Para Iva Viana, o gesso nunca é apenas matéria-prima, é o início de um mundo de possibilidades. Pode transformar-se numa flor, ocupar uma parede inteira ou prolongar-se pelo teto de uma divisão, mas há uma constante: o volume e a forma só ficam completos quando encontram a luz certa. É a partir dessa relação entre matéria, espaço e sombra que a artista desenvolve peças de decoração para casas, hotéis e outros projetos, sempre com o requisito de o processo criativo e desenho final partir dela.
Iva, de 45 anos, nasceu em Viana do Castelo. Licenciou-se em Artes Plásticas, na variante de Escultura, pela Faculdade de Belas Artes do Porto, e passou também pela Akademia Sztuk Pieknych, em Cracóvia, onde frequentou tecnologias de cerâmica, pedra e multimédia. O percurso profissional levou-a ainda a França, onde estagiou com o escultor Pierre Merlin, e a outros contextos internacionais ligados à criação artística.
Foi no final da formação académica que surgiu uma oportunidade que acabaria por marcar a sua relação com o gesso. Iva foi convidada para trabalhar como técnica de escultura numa empresa francesa especializada em estuque decorativo. Foram seis anos dedicados à empresa, experiência que descreve como “uma verdadeira escola” e que lhe permitiu aprofundar técnicas que ainda hoje fazem parte do seu trabalho.
Em 2013, decidiu criar o próprio espaço em Viana do Castelo. O atelier nasceu da vontade de explorar, com maior liberdade e autonomia, os conhecimentos adquiridos ao longo dos anos e de desenvolver peças de autor. Desde então, o trabalho tem-se dividido entre objetos, projetos decorativos e intervenções de maior escala, sempre com a combinação entre técnicas manuais de modelação e processos contemporâneos de fundição.
O espaço foi crescendo à medida que o trabalho também ganhou dimensão. Começou por ser pequeno, passou depois para um armazém maior e, em 2022, duplicou novamente de tamanho. Agora, Iva prepara-se para mudar outra vez de atelier, procurando melhores condições para trabalhar e receber quem quer conhecer o processo de perto.
É essa relação com o espaço de trabalho que levou a artista, há cerca de dois anos, a começar a abrir as portas do atelier ao público. Uma vez por mês, durante uma manhã de sábado, quem quiser pode conhecer o lugar onde as peças são criadas. A ideia nasceu de uma vontade pessoal. “Eu tenho a necessidade de visitar o espaço de trabalho e gosto de conhecer os ateliers de outros artistas, por isso percebi que outras pessoas poderiam ter curiosidade”.
Depois das primeiras sessões, começaram a surgir pessoas interessadas em comprar algumas das peças que encontravam no atelier, levando Iva a criar uma vertente mais acessível do negócio. Hoje, o espaço funciona simultaneamente como lugar de criação, produção e encontro com clientes. A próxima abertura acontece a 3 de outubro.
As peças originais de Iva
Antes de uma peça chegar a uma nova casa, há uma história para conhecer. Iva trabalha com clientes particulares, mas também com empresas e outros profissionais, e muitos dos projetos começam com uma visita ao atelier. “Aqui é essencial descobrir a história do cliente, ouvi-los”, explica à NiT. É a partir dessa conversa que começa o processo criativo, em que não procura receber ideias dos cliente, preferindo interpretar aquilo que ouve e vê.
“Eu nunca aceito a ideia do cliente”, diz. A frase pode parecer contraditória quando se fala de peças personalizadas, mas a intenção é precisamente essa: a personalização não significa copiar um desenho ou executar uma encomenda tal como foi imaginada por outra pessoa.
Depois de o projeto ser adjudicado e aprovado, começa a criação. Dependendo da peça, pode ser necessário desenvolver moldes específicos em silicone ou fazer reproduções em gesso. É uma combinação entre desenho, escultura e trabalho técnico, com diferentes fases de acabamento até chegar ao resultado final.
Atualmente, o gesso representa cerca de 95 por cento da matéria trabalhada no atelier. A escala de algumas peças torna evidente o trabalho necessário, em que um painel de dois ou três metros representa cerca de quatro semanas de elaboração, tendo em conta que vai alternando entre projetos e, por vezes, deixa uma peça em pausa para regressar mais tarde com outro olhar.
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É também nos grandes painéis e intervenções que se percebe uma das características mais marcantes das criações: a ausência de cor. As obras de grande volume são brancas, porque o objetivo não é criar um efeito cromático, mas explorar a forma e a textura. “Não estamos a falar de esculturas, estamos a falar de volume. E aqui não importa a cor”, destaca à NiT.
“O que importa é a luz e a sombra, é isso que desenha a peça”. Assim, a iluminação passa a fazer parte dos projetos, influenciando a forma como os relevos ganham profundidade ou como surgem as sombras que definem a obra. Por isso, uma peça de Iva não é pensada de forma isolada: é desenhada para dialogar com o espaço onde será instalada.
A preocupação é levada ao ponto de, atualmente, a artista estar a trabalhar com um designer de luz para estudar a iluminação de alguns projetos. A intenção é que a luz não seja apenas um elemento funcional, mas ajude a revelar aquilo que está escondido nos volumes e nos relevos.
Um catálogo com painéis e flores tridimensionais
O portefólio de Iva inclui, entre outros trabalhos, painéis e tetos para o Hotel Four Seasons, em Londres, o Hotel Memmo Príncipe Real, em Lisboa, o My Story Hotels, na Praça da Figueira, e vários projetos no Chiado, incluindo o Ivens Arte. Há ainda trabalhos realizados em França e Angola.
Para quem não procura uma peça criada especificamente para um determinado espaço, existe também um catálogo com objetos e painéis já desenvolvidos. A oferta inclui propostas como os painéis Oceano, Flor, Bananeira, Liberdade, Príncipe, Magnólia, Nortada, Rosa de São Tomé, Mikado, Pratas e Geométrico, além de folhas, candeeiros, pratos, pequenas esculturas e outros objetos decorativos. Os painéis disponíveis têm preços entre os 350€ e os 750€, segundo a artista.
As flores são outra das portas de entrada para este universo. A ideia começou em 2013, quando Iva decidiu criar uma flor por ano. “A ideia era ter uma flor por ano”, recorda. O objetivo era desenvolver peças pequenas e acessíveis, que pudessem chegar a mais pessoas e, ao mesmo tempo, levar o nome do atelier para diferentes casas, custando 62€.
O conceito acabou por crescer e transformou-se numa espécie de coleção. Atualmente, entre os modelos disponíveis nos pontos de venda encontram-se Camélia, Magnólia, Rosa, Lótus, Primavera, Violeta, Papoila, Brava e diferentes versões da Roseta, além de pratos de flores. As peças têm várias dimensões e podem ser escolhidas em diferentes cores.
É aí que surge uma personalização diferente daquela dos projetos exclusivos. “A pessoa pode escolher a peça, pode escolher a cor”, explica Iva. Não é uma obra criada especificamente para aquele cliente, mas a possibilidade de combinar modelo e cor acaba por tornar cada escolha diferente.
As peças destinadas aos pontos de venda estão disponíveis nas lojas de Viana do Castelo, Braga, Santa Maria da Feira, Coimbra e Lisboa, segundo o site oficial. O atelier indica ainda condições especiais para profissionais.
Agora, o atelier prepara-se para uma nova fase, com a mudança para um espaço maior. Sendo ali que continuará a desenvolver o trabalho de Iva Viana: entre moldes, ferramentas, gesso e peças que encontram a luz certa da divisão.
Carregue na galeria para conhecer melhor o trabalho de Iva Viana.








