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Decoração

Este edifício de fachada curva em Ponte de Lima ganhou um prémio de arquitetura

O condomínio Aurora 10 nasceu para transformar a envolvente “com grande leveza”. A obra “atravessa as fronteiras” entre o público e o privado.

Tiago do Vale não esconde que, enquanto arquiteto, se sente, muitas vezes, limitado pelas regras de cada loteamento. Entre formalidades como o número de apartamentos e a área de construção permitida, porém, há algo que o move muito mais nestes desafios. Aconteça o que acontecer, tem de sentir que cada edifício contribui para o espaço urbano em que se insere.

Geralmente, explica à NiT, aposta em construções que representem “algo que estivesse a faltar na envolvente”. Afinal, não deve existir como um elemento passivo e isolado, mas como uma obra “que possa participar na rua”, sublinha.

Esta é uma das formas que encontra para descrever o condomínio Aurora 10, que nasceu banhado pelo rio, em Ponte de Lima, Viana do Castelo. O projeto conquistou o primeiro lugar na última edição dos House Awards 2025, na categoria de Condomínio e Apartamento, onde foi reconhecido por um  painel de especialistas globais pela  “excelência na arquitetura e no design residencial”.

“O edifício nasce de uma tentativa de integração com o que está à volta, reproduzindo os ritmos horizontais dos restantes prédios com a verticalidade das ruas”, acrescenta, sublinhando que, muitas vezes, “estes lotes funcionam de forma independente” e, ainda que partilhem o mesmo desenho, “não se relacionam entre si ou até com o que está à volta”. 

Uma das formas que encontrou para reproduzir este ritmo foi através do tratamento da fachada, onde várias formas curvas foram introduzidas para romper com um possível sistema monolítico. Através da ondulação das varandas, procura-se um “delicado jogo entre a sombra e a luz natural”.

Descrito como um “objeto rico, abstrato e de grande leveza”, este edifício, concluído em 2024, assenta sobre uma base de granito de extração local. “Ponte de Lima tem uma cultura construtiva muito própria, focado nesta rocha mais amarelada, então o acabamento ajuda a criar uma relação com o solo”, observa Tiago. 

Mais tarde, foi proposto um revestimento pintado de branco “porque não seria pragmático ter toda a superfície em granito” . A solução mais viável, quer para maximizar o jogo de luz ou por contenção de gastos, passou por uma paleta mais clara e silenciosa, tanto no interior como no exterior.

A relação com o exterior.

Como as calçadas que margeiam a rua se estendem, numa fase inicial, até uma galeria comercial aberta ao público, culminando num acesso que funciona como escada e auditório, foi importante para o gabinete Tiago do Vale Arquitectos “atravessar as fronteiras do domínio público e privado.”

Se, por um lado, “todas as lojas têm uma enorme transparência para a frente e para as traseiras, graças às paredes de vidro”, na zona dos apartamentos cria-se outra relação. “Embora também exista uma grande transparência, as guardas opacas criam um filtro para que não sintam que o espaço é devassado pelo exterior.”

Ao mesmo tempo que “se tira partido da vista” privilegiada, evita-se o risco de que os moradores do condomínio se sintam “demasiado expostos”, até porque a zona da fachada, que se sente protegida pela relação com os pisos interiores. 

Graças à estrutura simples e regular, o arquiteto também conseguiu otimizar ao máximo o espaço útil destinado aos usos principais. Os apartamentos de três cómodos, por exemplo, receberam um espaço adicional e sem função, que não só separa a entrada da área de distribuição para os quartos, como pode funcionar como um escritório, oficina ou biblioteca.

Em cada apartamento, tentou sistematizar-se o máximo possível de forma a “criar economias de escala”, confessa. Há duas tipologias de casa de banho que se vão repetindo e, no caso das cozinhas, a fórmula é igual em todas as casas. Existem, porém, vários apontamentos diferenciadores.

“O que é mais característico no nosso ADN é este desejo de trabalhar em todas as escalas, com todo o tipo de programa e com vários tipos de expressão artística”, conclui o arquiteto, acrescentando que foi esta flexibilidade que permitiu ao gabinete chegar um desenho “simultaneamente simples e complexo” que cruza rua e edifício.

Carregue na galeria para ver mais imagens do Aurora 10 do fotógrafo João Morgado.

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