Decoração

O apartamento de inspiração japonesa em Alvalade com uma passagem secreta

A casa dos anos 70 pertencia à avó de um dos arquitetos. O casal demoliu as paredes para tornar o espaço mais amplo.
O pilar em forma de T dá o nome à casa.

Da febre das alcatifas ao papel de parede, o espírito dos anos 70 imperava por toda a casa da avó de Margarida Fonseca. Quando herdou o espaço diminuto, a arquiteta e o companheiro, Mário Serrano, transformaram-no à sua imagem para criar um espaço moderno onde podem viver com os dois filhos.

“Tinha uma estrutura tipicamente portuguesa. Respeitamos a linguagem estética das décadas passadas, mas não nos interessada manter o lado mais datado dos materiais”, começa por contar à NiT o co-fundador do atelier Duoma. “Tínhamos liberdade para experimentar coisas novas.”

Após a renovação, o Apartamento T, localizado no bairro de Alvalade, em Lisboa, mistura a organização japonesa, a o modo de habitar do centro europeu e a decoração escandinava. Uma simbiose num espaço de 120 metros quadrados onde todos os materiais são portugueses — e cada centímetro é aproveitado ao máximo.

O primeiro passo foi demolir as paredes que separavam as salas de estar e jantar, ampliando o espaço. Uniram todas as divisões, abdicando de uma série de halls, corredores e entradas, para que “não houvesse espaços desperdiçados”, explica Mário. Sem delimitações ou áreas de circulação, “ganha-se bastante área face à dimensão inicial.”

A ideia surgiu do centro europeu, mais precisamente de Zurique, na Suíça, onde o casal viveu durante cinco anos. Nesta zona, o modo de habitar é “descomplicado e livre”, onde se valorizam uma disposição o mais aberta possível em detrimento de vários espaços secundários.

O ponto de partida para criar a planta foi o pilar central, em forma de T, que dá nome à habitação. “Era preciso atribuir-lhe sentido e uma razão de ser”, então picaram-no para deixar visível o betão robusto. É a partir dele que gravitam os restantes espaços.

Uma viagem ao Oriente

Outra das influência internacionais — e, possivelmente, a mais forte — é a cultura nipónica, que é sempre um motivo de fascínio no ocidente. Margarida e Mário tiveram a oportunidade de viajar até ao Japão, em 2018, na altura em que começaram a resolver este puzzle. Porém, só ficou concluído em 2021.

“É uma cultura com um modo de estar cerimonial e muito próximo”, diz. Então foram buscar referências à cerimónia do chá. Nesta tradição, num mesmo espaço, cada quarta parte do pavimento (ou do tapete tatami) desempenha uma função específica: entrada, convidado, convidado especial e anfitrião.

Nesta renovação, a lógica é a mesma. Cada quarta parte do pavimento desempenha um papel: entrada, hall de circulação, sala de estar de sala de jantar. São as quatro zonas sociais que coabitam em torno do pilar central e a gravitação é marcada através do pavimento de madeira, que muda de direção.

Apartamento T
A viga é o centro gravitacional da planta.

Os sentidos foram acentuados na linha de bronze, que une as retas do soalho. Os apontamentos vão buscar inspiração ao Kintsugi — ou emenda de ouro — uma arte japonesa que consiste em reparar uma peça de cerâmica quebrada com laca esplanada ou misturada com pó de ouro, prata ou platina.

Para contrastar com o “lado mais tosco e rugoso” do pilar, o grande protagonista da casa, optaram pela delicadeza das paredes lisas retocadas com um tom bege e a pureza das madeiras, num tom amarelado. Nesta simbiose, surge um contraponto com o wabi-sabi nipónico, uma filosofia que consiste em encontrar a beleza na imperfeição das coisas.

Já a decoração do apartamento transmite um pouco do estilo escandinavo. No tom das paredes, os arquitetos procuraram aproximar-se dos tons neutros e terra priorizados nos países nórdicos, criando homogeneidade com os linhos e os têxteis minimalistas e com uma aparência fe.

Apesar da inspiração, todos os materiais, passando pelo carvalho do soalho, são de origem nacional. Procuraram sempre opções práticas e opcionais, evitando o excesso de móveis desenhados, e apostando que permitissem um orçamento flexível, embora prefiram não divulgar o investimento.

A entrada secreta

É então que, numa das pontas da sala, surge uma estante que esconde o maior mistério do apartamento. As prateleiras cheias de livros dão acesso a um espaço escondido — uma espécie de entrada secreta —, cujas portas rebatíveis se encontram ocultas nas paredes laterais.

A passagem secreta esconde-se atrás dos livros.

A divisão extra destaca-se pela sua flexibilidade, uma vez que está colada à zona da sala e segue em continuidade. Pode abrir-se, criando uma ligação ao espaço social, ou fechar-se na sua totalidade para dar origem a um espaço privado. Tudo depende da necessidade dos proprietários.

“A ideia tem influência na habitação coletiva em Zurique, que estão na Vanguarda deste tipo de construções”, diz. E pode ser um pouco de tudo: um quarto infantil ou de hóspedes, um espaço para brincar, um escritório, uma sala de música, entre muitas outras opções. Até durante o dia pode ser adaptada num ápice.

Neste momento, o objetivo é que se torne o quarto de um dos dois filhos do casal. Quando os miúdos crescerem e saírem de casa, este canto misterioso pode voltar a ser uma parte da sala ou ganhar uma nova vida.

A ideia é manter este apartamento o mais mutável possível, “ver como a vida se desenrola” e o que vai surgindo. Assim como a porta secreta, a casa vai transformar-se ao longo da vida e a ideia é que continue a dar sempre resposta às necessidades da família. Quando deixar de fazer sentido, vira-se tudo do avesso.

Carregue na galeria para ver mais fotografias do Apartamento T, captadas por Maria Bicker, e veja mais detalhes de cada divisão.

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