Decoração

O decorador que transforma todos os casamentos num cenário de conto de fadas

João Curvelo fez dos arranjos florais megalómanos o seu cartão de visita. Mistura arquitetura e decoração para cumprir sonhos.
Muitas, muitas flores.

Filho de dois médicos, ambos portugueses, João Curvelo acreditava que o seu futuro também passava pela medicina. Quando não passou no exame final que ditava a sua entrada no curso, largou as ciências e percebeu que, afinal, a sua missão era bastante distinta da que os progenitores escolheram.

“Eles trabalham com as pessoas nas suas piores fases. Eu prefiro trabalhar com o sonho — e ajudá-las a festejar os pontos altos da sua vida”, conta à NiT.

O criativo tornou-se um dos nomes mais requisitados para a decoração de eventos, destacando-se pelos casamentos em destination weddings e roteiros de charme. Já conta com mais de mil trabalhos no seu portefólio e chega a preparar a cenografia de três cerimónias por dia. As localizações vão do nordeste brasileiro a várias partes do mundo — e Portugal já está na lista, com agendamentos marcados para o final do ano.

Ao crescer em Rio Grande do Norte, no Brasil, já era um miúdo com gosto apurado. Algumas das suas melhores memórias são os momentos em que criava maquetes com o avô ou via a avó a pintar porcelanas e quadros. “Em vez de colecionar berlindes, passava por quiosques e comprava revistas de arquitetura e decoração que acumulava no meu quarto”, recorda à NiT o artista, atualmente com 35 anos.

João tinha 22 quando se formou em arquitetura e urbanismo. Seguiu-se um estágio num ateliê de arquitetura onde começou por ser desafiado pelo chefe a ajudar na decoração de um evento que tinham preparado. Até podia ser um caso isolado, mas o jovem gostou tanto experiência que nunca mais parou de acumular histórias em nome próprio.

João começou aos 22 anos.

Tudo começou em 2013.  No seu primeiro casamento, em Maceió, na costa leste do Brasil, tinha em mãos um casamento para cerca de 200 pessoas. “O orçamento era quase impossível para trabalhar”, confessa, mas valeu-se do improviso para dar resposta ao briefing: o casal queria uma atmosfera clássica, em tons de branco e verde, num espaço de festas de um condomínio.

“Tinha de transformar aquele local minúsculo num salão para festas. Usei tudo o que tinha, como várias poupanças pessoais, e disse que ia dar tudo para fazer o meu melhor”. E assim foi. Dos vasos aos uniformes, fez um serviço completo. O que mais chamou à atenção dos presentes, porém, foi o mix and match dos arranjos florais que se tornaram parte do ADN do artista.

Nesse primeiro ano, encontrou vários clientes entre os convidados e fez mais de 30 casamentos. O know-how de arquitetura tornou-se o seu principal trunfo, visto que o ponto de partida é sempre a disposição do cenário. “Não vale a pena estar tudo bonito se não funcionar e não for fluido. Na hora da montagem é preciso pensar em tudo. Como é que vai funcionar o serviço do bar, por exemplo?”

O autodidata, que ainda fez um curso de arte floral em Nova Iorque, em 2018, aborda cada projeto como se definisse a arquitetura da casa da cliente. Além da paleta de cores ou da escolha das florais, trata da escolha do mobiliário, das estruturas principais e da iluminação. Foi a demanda por este serviço que o levou a criar uma empresa homónima, em 2014.

O decorador quer oferecer sonhos

Em março, João recebeu o pedido inesperado de uns clientes franceses que moravam em Londres. Decidiram casar numa praia no Rio Grande do Norte, no Brasil, e “a operação foi mais complicada, porque estavam longe e fizemos tudo online”, conta. “Confiaram em nós e só vieram para casar. Aprovaram todos os materiais e as ideias, mas só quando chegaram e viajámos todos para lá é que me conheceram e viram realmente o resultado.”

No final, com várias línguas à mistura, “toda a gente se entendia” porque há muito que os projetos da empresa já têm uma linguagem bastante própria. A reação da noiva, à semelhança da maioria das mulheres com quem o criativo se cruza, não podia ter sido mais emotiva. Mais uma vez, ficou cumprida a sua missão de oferecer um sonho a alguém.

“É comum ficarem sem saber o que dizer, porque muitas ambicionam este cenário da Disney que parece saído de um conto de fadas”, explica. “Querem tornar-se uma princesa naquele dia, então sentimos que é importante materializar isso. Quando pergunto como estão, dizem que estão ansiosas. Eu digo que não pode ser, que têm de estar empolgadas.”

As cores mudam, mas aquilo que se mantém uma constante nos trabalhos de João é o maximalismo. Sob o mote de que mais é mais, são procurados por pessoas que aprovam a ideia de que arranjos florais nunca são demais — de vários tamanhos, cores e formas. Acrescentam-se dezenas de candeeiros originais, mesas quilométricas, arcos sumptuosos e mesas pensadas com o máximo de detalhe possível. Todos os detalhes importam.

Podia ter saído de um filme.

“Já tivemos casamentos com mais de 100 arranjos [florais]. Muitas vezes, é preciso receber dois camiões inteiros com todas as espécies de flores imagináveis”, acrescenta. “Vamos preenchendo para ficar harmónico dentro do que é pedido. Se tiver teto e paredes, vamos medindo e colando aos poucos para que tudo faça sentido.”

Quando não existe uma estrutura, explica, é preciso construir tudo do zero. Nestes casos, fazem uma visita à quinta do cliente e, muitas vezes, percebem que é possível fazer um piso diferente ou outro tipo de anexo para complementar o cenário. É neste estudo preliminar que percebem todos os requisitos, como a necessidade de um estacionamento.

“A pior parte é quando a cliente quer muito alguma coisa e sabemos que não funciona. Digo que temos de adaptar e ouvem-nos quase sempre, porque sabem que são dicas técnicas. Há casos em que querem mesmo da forma como imaginam e defendemos que é sempre o cliente que dá a última assinatura.”

Outros dos fatores a ter em conta é o contraste cultural, visto que o roteiro cerimonial varia para cada país. Enquanto no Brasil, a cerimónia é seguida por uma festa completa, em Portugal há várias etapas após o casamento. “É mais segmentado, então o desdobramento e a facilidade de ajuste é importante.”

João continua a colocar os pioneses no mapa à medida que que os noivos os levam para outras cidades ou partes do mundo. Um dos seus grandes objetivos é ter uma sede em Portugal e dividir o seu trabalho a atravessar o Atlântico com as suas flores favoritas sempre consigo. E, seja montanha ou perto do mar, a arquitetura está sempre presente.

Os preços dos serviços de João Curvelo começam nos 400€. Pode entrar em contacto com ele online através do Linktr.ee.

Carregue na galeria para ver alguns dos trabalhos realizados pelo decorador.

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