Decoração

O apartamento com paredes curvas que parece saído de um filme de Wes Anderson

A casa em São Sebastião, Lisboa já teve muitas vidas. Agora vive das paredes sinuosas em tons de rosa e azul.

Desde que o edifício foi construído, no século XX, as paredes receberam inúmeros proprietários e deram lugar a vários usos. Se no início tinha uma função habitacional, com o passar dos anos também serviu como sede de uma banda filarmónica e chegou a ser usada como escritório.

Quando os arquitetos Mafalda Ribeiro Ambrósio e João Gomes Leitão visitaram o apartamento, foram as divisórias de vidro típicas dos anos 90 que lhes despertaram a atenção. O primeiro passo foi demolir as estruturas existentes e aproveitar o espaço amplo que tinham à sua frente, reinventando-o mais uma vez.

A nova vida do apartamento em São Sebastião, no centro de Lisboa, é marcada pelas paredes curvas, que ligam e quebram as divisões em tons de rosa e azul. Concluído em 2023, o projeto invulgar é marcado por um cuidado cénico que remete para os filmes de Wes Anderson.

“O cliente apresentou-nos algumas premissas de versatilidade e otimização do espaço, mas deu-nos bastante liberdade”, explica à NiT a responsável do atelier Ala.rquitectos, que optou por erguer paredes, na sua maioria com ângulos de 90 graus, como solução para alguns dos obstáculos.

O formato sinuoso das novas estruturas serviu para esconder um pilar escondido na sala e tornar a circulação mais fluida. Na entrada, por exemplo, comprimem-se de forma a abrir para a sala de estar e a otimizar a utilização das áreas sociais, que fluem a partir deste efeito serpenteante.

As paredes facilitam a circulação.

Nesta parte do processo, introduziu-se uma espécie de caixa na cozinha em tons de azul, para criar a divisão entre a sala de estar e de jantar. Foi aqui que a paleta de cores começou a aliar-se à geometria para definir no que é que se transformaria esta habitação com cerca de 150 metros quadrados.

“Queríamos trabalhar muito as madeiras, então o tom quente surgiu da necessidade de usarmos tons frios. Encontrámos o azul no terrazzo da cozinha”, explica. “Conjugámos com outro tom frio, mas que fosse neutro o suficiente para contrastar com o azul e combinar com os materiais.”

“Achámos que tudo resultava em conjunto”, acrescenta sobre a escolha da madeira para o pavimento da sala ou do marmorite para a cozinha. Já na casa de banho introduziram o latão, cujos tons dourados funcionavam bem com as escolhas arrojadas.

Os tons de rosa que envolvem a estrutura contêm a parte mais privada da casa. Assim que se entra há dois quartos e uma área que funciona como escritório ou biblioteca, “mais própria do campo de entrada”, refere. O espaço divide-se ainda pela cozinha, em diálogo com as salas de estar e de jantar, e ao fundo surgem duas suites.

“[O pátio] é o elemento chave”

Uma das divisões privadas tem acesso para o pátio externo, que inicialmente era o ponto onde os arquitetos queriam concentrar-se mais. Optaram por azulejos com brilho e um terrazo escuro com muitas plantas à mistura.

“Quando fizemos a demolição das divisórias, o espaço era muito comprido e tinha pouca luz. Surgiu a necessidade de criarmos um espaço para melhorar a proporção do espaço e introduzir luz natural na parte que é mais prejudicada”, explica.

O pátio sóbrio contrasta com o interior.

A introdução do pátio não só permite introduzir luz e ventilação, como prolonga as zonas de estar. “É um ponto especial do projeto. Quando as portas estão abertas, é tudo muito fluido e contínuo”, acrescenta, reforçando que ajuda a distribuir e a organizar o programa geométrico.

Apesar dos obstáculos e várias paragens, o projeto desenvolveu-se em cerca de dois anos, tendo começado em 2021. No final, o orçamento rondou os 100 mil euros a contar com o mobiliário, todo ele pensado por Mafalda e João.

“Somos muito fiéis aos materiais, sobretudo quando nos permitem levá-los até ao design final de uma estante ou de um móvel”, conclui. O apartamento em São Sebastião é um reflexo. “Foi [um trabalho] exaustivo porque as dimensões da carpintaria foram pensadas ao pormenor e para cada sítio. Acompanhamos os projetos do início ao fim.”

Carregue na galeria para ver mais imagens da casa, captadas por Do Mal O Menos.

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