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ROCKWATTLET'S ROCK

Decoração

Nos Açores, este casal de 80 anos vive num “avião a sobrevoar a paisagem”

Depois de realizar o sonho dos pais, o arquiteto quis cumprir um último desejo dos avós. “O que importa é morrermos a sonhar”, disseram-lhe.

Quando deu por si a trabalhar, pela primeira vez, com um casal acima dos 80 anos, o arquiteto Gonçalo Blétière Lopes ficou particularmente emocionado com a mentalidade. “O que importa é morrermos a sonhar” tornou-se uma espécie de mote dos clientes que, na verdade, são os avós do criador.

O desejo foi cumprido entre rochas e vegetação seca e rasteira. A Casa CR nasceu num terreno na na Lagoa, na costa sul da ilha de São Miguel, nos Açores, rodeada por rochas de basalto. Adaptada à condição física dos donos, distribui-se num só piso em que “tudo é claro, acessível e contínuo”.

Este desafio é o segundo capítulo de um projeto que começou quando Gonçalo idealizou uma residência para os pais — “um objeto bruto, sólido e resistente” ao qual se dedicou em 2020, quando regressou ao arquipélago vindo de Nantes, em França. Nessa altura, fundou o atelier SO Arquitetura & Design, com o amigo Bruno Furtado.

“Tínhamos uma propriedade de família e, ao vendermos, houve a necessidade de criar duas habitações. Foi nesse seguimento que decidimos avançar com as duas”, explica Gonçalo à NiT, acrescentando que os clientes, embora tão próximos, “não foram nada esquisitos”. “Tinha apenas de ser 100 por cento prática”, acrescenta.

Tal como aconteceu no caso da Casa da Rocha Quebrada, a história dos avós foi crucial para tomar as decisões. O projeto tornou-se “uma metáfora subtil” da vida do avô, antigo piloto da Força Aérea, durante a guerra colonial. “Tem uma grande asa a pairar. Dizemos que é como um avião a sobrevoar a paisagem, como ele sobrevoava em África.”

Já a avó, artista plástica e a principal razão de Gonçalo ser hoje arquiteto, tem um atelier de pintura e escultura por baixo da piscina. “Por isso é que parece tão comprida. Quase metade da estrutura é formado pelo atelier. Só fizemos o espelho de água”, conta. 

Nesta moradia térrea, “tudo é claro, acessível e contínuo”. Uma das particularidades da planta é o facto de ser transparente, sem zonas opacas, devido às fachadas envidraçadas em contraste com a cobertura de betão. Abrem-se para o jardim, para a paisagem e, ao mesmo tempo, tornam a vivência mais funcional.

“Foi uma escolha propositada porque era importante que houvesse uma comunicação visual a tempo-inteiro”, justifica Gonçalo, de 29 anos. “Não há pontos mortos. Geralmente, entre as áreas sociais e os quartos há sempre uma zona de tradição. Aqui, não há espaços a mais. É tudo muito lógico.”

O pátio é a estrela.

No centro da moradia, um pátio tropical também transparente, “quase um aquário”, traz o exterior para dentro, garantindo luz natural, ventilação cruzada e uma ligação constante com a natureza. De qualquer ponto da casa, é possível observar este canto.

Os moradores dizem que o edifício se assemelha a uma nave espacial. Por sua vez, Gonçalo Blétière Lopes destaca os dois corredores paralelos “com duas portas nos corredores”, que nos recebem nas áreas mais íntimas. “Cria-se a sensação de que saímos daquela zona central e cheia de ação e, de um momento para o outro, entramos numa espécie de cápsulas”.

Nesta zona, a frieza é substituída pelo calor dos revestimentos de madeira, “que molda um ambiente mais sereno e acolhedor” e reforça a presença de elementos naturais. O mais curioso, segundo Gonçalo, que dormiu num dos quartos, é que “já temos de estar impecáveis, porque temos toda a gente a olhar para nós”, recorda. “É uma sensação estranha.”

Simples e inovadora em simultâneo, a Casa CR foi recebida com entusiasmo pelos avós do criativo. “Nota-se que estão orgulhosos do seu lar. Gostam muito de viver cá, dizem que é confortável e fácil de habitar. Sentem mesmo que tudo foi criado a pensar neles.”

Haverá um novo capítulo para esta trilogia de habitações para os familiares de Gonçalo Lopes, desta vez para o tio, que tem um pedido ainda mais original “É muito fã de Star Wars e disse-me que quer mesmo viver numa nave espacial”, revela. 

Carregue na galeria para ver mais imagens da Casa CR, captadas por Ivo Tavares Studio — e recorde a entrevista da NiT ao fotógrafo.

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