Decoração

Os monstros imaginários da nossa infância viraram obras de arte (e estão à venda)

Carlos Manuel Gonçalves trabalhou em marketing, publicidade e foi produtor de teatro. Esta é, contudo, a sua grande paixão.
São adoráveis.

Existem poucas coisas mais criativas do que as mentes dos mais novos. Para eles, os dragões, as fadas e os monstros são tão reais quanto os pais e os amigos. Carlos Manuel Gonçalves, atualmente com 40 anos, era um destes miúdos com uma imaginação fértil. A única diferença é que as criaturas monstruosas que viviam nos seus pensamentos nem sempre eram suas inimigas: eram os seus principais companheiros num Alentejo pacato, numa altura em que nem existia a palavra Internet.

Vive em Lisboa há 15 anos, e a sua carreira tem sido tudo menos heterogénea. “O meu percurso profissional tem sido muito variado. Já trabalhei na área de publicidade e merchandising, já fui guia turístico. Também trabalhei em produção de teatro e, na verdade, foi através do foco na área cultura que cheguei a este hobby”, conta à NiT. A pandemia também teve a sua influência. Os teatros fecharam e não havia peças em cena. “A minha profissão a tempo inteiro passou a ser a cerâmica.” Era quase como uma terapia, uma forma de relaxar após um dia cansativo e stressante.

Em 2019, ofereceram-lhe a oportunidade de participar num workshop de porcelana. “Achei interessante, mas percebi que aquilo que eu queria era moldar as peças com as mãos. Acabei por me inscrever num curso de iniciação à cerâmica e nunca mais parei.” As suas criações rapidamente começaram a chamar a atenção do público. Fazia-as em ateliers de outros artistas, e todos ficavam admirados com elas.

“Começaram-me a dizer que tinha de mostrar o meu trabalho”, recorda. E foi assim, com zero expectativas e quase como uma brincadeira, que começou a “maior aventura” da sua vida. Atualmente, tem o seu próprio espaço na zona das Janelas Verdes.

Quando os teatros reabriram em abril do ano passado, já não tinha muita vontade de voltar à profissão que tinha. Os pedidos de peças de cerâmica eram também cada vez mais frequentes. “Acabei por me atirar de cabeça e agarrar este sonho. Não me arrependo, tem acontecido muita coisa desde então. O meu trabalho está à venda em várias lojas de norte a sul do País, fiz a minha primeira exposição individual a 8 de julho, no espaço Pura Cal no LX Factory e, um mês depois, já tinha quase todas as peças vendidas”, afirma com orgulho. Este impulso inicial fez com que, hoje em dia, viva exclusivamente da cerâmica.

A mostra funcionou como uma porta de entrada no mundo da arte, e as oportunidades começaram a multiplicar-se. Em agosto, recebeu o convite de uma associação italiana de arte para se candidatar a uma mostra que integra a semana do design vai decorrer em Veneza, entre 30 de setembro e 30 de outubro. Apresentou uma proposta e foi selecionado. “É muito importante poder estar representado num evento internacional. Sinto que estou a chamar a atenção de cada vez mais portugueses e, agora, dos estrangeiros.”

Sempre se afastou de criações mais tradicionais. Na primeira aula que teve criou uma caneca com duas pegas a servirem de orelhas, com olhos e uma boca. Percebeu que era aquele o seu registo, a sua identidade artística. “É tudo muito pouco pensado. Muitas vezes começo a fazer uma peça e não sei bem o que vou criar. É como uma dança entre mim e o que estou a fazer. É quase como se me pedisse para a amolgar de uma certa maneira. É inexplicável, mas muito orgânico”, refere o artista.

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O Alentejo continua a ser uma referência muito presente. Vai buscar os bigodes e outros aspetos que traduzem as vivências das gentes do campo, recorda os animais com os quais brincava quando era miúdo e insere todas essas referência da infância nas suas obras. “As pessoas acham muita piada aos monstros que crio, que fazem parte de algo muito pessoal e íntimo. Não pensei que se fossem identificar com o que faço”, confessa. Algumas figuras têm histórias e outras são apenas personagens que tinha no seu imaginário e que agora são materializadas.

“Já me aconteceu estar a fazer uma peça e, de repente, apercebo-me que reconheço aquela criatura. Surgiam das imagens mais simples. Depois de ver um filme de terror, por exemplo, imaginava que era perseguido no corredor por um monstro”, explica Carlos Manuel Gonçalves. Para o artista, ver outras pessoas a tornarem-se fãs daqueles seres que viviam na sua imaginação provoca uma “sensação incrível”.

Aquilo que o podia assustar quando era mais novo é agora retratado de forma humorística, abordagem que já lhe rendeu inúmeros elogios. “Um senhor uma vez disse-me que desde os tempos de Bordallo Pinheiro que não via humor na cerâmica em Portugal. Nunca o fiz com intenção, mas é agradável saber que apreciam este lado da boa disposição. E a arte tem o poder de conseguir agitar mentalidades”, garante.

Segundo nos explica, a produção das peças é um processo muito demorado. Após fazer um primeiro molde, tem de esperar cerca de duas semanas até que seque. Só depois é que pode ir pela primeira vez ao forno, altura em que o barro adquire um estado mais sólido e cerâmico. “Uma peça demora, à vontade, três semanas até ficar pronta”. Além disso, gosta de dar a cada uma um toque de singularidade, para que nunca existam duas criações iguais.

As suas obras podem ser adquiridas através da sua página no Instagram e em alguns espaços físicos, como a Pura Cal, em Lisboa, na Depozito, na Casa Bli, em Loulé, e em vários outros pontos do País: Évora, Tomar, Comporta, entre outros. Os valores das peças variam entre os 65€ e os 650€.

Ainda não tem uma loja em nome próprio, mas isso também não está nos planos. “As minhas peças são muito procuradas e não consigo ter stock suficiente para uma abrir uma loja online. Neste momento, tenho um tempo de espera de dois meses”. Carlos prevê, contudo, começar a apostar com mais frequência em peças maiores e mais extravagantes.

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