Decoração

Vera Leite: a influencer sexy da Remax que se farta de vender casas

Entre fotos de looks e de jantares, usa a imagem para bater a concorrência apesar das duras críticas das mulheres. "É hipocrisia."
A ex-personal trainer reinventou-se como agente

“Só em Portugal é que se pensa que temos de ser um pãozinho sem sal para vender casas. Estou aqui para desmistificar isso.” Aos 37 anos e com apenas dois de profissão como agente imobiliária, Vera Leite tem poucas dúvidas de que está no ramo certo.

Agarrou a área do imobiliário sem nunca vestir “a farda”. Também recusou sempre passar “aquela imagem com que tantos gozam”, do agente de braços cruzados nas fotografias de divulgação. Queria cortar com o passado, experimentar uma estratégia nova. Quando o fez, percebeu que dava resultados.

Alta, loira e sempre bem arranjada, a natural de Oeiras tem mais de vinte mil seguidores no Instagram. É lá que mostra como vive, é onde partilha as idas aos restaurantes, as brincadeiras com o filho — e é também ali que trabalha, que publica as fotografias dos imóveis que pretende vender. O perfil é um híbrido, uma ferramenta de trabalho e de lazer. Mas funciona.

Uma das primeiras casas que colocou no mercado foi a sua. Vendeu-a em apenas duas semanas. É através de pequenos vídeos bem editados e pensados ao pormenor que habitualmente mostra as casas. A presença de Vera nas imagens também é habitual: faz tudo parte do plano de se tornar “numa influencer do imobiliário”.

“Obviamente que uso a minha imagem no trabalho e efetivamente, beneficia-me, mas não me ajuda a fechar os negócios”, atira entre risos. “Se só parecesse bem mas depois não percebesse patavina do que estava a fazer, nunca conseguiria vender os imóveis.”

Há vinte anos, Vera não imaginava que esta se tornaria a sua profissão, apesar de confessar ter sempre gostado de casas e de decoração de interiores. Formou-se como educadora de infância, trabalhou na área e acabou por se mudar para França, onde se dedicou a outra paixão, o desporto.

“Sempre gostei de desporto, fiz natação, joguei futebol. Nas redes sociais publicava treinos, dicas de alimentação saudável”, recorda. Em França trabalhou como animadora desportiva de crianças na Decathlon, onde conseguiu juntar o gosto pelo desporto e pela educação infantil.

Ao fim de cinco anos mudava-se com o então marido para Bangalore, na Índia, onde teve uma experiência radicalmente diferente. Formou-se como personal trainer e começou a dar aulas a clientes privados e em hotéis de luxo. “Dava aulas à alta sociedade, era um meio incrível. Por vezes cá não temos a noção do luxo em se vive lá”, conta. Pelo caminho surgiu outro hobby, o da música. Começou a trabalhar como DJ e acabaria por se tornar na disc jockey residente do hotel Ritz Carlton.

Mais de uma década depois, em 2019, regressou ao nosso País, onde o futuro profissional era uma incógnita. “Pensei em voltar ao fitness mas em Portugal, um personal trainer é visto como alguém temporário. Pensei que não me iria permitir ter um estilo de vida incrível”, conta. Foi então que surgiu um convite de uma amiga, também agente imobiliária.

Influencer do imobiliário

Tinha poucos seguidores Instagram, mas quando desenhou a estratégia para ser bem-sucedida na nova profissão sabia que o sucesso iria passar por ali. Ao seu superior na REMAX apresentou a tática, a “única que aceitaria seguir” e que, acreditava, teria sucesso garantido. Ninguém se opôs.

“Fiz as formações e as coisas rapidamente começaram a correr muito bem”, explica. Nestes dois anos, já perdeu a conta aos imóveis que vendeu.

A ideia foi buscá-la a “mercados imobiliários mais desenvolvidos”, como o Dubai ao do Estados Unidos, onde “há imensos influencers” que se tornam famosos e, por isso, “conseguem vender muitas casas”. Por cá, diz, “não há influencers no ramo”. Ou não havia.

