Decoração

Nini Andrade Silva: “Não sigo tendências, eu crio tendências”

A designer é uma verdadeira embaixadora de Portugal pelo mundo. Em novembro, recebeu o Prémio Femina 2022.
Distinguida nacional e internacionalmente.

É uma das mais prestigiadas e premiadas designers de interiores em todo o mundo. Depois de ganhar vários prémios, no dia 4 de novembro, Nini Andrade Silva foi novamente distinguida. Desta vez, com o Prémio Femina 2022, que reconhece “as notáveis mulheres portuguesas, lusófonas e não portuguesas, que dignificam Portugal e a Lusofonia”.

“O Femina tem estatuto de Interesse Cultural concedido pelo Ministério da Cultura e representa um reconhecimento do qual muito me orgulho. Gostaria, por isso, de agradecer a todos aqueles que, ao longo da minha carreira, têm contribuído para cada prémio ou reconhecimento”, lê-se na sua página de Facebook. A cerimónia, que aconteceu no Grémio Literário de Lisboa, distinguiu a designer na categoria de Empreendedorismo e Humanitarismo.

Este foi o pretexto certo para a entrevista da NiT com Nini Andrade Silva, que nasceu na Madeira numa altura que a palavra designer era uma expressão demasiado distante. Hoje, aos 60 anos, é considerada uma verdadeira embaixadora de Portugal.

Decidiu ser designer nos anos 1980, no Funchal. Porquê esta escolha?
Desde miúda que gostava de tudo o que era arte e pintura. Tinha um tio que era crítico de arte e que me dizia muitas vezes: “a menina vai ser uma grande artista”. É pena que não tenha chegado a ver essa concretização. Quando decidi que queria ser designer o meu pai ainda me perguntou se tinha a certeza de que não queria ir para arquitetura. Mas eu queria mesmo ir para o IADE estudar design.

Estudou então no IADE, mas não ficou por Portugal.
Não, quando terminei o curso, fui para Nova Iorque, depois para a Dinamarca (onde esteve dois meses e fez um curso de arranjos florais) e África do Sul (altura em que tirou um curso de pintura).

Voltou depois para a Madeira e foi aqui que começou o seu percurso profissional como o conhecemos hoje.
Exato. Quando voltei para a Madeira (no final dos anos 80), abri uma loja com o Stephen (van Blommestein), a (Isabel Borges) e o Augusto Jacqué, o nosso sócio brasileiro. Tinha uma linha muito diferente das linhas clássicas que se via no Funchal. Fomos, de facto, os primeiros a trazer algo completamente diferente para a Madeira.

Foi nesta altura que começou a receber prémios?
Sim, internacionais. Nessa altura, fiz a minha casa, tal como queria e concorri aos prémios Andrew Martin, em Londres. Pensei que se a fizesse bem, como a idealizava, estava no caminho certo. Lembro-me de que fui ao museu Victoria & Albert para saber quem seria selecionado e uma jornalista veio perguntar-me o que eu achava. Disse-lhe que seria eu ganhar. Ela perguntou como é que tinha tanta certeza e lembro-me de lhe responder: “Porque se não der certo, o que vou fazer? Tenho de ganhar.” [Risos.] Desde que comecei a aparecer nos livros do Andrew Martin foi tudo mais fácil. Começaram a aparecer mais clientes de fora, mas era muito para casas.

