Decoração

Maximalismo: a tendência anti-Marie Kondo que celebra a tralha e a desarrumação

Papéis de parede coloridos, bibelôs por todo o lado e uma renúncia ao minimalismo. Esta estética vai dar que falar em 2021.
Quanto mais quadros, melhor.

No seu livro “Loved Clothes Last”, Orsola de Castro escreve: “Como uma confessada acumuladora de roupas, não sou fã de organização.” A escritora é conhecida por ser uma espécie de anti-Marie Kondo e gosta de armazenar peças usadas para as procurar passados alguns anos. “A sensação é a mesma que ser contactada por um velho amigo”, acrescenta.

A sua experiência é simples: lá porque um objeto não nos faz sentir alegria agora, isso não quer dizer que não o faça no futuro. Para ela, esse motivo é mais do que suficiente para o guardar. 

Este tipo de pensamento parece ser uma das grandes tendências do momento no mundo da decoração. Em entrevista à “BBC“, o artista espanhol Juanjo Fuentes mostrou a sua casa no centro de Málaga, onde quase todas as superfícies estão cobertas por bibelôs e pequenos objetos. 

“Sempre fui fascinado por todos os tipos de objetos: brinquedos, livros ilustrados, postais, porcelanas”, explicou no artigo publicado na terça-feira, 4 de maio. “Compro coisas em mercados de rua e sempre gostei de guardar os objetos de família. E tenho muita sorte porque os meus amigos oferecem-me coisas que pertenceram aos seus familiares — são mais minimalistas do que eu.”

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As paredes da casa de Juanjo Fuentes estão cobertas de quadros.

Os quartos estão preenchidos por uma abundância de luz, padrões, quadros trocados com outros artistas. Mas a “BBC” conta que ele não é o único a preferir uma estética desorganizada e eclética. No Reino Unido, a história da remodelação do apartamento do primeiro-ministro Boris Johnson e da sua noiva, Carrie Symonds esteve em destaque no “The Guardian“. Foi feita pela designer de interiores Lulu Lyte e aproxima-se muito da tendência do maximalismo.

A pandemia alterou a forma como nos relacionamos com o mundo e as nossas casas. As divisões que ocupávamos apenas poucas horas por semana precisaram de se tornar multifuncionais e servir como escritórios, creches, campos de batalha e santuários. Para muitos, isso foi sinónimo de limpezas profundas e doações a instituições. Para outros, foi rodearem-se de coisas de que gostam.

Uma das principais características do maximalismo é a exuberância do choque entre padrões — algo evidente na casa de Fuentes. Já em Copenhaga, na Dinamarca, a galeria de design The Apartment foi considerada pelo “Financial Times” como uma das pioneiras do look confuso e assimétrico. Nada combina, mas tudo tem um aspeto maravilhoso.

Exuberância, complexidade, felicidade e a capacidade de contar histórias. Esta tendência de decoração distancia-se em tudo do minimalismo que tem vindo a dominar entre o design. A famosa guru da organização, Marie Kondo, tem sido uma das grandes impulsionadoras deste estilo ao motivar pessoas normais a livrarem-se de objetos que já não lhes “despertam alegria” (“spark joy” são as palavras que usa).

Claro que não podia durar para sempre. É difícil ser minimalista e manter a casa praticamente vazia. Aquilo que muitos propõem agora é aderir ao Cluttercore, um estilo de estética que promove o caos, cores vibrantes, texturas, padrões, estampados. É a predominância do kitsch sobre o clássico.

Este estilo de decoração em ascensão transforma uma pessoa normal num curador. É precisa muita criatividade para pensar onde por o quê, mas também o que os objetos dizem uns sobre os outros. O maximalismo tem vários benefícios. Todos os anos, as nações mais ricas do mundo deitam foram toneladas de coisas que acabam por ser despejadas nos países mais pobres e por estragar as paisagens locais.  Neste contexto, o maximalismo pode ser uma resposta revolucionária à explosão de tralhas que levanta estes problemas.

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The Apartment, em Copenhaga.

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