Foi precisamente com esse objetivo em mente que tornou o seu perfil do Instagram acessível a todos. Entre as fotos de pratos de comida em esplanadas e retratos com o filho, surgem casas de sonho, sobretudo em vídeos curtos que, diz, “ajudaram a dar um empurrão enorme” ao número de seguidores. “Não faço posicionamento, não distribuo cartões. Todos os meus contactos chegam através das redes sociais.”

“Os agentes ainda são vistos como muito certinhos, todos engravatados, naquela pose de braços cruzados. Quase sempre com uma pose muito rígida. Queria dar uma nova imagem, um ar mais descontraído, deixar as pessoas mais confortáveis”, explica.

Parte do segredo assenta no perfil e na estética que Vera cria, que inclui as casas impecavelmente decoradas e os seus looks cuidados. Tudo é pensado ao pormenor — e claro que não é qualquer casa que conquista um espaço no feed.

“Sou muito rigorosa com as fotos que tiro das casas. Detesto ver escovas dos dentes em cima dos balcões, sacos de roupa espalhados. É preciso ter algum cuidado”, nota. Só trabalha com imóveis com as quais se identifica e a ponderação final assenta numa simples pergunta: “Tenho de responder sim à pergunta se ‘gostaria de viver ali’. Em relação a todas as casas que publiquei, responderia sim.”

Além de agente de vendas, já tornou também numa espécie de consultora. Cria ligações próximas com os clientes e estes acabam por lhe enviar outras casas sobre as quais pedem a opinião de Vera. “Criamos empatia, fazemos amigos. Um dos meus clientes é atualmente meu cabeleireiro.”

Embora confesse não ser capaz de precisar quantos imóveis já vendeu nestes dois anos, explica que “quem trabalhar bem”, consegue fazer “muitas mais valias” no negócio.

Um batalhão de críticos

Assim que os seguidores atingiram o patamar dos milhares, o lado mais negro das redes sociais começou a revelar-se. Aos elogios juntaram-se as mensagens privadas mais inapropriadas e os comentários insultuosos. O destino é quase sempre o mesmo: a eliminação e o bloqueio. Apesar de confessar alguma tristeza, justifica que lida bem com “os inevitáveis comentários negativos”.

Há, porém, um outro batalhão de críticos, menos anónimos, que não veem com bons olhos a estratégia ousada de Vera. No sempre “duro e competitivo” mundo do imobiliário, os colegas são por vezes os seus piores inimigos. “Há muita gente a tentar passar por cima uns dos outros (…) É uma guerra — e é muito triste.”

A maioria dos “comentários desagradáveis” é feito por outras mulheres. “Obviamente”, frisa Vera. “Criticam a minha forma de vestir, dizem que estou a vender o corpo.”

“O problema é que em Portugal existe o estereótipo de que se uma mulher se arranja, se é vistosa, não pode ter sucesso no trabalho. E se o tem é porque o conseguiu por outros meios”, diz.

Os temas da aparência e imagem corporal, bem patentes no perfil de Vera, não são tabu. “Obviamente que [a imagem] ajuda, tal como a beleza de uma atriz também a ajuda a ter sucesso. Vejo isso como uma coisa normal”, afirma.

“Uso a minha imagem como a usam outros em países cujo mercado imobiliário está mais desenvolvido. E nunca me via a trabalhar na área que não fosse desta forma”, atira, antes de contra-atacar. “É um bocadinho hipócrita incentivar as mulheres a serem independentes, que se promova a igualdade, mas depois quando o fazemos, quando somos independentes, confiantes, fazemos o trabalho tão bem como os homens, somos atiradas para baixo. É hipócrita. Não faz sentido.”

Compara o seu trabalho como agente imobiliária ao de tantas outras pessoas que usam as redes sociais para promover os projetos profissionais e para expor parte do seu lado mais pessoal. Frisa que apenas publica o que quer, que salvaguarda a vida íntima e que está ciente da responsabilidade, até porque trabalha para uma grande agência imobiliária.

“Sabia que este era o caminho que queria percorrer e desde o início que concordaram com a minha visão. Nunca colocaram entraves”, diz sobre os seus superiores. Quanto à estratégia, está bem delineada: “Tenho noção das coisas, sei que isto é o meu trabalho. Nunca me vou expor de forma louca para vender casas. Tenho família e amor próprio e isso impede-me de fazer certas coisas.”

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