Quando é que começou a fazer hotelaria?
Certa vez, viemos a Lisboa para fazer a Lux Decor, na altura, na Cordoaria Nacional. O espaço era muito grande e muito alto e eu pensei: “Está na altura de fazer hotéis”. Depois disso, conheci o Diogo Vaz Guedes e fizemos o Aquapura Douro Valley, que é muito especial para mim. Naquela época, trabalhava muito na Ásia, na China, no Japão. Desenhei muitos móveis do hotel e fiz muitas coisas nas Filipinas, na China, na Tailândia. Enchi contentores sem ter a certeza de que os clientes iam comprar. Mas acreditava tanto naquilo que fazia, que era impossível falhar. Na altura, foi o projeto mais falado em Portugal e, mesmo lá fora, teve muita projeção. Abri depois o Atelier Nini Andrade Silva em Lisboa e começaram a aparecer mais prémios, como o do Fontana Park Hotel (“o primeiro Design Hotel a surgir no coração do moderno e eclético centro de negócios da capital portuguesa”, lê-se no site — e recebeu várias distinções como Melhor Design de Interiores para Bedrooms & Bathrooms pelos European Hotel Design Awards, em 2008 e o Melhor Design de Interiores da Europa pelos European & Africa Property Awards, em 2010). Tenho a sorte de que as pessoas gostem daquilo que fazemos.

Fala no plural. A quem se refere?
À minha equipa maravilhosa. O nome é de Nini Andrade Silva, mas por trás está uma equipa incrível com quem já trabalho há muitos anos e com quem partilho os mesmos valores de qualidade, rigor e de criatividade. É uma equipa muito grande constituída por profissionais altamente qualificados, desde arquitetos, engenheiros, economistas. De muitas profissões mesmo.

Em novembro de 2015 inaugurou o Design Centre, que conta com uma área expositiva, uma loja, uma cafetaria e um restaurante. O que é para si este espaço?
É uma ilha fora da ilha. Um cubo de vidro no meio do Atlântico. É muito simples, sem ser simplório. Tem a história dos garotos do Calhau e faz todo o sentido ser ali no porto do Funchal, porque era ali que paravam os navios que iam para a África do Sul — chamávamos-lhes Vapores do Cabo — e os miúdos vinham a meio da noite, com os pescadores, davam uns mergulhos para apanhar moedas (a chamada mergulhança). O Design Centre tem várias coisas em exposição, que são um pouco a história da minha vida. Mas, acima de tudo, destaco o que se sente lá: quero que seja um local de reflexão, quero que as pessoas se sintam lá bem. Neste espaço temos uma cafetaria e um restaurante onde as pessoas são sempre muito bem-vindas. Quem quiser conhecer-me, basta lá ir.

Qual a sua ligação à Madeira? Alguma vez se sentiu presa?
Eu sempre fui muito apegada à Madeira. É para cá que venho quando preciso de descansar. Digo que se voltasse a nascer, queria ser a mesma. Neste momento, estou a falar convosco e a olhar para o horizonte. E foi esta vista e este azul que me deram asas para voar. Ter crescido aqui, num meio pequeno, permitiu-me conhecer pessoas muito interessantes a nível internacional. Adoro a Madeira.

Já vez vários trabalhos na ilha. Um dos mais recentes foi o Savoy Palace, que é considerado um ícone da hotelaria clássica da Madeira. Como correu este projeto?
Foi o nosso maior projeto até agora. Durou três anos e estiveram 18 pessoas da nossa equipa envolvidos. Além da arquitetura de interiores e do design, funcionámos enquanto fornecedores de mobília. Sim, porque, quando comecei gostava de comprar as peças de design que existiam, mas hoje em dia faço as minhas próprias peças. Para o Savoy, inspirei-me na elegância dos espaços e no conforto sublimado pelos detalhes. Muito em harmonia com os recursos culturais da ilha, numa apaixonante viagem entre o património natural e imaterial existente. Há muita natureza, os túneis antigos, a Laurissilva e claro, o Bordado da Madeira. É mesmo muito especial.

Consegue destacar algum dos seus trabalhos como o preferido?
É difícil escolher os filhos preferidos. Até podemos ter uns que guardamos com maior carinho, mas não vamos admiti-lo. Gosto muito de todos.

