Decoração

De ruína a casa de sonho: a transformação radical da moradia com vista de sonho

A Casa Caldeira, em Foz Côa, foi reabilitada com base em materiais naturais e respeito total pelo passado.

Ao longo dos séculos, o edifício passou por várias gerações e alterações constantes. Chegava o bisavô e ampliava a sala, vinha a avó e mudava os quartos. Por isso é que as construções anexas à casa não têm qualquer relação arquitetónica com a construção original. Um dos poucos elementos que se manteve foram os soletos de ardósia, utilizados como revestimento principal da estrutura em alvenaria de xisto.

Quando a herança familiar chegou às mãos de Vítor e Sofia, o casal percebeu que o espaço precisava de uma reabilitação. “Tinham alguma sensibilidade e vontade de recuperar aquele edifício que, apesar de estar no centro histórico, era muito pobre e tinha algumas condicionantes”, confessa à NiT o arquiteto Filipe Pina, responsável pelo projeto.

Da reabilitação deste edifício do final do século XIX nasceu a Casa Caldeira. Fica no coração de Vila Nova de Foz Côa e foi transformada numa moradia moderna com 270 metros e vista desafogada para o Douro. Foi a partir dos dois elementos, a ardósia e os apontamentos de xisto, que o arquiteto reconfigurou o espaço e destacou o alçado voltado a sul, que se tornou o destaque do projeto.

Típicos da região, “foi quase automática” a escolha destes materiais para a renovação. Há ainda peças de xisto colocadas no exterior, como nas escadas, e peças de ardósia nas lajes e nos pisos. Os arquitetos aproveitaram tudo o que foi possível e recuperaram elementos pré-existentes de serralharia e alvenaria de granito, deixando à vista as ruínas dos muros.

Destaca-se ainda a madeira aproveitada nos soalhos e a cortiça no piso intermédio “por uma questão de acústica”. Em todo o projeto, recorreram a materiais naturais e a uma arquitetura tradicional, de forma a “preservar as características arquitetónicas de carácter histórico” e a conferir uma “realidade contemporânea” à reabilitação.

Em termos de projeto, o exercício era dar resposta a um programa “muito simples” com dois pisos. Neste edifício, assim como nas restantes habitações da região no século XIX, tinham apenas um piso inferior, usado para os animais ou para armazenamento da agricultura, e só no andar de cima é que acontecia a vivência.

O interior é marcado pelo brutalismo dos muros.

Na zona térrea, encontra-se a área social com paredes em ruína reconstruídas. Na parte de cima, os arquitetos brincaram com simetrias para resolver o posicionamento dos dormitórios, sendo que as filhas são gémeas e queriam refletir isso na planta. Esse foi o ponto de partida para o três quartos, cujo ponto de encontro é um espaço amplo com vista para a paisagem natural da região.

“No acesso aos quartos, subimos umas escadas desenhadas com uma chapa metálica. Chegamos e absorvemos a paisagem virada para o Douro e o Museu do Côa. Há ali um espaço de convivência”, refere o arquiteto. “Há um grande janelão que se abre para o exterior e onde se contemplam ciprestes, vinhas e até mesmo as ruínas da habitação.”

Em todas as fotografias, observam-se duas fachadas que se relacionam com o centro histórico. “Houve um respeito total e não foi feito revestimento como no exterior, nem abrimos vãos novos. Houve vontade de trazer o novo com técnicas tradicionais.

Por dentro, os espaços mantiveram-se minimalistas em termos de mobiliário. Como a casa foi definida pela sua pré-existência, as salas eram divididas por dois muros que foram mantidos, duas zonas com acesso para o exterior. Não houve grande estudo em relação à decoração até porque, segundo Filipe, apostou-se em peças que tinham há algum tempo.

“Há um teto na sala de refeições que ficou em betão porque achámos que era de um brutalismo tal que combinava bem com as paredes de xisto. Ter o teto perfeito não era a intenção”, acrescenta. “O betão rude fazia sentido, sobretudo pela divisão dos espaços através dos muros. Houve quase uma ausência de projeto no piso zero.”

Se for removido o alçado virado a sul, reproduzido com técnicas tradicionais, a casa original continua presente. Na cozinha, o muro existente continua presente. A pré-existência foi o ponto de partida, assim como em muitos projetos de Filipe Pina. “Quando faço alguma palestra, destaco que este exercício é fundamental. Se há uma casa singela, tem um caráter arquitetónico que a precede”, conclui.

Carregue na galeria para ver mais fotografias da casa tiradas pelo fotógrafo Ivo Tavares.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT