Decoração

Já foi um contentor. Agora, é uma casa “com vista para as estrelas”

É feita de madeira e conta com pormenores de ferro que já não se veem atualmente. Tem apenas 15 metros quadrados.
Em tempos, foi um contentor.

Visto de longe, parece um pequeno barracão retangular. Afinal, tem apenas seis metros de comprimento por 2,50 de largura. Contudo, ao contrário do que aparenta ser, trata-se uma casa — e mora lá mais do que uma pessoa. Começou por ser um contentor que servia como “sala de arrumos” no atelier de Madeiguincho, de Gonçalo Marrote, e hoje é uma tiny house habitável e confortável.

O objetivo final da construção é que seja usada como Airbnb. No entanto, atualmente, o cliente vive lá com a mulher e os dois filhos. Ou seja, quatro pessoas, em 12 metros quadrados. Alguns podem considerar estranho, mas é uma opção cada vez mais comum. “Há muitas pessoas a viver permanentemente nas nossas casas pequenas”, assegura Gonçalo, em entrevista à NiT.

O imóvel é verdadeiramente funcional e até tem direito a nome — “Cargo”. Conta uma casa de banho, uma cozinha equipada com frigorífico e placa de indução, bancos que se transformam em camas de solteiro e mais uma de casal. O melhor é a possibilidade de aceder ao “telhado”, graças a um escadote afixado à parede, no exterior. “Serve para contemplar as estrelas, durante a noite.” É uma das características distintivas do antigo contentor marítimo. “Foi feito a pedido do cliente. É algo que, à partida, não seria assim tão óbvio”, explica.

Trabalhar numa dimensão pequena não significa que seja mais fácil. O processo envolve várias etapas, desde o corte da chapa metálica para “definir os vãos e janelas”, até à aplicação de isolamento para proteger do frio e da água. O chão foi feito com viroc, um material que dá ao espaço um visual de cimento.

Casa Cargo
Tem apenas 12 metros quadrados.

As paredes foram revestidas com madeira criptoméria, uma espécie florestal dos Açores, queimada com uma técnica japonesa para garantir maior durabilidade. Além disso, as paredes da cozinha, do quarto e as telhas são feitas de madeiras exóticas reutilizadas, que foram encontradas na carpintaria. Para as frentes do mobiliário, optaram por policarbonato, conferindo um aspeto translúcido, e utilizaram ainda alguns detalhes de cortiça na cama.

“Tentámos fazer as portas e as janelas de forma diferente. São de ferro, com perfis finos — algo já não é permitido nas casas convencionais, porque não têm os parâmetros de conforto atuais”, conta o arquiteto. “Contudo, evita recorrer ao alumínio e PVC, como se vê muito atualmente”.

“Quisemos apostar numa estética que era muito comum há cerca de 50 anos. Atualmente, com a regulamentação em vigor, fica tudo muito ‘quadrado’, então quisemos pegar mais nesse lado criativo”. Precisamente por terem apenas as imposições relacionadas com questões de segurança, Gonçalo consegue “explorar mais livremente este tipo de caminhos”.

Apesar das dimensões reduzidas,  as construções exibem uma enorme liberdade criativa. “Sentimo-nos desafiados quando nos questionamos como iremos criar um espaço confortável numa área tão restrita. Temos de pensar e desenhar tudo numa lógica de otimização — e é isso mesmo que torna tudo mais interessante e entusiasmante”, sublinha.

A Madeiguincho já construiu cerca de 20 tiny houses e não pretendem ficar por aqui. A empresa fundada em 2016 está a projetar uma casa-barco — que será uma estreia para o arquiteto —, outra na árvore e, por fim, uma flutuante. 

“Há cada vez mais procura e sentimos que as pessoas querem desconectar-se cada vez mais da cidade, ao mesmo tempo que se ligam à natureza — e as nossas casas permitem que isso aconteça”, contava Gonçalo à NiT em 2021, reforçando hoje as suas convicções da altura. 

Tudo começou com o seu avô, quando se mudou de Vila Real para Cascais, nos anos 60. Mal ele sonhava que o mais importante que levaria consigo seria a arte de trabalhar a madeira — tradição que passou de pai para filho e que deu azo à Madeiguincho. Hoje, a empresa cria casas móveis únicas e personalizadas. Refúgios de madeira onde o conforto é (quase) tudo o que importa. 

Carregue na galeria para ver imagens de outras tiny houses da Madeiguincho.

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