Onde vai buscar a inspiração para continuar sempre a criar?
Inspiro-me no local, no vento e na terra, investigando a história e falando com as pessoas para compreender as raízes de cada destino ou lugar. Ainda agora, ao chegar à Madeira, estava a reparar no azul do mar e sei que tenho de fazer alguma coisa com ele. Até no lixo que as pessoas deitam fora eu encontro coisas. Bem.. na vida em si.

Os trabalhos do seu atelier são, na sua maioria, hotéis?
Fazemos também muitas casas, muito grandes, mas, como são projetos privados, não mostramos. Creio que fazemos 80 por cento de hotéis e 20 por cento de casas. Mas há casas privadas que parecem hotéis. E vamos dizer a verdade. Para mim, a grandeza não está no tamanho, mas na qualidade. E nós fazemos do maior ao mais pequeno, cada um com o seu orçamento e cuidado. Às vezes as pessoas dizem-me que não me pedem um trabalho por ser muito pequeno ou por ficar muito caro. E eu respondo: “mas já perguntou? Pergunte para saber”. Para a minha primeira casa, por exemplo, eu tinha o dinheiro para fazer os interiores e apaixonei-me por duas colunas. Mas se as comprasse, ia gastar o dinheiro praticamente todo. Sabe o que é que eu fiz? Comprei as colunas e um tapete — e dava-me grande felicidade chegar a casa e estar no meio destas duas peças. E depois fui comprando o resto, com calma. Com o mesmo dinheiro, a ideia ficou muito melhor. Às vezes, basta um detalhe.

Sente que é uma influencer de outros designers?
Eu não sigo tendências. Procuro criá-las. Mas acho que as pessoas é que têm de responder a isso. Há quem diga que criei o Ninimalismo, um minimalismo com alma.

Quem é a Nini?
Uma pessoa feliz e correta com os outros. Acho que consegui manter a minha dignidade e criatividade. Costumo dizer que vim ao mundo para criar e para ajudar os outros. Às vezes chamam-me para um trabalho e fico a pensar: “porque é que tem de ser pago?”. Gosto tanto de criar e esta barreira do budget, por vezes, torna mais difícil o trabalho.

É essa também a base do seu ativismo social?
Sim, é tentar ajudar ao máximo as pessoas que precisam.

A criação do “Garouta do Calhau” está muito associada a essa questão de ajuda?
Sim. Os meus trabalhos extra profissão são, muitas vezes, para ajudar esta causa.

Também dá muitas palestras em universidades e TED talks?
Acho que por viajar muito, ter conhecido já várias culturas e muitas vezes sozinhas vejo a vida de maneira diferente e tento transmitir umas perspetiva alegre. Tento tirar sempre o melhor do pior.

Nini, como vai ser o futuro do design e da arte?
Que a Nini Andrade Silva entre na vida digital. O foco é crescer e inovar, aceitar novos elementos que vejam o mundo de uma forma diferente. Eu sou uma workaholic, por isso, não me vejo a parar. Contudo, estou a preparar estes jovens todos para continuarem a marca, porque uma marca não deve parar só porque uma pessoa ou um nome param. A minha equipa é muito forte e segue a linha da Nini Andrade Silva. E serão eles a dar continuidade ao nosso trabalho. Tenho pessoas muito capazes e eu oriento-as sempre. Num futuro muito próximo espero construir um atelier de pintura. E quero ter mais tempo para me dedicar à escultura que eu adoro. Não sei se é para já ou não, porque continuo cheia de trabalho, mas a ideia é essa: ter mais tempo.

Recebeu recentemente o Prémio Femina. O que significou para si esta distinção nacional?
Não estava nada à espera. Pensei: “com tantas pessoas, fico feliz que me tenham escolhido a mim” Mas este é um prémio que não é só meu. É de toda a equipa e deixa-nos com a certeza de que estamos a fazer algo bom para chegar até aqui. Tenho a sorte de ter boas pessoas ao meu lado e agradeço-lhes a vida inteira.

Carregue na galeria para ver imagens de alguns dos melhores trabalhos de Nini Andrade Silva.

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