
O muro é o suporte da casa.

O terreno em socalcos, ainda sem intervenção humana, não parecia convidar à construção de um edifício. O desafio era o cenário ideal para o arquiteto Marco Paz, que afirma não entender a arquitetura como uma dificuldade. A área escolhida era apenas mais um pretexto para jogar com a envolvente.

Assim atravessou o Douro Vinhateiro, com os seus tradicionais muros de xisto, já com várias estratégias em mente. Com total confiança dos clientes, tinha de projetar um 3D para uma família que queria privacidade relativamente às áreas circundantes.

A volumetria inclinada convidou à criação de mais um socalco, constituído por um muro em betão, em diálogo com a arquitetura da região. A Casa Douro Valley, situada em Vila Nova de Gaia, foi pousada sobre esta estrutura como se uma parte da habitação estivesse a flutuar, num constante balanço.

“Foi a plataforma que precisávamos para desenvolver o resto da obra”, explica à NiT o arquiteto, do atelier Logoexisto. “É por isso que o projeto vive numa espécie de contradição: lança-se sobre a paisagem e situa-se na própria paisagem. A boa arquitetura tem sempre de ter alguma ironia.”

Inicialmente, o acrescento deveria ser feito em xisto. Porém, o arquiteto preferiu torná-lo “mais seco” e assumi-lo como um elemento mais contemporâneo. O exterior, incluindo a cobertura, foi todo pintado num tom de branco “mais sujo” para, mais uma vez, se enquadrar na envolvente.

O muro que suporta a moradia.

Já o interior foi trabalhado em tons de bege e com madeira de carvalho, que surge nos pavimentos, nas portas e em alguns painéis. “Quando concebemos o espaço, ele tinha apenas um propósito. Tinha que albergar as pessoas que ali querem viver e trabalhar. As áreas têm de ser confortáveis não só do ponto de vista térmico, mas também estético.”

Por isso, apesar da “limpeza geométrica das formas”, Marco quis incluir materiais quentes. “Apreciamos o minimalismo, nomeadamente o movimento artístico polaco dos anos 60, mas temos sensatez e sabemos que os espaços são para viver. Tem de haver tonalidades que nos trazem à terra.”

O pátio-miradouro é o coração da casa

A casa parte de uma tipologia em pátio, para o qual está voltada a maioria dos espaços habitados da moradia. É uma estratégia que “já foi testada pela história e que funciona sempre”, acrescenta o arquiteto, que menciona a sua presença desde a arquitectura ancestral da Mesopotâmia.

A partir desta zona central, fez-se um emolduramento da paisagem, voltada para o rio Douro, para captar a luz natural e gerar equilíbrio térmico. Através do enquadramento, delimitado pelos envidraçados, recorta-se “o conjunto de ruídos visuais à volta da casa” e que não interessava oferecer aos proprietários.

A luz natural invade todos os espaços. Numa das alas surgem as zonas sociais que se prolongam até à cozinha, a meio do edifício. É uma área que, segundo Marco, “tem cada vez mais importância” e deve ter uma relação próxima com os outros espaços. Na outra ala, estão os quartos, com acesso à suite, closets e casas de banho privadas.

“Quando visitamos uma zona de montanhas, há uma vista natural. Se, a partir desse ponto, colocamos um miradouro, passamos a olhar para a paisagem porque somos convidados a fazê-lo”, acrescenta. E foi isso que tentou fazer nesta espécie de miradouro controlado com o rio no horizonte.

Concluída a obra, o responsável descreve-a citando o arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer. Segundo um dos grandes mestres, um projeto pode ser desenvolvido em dois ou três dias, aos quais são somados “todos os anos que estão para trás”.

“A envolvente, o terreno e o edifício são mais importantes que os arquitetos — temos que humanizar os processos”, conclui Marco. No final, os três objetivos principais foram riscados da lista: respeitar a paisagem, trabalhar com uma tipologia clássica e encontrar o equilíbrio entre forma e funcionalidade.

Carregue na galeria para ver mais imagens da casa, captadas pelo fotógrafo Alexander Bogorodskiy.

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